O Guarda da Rainha

O Guarda da Rainha

Placa de aviso em formato GIF com fundo preto e texto em branco e amarelo que diz: "ATENÇÃO: Este conto contém descrições gráficas de violência, sexo, linguagem imprópria e outros temas adultos. Recomendado para maiores de 16 anos. Leia por sua conta e risco."

O ar no quarto fedia. Uma mistura azeda de suor, sexo barato e cheiro de mofo que subia daquele colchão de palha. Ela estava ali, deitada ao meu lado, a princesa… um emaranhado de cabelo real e pele suada. Um corpo que eu tinha acabado de usar, ou que, no fim das contas, tinha me usado. Tanto faz. A gente se fodeu. Simples assim. Um ato tão mecânico quanto afiar uma espada. Empurrei, ela recebeu, acabou. Sem fogos de artifício, só o rangido da cama e o bafo de vinho. Quem nunca se pegou pensando nisso? O quão vazia a coisa toda pode ser.

Eu, Robert, chefe da guarda, um cão de caça da coroa, estava ali, em mais um dia de merda. A ironia era um soco no estômago, mas eu já estava acostumado a apanhar.

“Minha mãe…”, ela começou, a voz um veneno doce. “A Rainha Suzane II, a Magnífica. Magnificamente insuportável.”

Eu dei de ombros, um movimento inútil debaixo dos lençóis. Conhecia a mãe dela, claro, muito mais até do que ela. E conhecia o reino: um conto de fadas apodrecido. E no centro de tudo, o Palácio de Versalhes. Ah, Versalhes… uma piada dourada de 1700, um labirinto de corredores frios e salões ecoando falsidade, onde nobres com sífilis e poetas sem talento puxavam o saco da rainha. E a própria Rainha Suzane II? Uma mulher que já fora bela, mas cujo tempo, tipo assim, tinha passado. Agora era só uma casca enrugada, a pele fina como papel sobre os ossos, os olhos fundos e um cheiro de perfume caro tentando, sem sucesso, disfarçar o cheiro da morte que já a rondava. E eu… eu era o chefe da guarda dela. O cão de caça. Não é curioso? Aqui, neste vilarejo esquecido por Deus, disfarçado de um ninguém, deitado na cama com a herdeira do trono que ela me pagava pra proteger.

Ela se virou, o corpo quente contra o meu. “Robert, preciso de um favor. Mas sei que você vai dizer não.”

Nessa noite somente eu estava bebendo. O vinho estava deliciosamente doce, então peguei o copo de vinho na mesa de cabeceira. A bebida desceu queimando, um calor familiar no vazio do meu estômago.

“O que é?”

“Eu quero ser a rainha”, ela disse, sem um pingo de hesitação, os olhos brilhando com uma ambição fria e calculista. “Preciso que mate a minha mãe.”

Eu ri. Uma risada curta, um som seco, como um osso quebrando. Uma piada de mau gosto, com certeza. Continuei a beber, mas de repente o copo ficou pesado, meus dedos perderam a força, uma dormência se espalhando como veneno pelo meu braço. Opa! O vidro se estilhaçou no chão. A dormência tomou meu corpo todo. Merda… poção.

Ela me olhava, hesitante, ansiosa, os lábios finos curvados num sorriso quase imperceptível.… Com certeza tinha feito alguma coisa. Envenenou o vinho, a desgraçada. Mas por quê? Por que me matar? O que isso tinha a ver com a rainha? Logo eu? O comandante da guarda. Um herói de merda. Desde os doze anos em batalhas, viajando por tudo que é canto desse mundo podre, matando em nome do reino. Mais de cem inimigos enviados para o inferno na conta. Alguns amigos também, tive esse desprazer. E agora ia morrer assim? Num puteiro fedido, num vilarejo esquecido que cheirava a fezes de porco. Que final de bosta.

A porta se abriu. A Fada Negra, a bruxa de estimação da princesa, entrou. Uma sombra com olhos de carvão. E que sombra. Uma garota, talvez. Morena, um corpo pequeno, quase de criança, mas com uma sensualidade que não pertencia à idade que aparentava. Vinte anos? Impossível dizer. O cabelo era uma cascata negra, enorme, caindo sobre uma túnica preta com capuz que era a única coisa que ela vestia. Trazia uma bolsa grande de couro de carneiro a tiracolo.

Tentei falar, mas minha língua era uma pedra inútil na boca. Não era veneno, era algo paralisante. Merda. Eu ainda não estava morto. Apenas um espectador, um pedaço de carne inerte, observando o circo de horrores se desenrolar.

Presenciei o encontro delas. A princesa foi até a bruxa e elas se beijaram. Um beijo quente, demorado, as línguas se enroscando numa dança faminta. Carinhos. Mãos explorando corpos. A princesa puxou a túnica da bruxa. Por baixo, nada. Completamente nua, a pele pálida e lisa, sem um único pelo cobrindo o sexo infantil. E então, ali, na minha frente, elas começaram a se amar. A princesa, alta e esguia, por cima da bruxa pequena. Movimentos lentos, depois rápidos, famintos. Gemidos baixos. Eu assisti a tudo, a cada detalhe, a cada gota de suor, o som da pele contra a pele. Um teatro particular no meu inferno pessoal.

Enquanto elas se amavam, eu forçava. Forçava cada músculo, cada nervo, toda a minha alma para conseguir me mexer. Era como tentar empurrar uma montanha. Foi com toda a força que tinha no corpo que consegui. Um espasmo. O dedo mindinho da mão esquerda. Mexeu. Um milímetro. Já era um começo.

Quando terminaram, vieram até mim. Com muito esforço – eu sou um homem grande, 1,80 de altura, 90 quilos de músculo puro – elas me arrastaram da cama. Meu corpo inerte bateu no chão de madeira como um saco de carne.

O ritual começou ali mesmo, naquele chão imundo. A bruxa abriu a bolsa e tirou pós de várias cores. Com eles, desenhou um círculo ao meu redor. Um cheiro forte de ervas, de terra, de morte, subiu e encheu o ar. Sangue de algum animal – galinha, sim, pelo cheiro – foi derramado nas bordas do círculo. Pude ver os corpos delas de perto. Brancos, perfeitos, a juventude intocada por pelos ou cicatrizes. Mas agora estavam cobertos por inscrições antigas, rabiscadas com sangue fresco, o suor do sexo ainda escorrendo entre os seios e as coxas.

E elas dançaram. Hum… não era uma dança, era uma convulsão. Movimentos espasmódicos, profanos, enquanto cantavam numa língua que fez meu sangue gelar. E enquanto entoavam os cânticos, algo mudou. O ar da sala começou a tomar um tom esverdeado, doentio. E atrás delas… criaturas. Feitas de ar, de fumaça, começaram a se formar. Elas as abraçavam, dançavam com elas, no mesmo ritmo frenético. E então, o horror. As criaturas começaram a entrar nelas. Pelos olhos, pelas bocas abertas em êxtase, pelo meio das pernas. Se fundindo, se tornando uma só. Quando os sons fantasmagóricos acabaram, éramos somente nós três novamente, naquele cenário estranho e surreal.

Eu já conseguia mexer a mão completamente. A esquerda, pelo menos. Mas acho que meu tempo havia terminado.

A princesa ajoelhou-se sobre mim. Seus seios, suados do ritual, rígidos pela excitação de tudo que estava correndo, balançando sobre meu rosto. Ela segurava a adaga de obsidiana, negra como um buraco no universo. Com um corte preciso — sim, exatamente — ela abriu meu peito. Sem dor. Não no começo. Eu estava paralisado, um pedaço de carne consciente, um espectador do meu próprio esquartejamento. Minha mão esquerda se contraía, se abria e fechava, um último gesto inútil de desafio.

Senti os dedos dela dentro de mim. Frios, finos, cutucando minhas costelas, o som molhado de órgãos sendo afastados. E então, a dor. Uma explosão branca e absoluta, um sol de agonia explodindo atrás dos meus olhos quando ela agarrou meu coração e o arrancou.

Eu o vi na mão dela, pulsando. Uma, duas vezes. Uma bomba de carne patética. E a cada batida, eu via. Fios de fumaça esverdeada, os espíritos que as possuíram, saíam pelas bocas e olhos delas, no ritmo do meu coração, e mergulhavam no órgão que ela segurava. As paredes vermelhas do meu coração pulsante começaram a se tornar verdes, uma cor de veneno e podridão. Foi a última coisa que vi. E então, o nada.

O nada era bom. Paz. Uma luz quente, um alívio. Era só o fim da dor, o fim de toda a merda. Eu não pertencia mais àquele mundo. Não enxergava, não sentia, nada. Meu cadáver era só um detalhe sujo no chão. Enquanto eu me afastava, para outro plano, outro lugar, eu sentia um calor imenso, uma luz forte. Eu flutuava em direção a ela, e quanto mais perto, mais sentia que estava voltando pra casa. Não uma casa com paredes e teto, mas uma origem. Um lugar de onde eu nunca deveria ter saído para aguentar quarenta anos de vida. Fim do jogo.

Mas algo me puxou.

Um anzol na alma. Um puxão violento, me arrastando de volta para o açougue. Minhas sensações voltaram de uma vez. O cheiro de sangue, o frio do chão, a dor fantasma no meu peito. A vida, a desgraçada, mais uma vez se enroscava naquela coisa que eu chamava de alma.

Abri os olhos. Respirei. E a dor veio com o ar. Uma agonia lancinante no meu peito. Olhei pra baixo. Havia uma cicatriz feia, um vergão preto, fechado a fogo, no lugar onde meu coração deveria estar. Eu respirava por puro costume, um tique nervoso de um corpo que não sabia que já estava morto. Meus pulmões não precisavam mais de ar. Eu era uma máquina de carne que ainda imitava um homem.

A princesa sorria, segurando o frasco de vidro. Lá dentro, suspenso num líquido rubro e espesso, meu coração batia. Lento, mas batia, com aquela luz verde doentia pulsando dentro dele.

“Ele já bate há uma semana”, ela disse, a voz casual, como se comentasse o tempo. “Nunca nenhum durou tanto.” Dizendo isso, ela lançou um olhar satisfeito para a sua bruxa. Um elogio. E eu entendi. Eu não era o primeiro. Fui apenas o primeiro rato de laboratório que não morreu na mesa.

“Você é imortal, meu amor”, ela continuou, se aproximando. “Enquanto este coração bater, você não pode morrer. E enquanto eu o alimentar com os espíritos, você permanecerá… útil. Pode até viver para sempre. Mas se me desobedecer… ah, se você me desobedecer… eu paro de alimentá-lo. E o deixo apodrecer. E você apodrecerá junto, sentindo cada pedaço do seu corpo se desfazendo em vida.”

Ela me deu um beijo. A boca dela tinha gosto de sangue e poder. Com um rangido de ossos, eu consegui me erguer e sentar. Um movimento duro, antinatural.

Ela entregou o pote com o coração para a bruxa, que o guardou na bolsa de couro e saiu da casa, desaparecendo na floresta. Minha vida, agora, cabia numa bolsa.

A princesa me olhou de cima a baixo. “Em algumas horas, você vai conseguir andar. Em alguns dias, terá a força de quinze homens. Meus espíritos te darão poder. Dons que um homem de verdade jamais sonharia em ter.”

Ela se virou enquanto caminhava para a porta.

“Agora vá. Mate a rainha. Com a força de quinze homens que eu te dei, será fácil.”

E foi.

Chegar perto da rainha era meu trabalho. A velha me desejava, não era segredo pra ninguém naquele palácio fedorento. Ela me via como seu cão de caça pessoal, o homem que trazia sua filhinha delinquente de volta pra casa depois das escapadas secretas. A princesa ia para os povoados se afogar em vinho, foder com camponeses e queimar o dinheiro real, e eu ia atrás, o guarda-costas, a babá. A rainha provavelmente imaginava que eu estava voltando de mais uma dessas viagens. Tenho até a desconfiança de que ela mesma oferecia meus favores sexuais para a filha, um jeito doentio de manter algum controle.

Levei-a para seus aposentos. O cheiro de velhice e perfume forte no ar. Ela se despiu. Um corpo flácido, a pele manchada pelo tempo, os seios caídos. Deitei com ela. Um último serviço para a coroa. Ela me puxou pra cima dela, faminta. Suas mãos tremiam, arranhando minhas costas. A boca dela, com gosto de vinho e decadência, buscou a minha. Eu a fodi. Com força. Um ato brutal, mecânico. Eu era uma máquina. Cada estocada era um prego no caixão dela. Ela gemia, se contorcia, os olhos se revirando de um prazer desesperado, o prazer de uma mulher que não sentia um homem de verdade há meses. Eu a segurei pelos cabelos, a cabeça dela batendo contra os travesseiros de seda. Ela amou.

Eu não sentia nada. Era como foder um pedaço de carne morna.

Quando acabou, ela suspirou, um som patético de satisfação, e se aninhou em meu peito. Adormeceu quase que instantaneamente. Era a hora. Coloquei minha mão sobre o peito dela, sobre o coração fraco e velho. Concentrei a força que a princesa me deu. Não um soco, nada que deixasse marca. Apenas uma pressão. Constante, desumana. Senti as costelas dela rangendo sob a minha palma. O coração dela tentou bater contra a minha mão. Uma, duas vezes. Um espasmo. Os olhos dela se abriram no escuro, um lampejo de confusão, de terror. E então, nada. O motor parou. Morte sem evidências. Um ataque cardíaco perfeito.

Mas o som de suas pernas se debatendo diante da dor, foi o suficiente. A porta do quarto explodiu. Três dos meus homens, a guarda de elite, entraram. Assim que me viram, nu, em cima do corpo da rainha, as espadas saíram das bainhas.

Eles vieram pra cima de mim. O primeiro, um jovem idiota chamado Léo, atacou com um golpe de cima pra baixo. Patético. Eu me movi. Não como um homem, mas como uma sombra. A velocidade era impressionante, até pra mim. Desviei da espada dele, agarrei seu pulso e o quebrei. O osso estalou, um som alto e molhado. Ele gritou. Os outros dois pararam por um instante, chocados. Tempo demais. Chutei a espada da mão do segundo e agarrei o primeiro, Léo, pelo rosto e pela nuca.

E eu puxei.

Houve um som. Um som que eu nunca vou esquecer. O som de pele grossa se partindo, como um pano molhado sendo rasgado. Músculos e tendões se rompendo. E então, o estalo final, alto e seco, da coluna vertebral se partindo. A cabeça dele saiu nas minhas mãos. O corpo caiu, jorrando um chafariz de sangue escuro no tapete caro.

O segundo guarda, paralisado, só conseguiu olhar para a cabeça que eu segurava. Joguei-a na direção dele. Ele se assustou, tropeçou. Eu já estava em cima dele. Pisei em sua garganta. Esmaguei. O som de cartilagem se quebrando foi um alívio. O terceiro largou a espada e tentou correr. Eu o alcancei em dois passos. Agarrei-o pelas costas e o quebrei no meu joelho. A espinha dele se partiu com um estalo que ecoou pelo quarto silencioso.

Olhei para a bagunça. Sangue, órgãos, merda. Amaldiçoei os três. Agora eu tinha que limpar. Ou melhor… encenar. Arranquei a espada da mão de um deles e a enfiei no peito do outro. Coloquei a cabeça de Léo perto do corpo da rainha. Perfeito. A rainha morta, assassinada por seus guardas, que depois foram mortos por mim. Quem iria duvidar? Na verdade era uma história fantástica demais até mesmo para ser contada.

Na manhã seguinte, o palácio era um manicômio. O alvoroço pelo assassinato da rainha era total. Ninguém conseguia explicar a carnificina. Parecia que um urso feroz ou um leão faminto tinha entrado nos aposentos reais. Cartas voavam em pombos para todos os cantos do reino. E todos procuravam pela princesa, que havia sumido.

Mas eu sabia onde ela estava.

Voltei para o puteiro, para o povoado fedorento e afastado, para o cheiro de mofo e vinho barato. Voltei para a princesa. O monstro. Ou, na verdade… talvez o monstro agora fosse eu.

Entrei no quarto. Ela estava me esperando, sorrindo.

“Meu coração. Me devolva. Coloque-o no lugar.”

Ela riu. Uma risada de menina mimada. “Apenas quando a coroa estiver na minha cabeça.”

Infantil. Inconsequente. Olhei para ela, a arrogância brilhando em seus olhos, e me perguntei se em sua mente pequena e rebelde ela realmente imaginou que poderia controlar um homem que nunca ligou muito para estar vivo.

A força de quinze homens.

Eu não fui até o pescoço. Fui até a garganta. Minha mão se fechou em volta dela, e o sorriso sumiu, substituído por um choque de pânico. Levantei-a do chão com um braço. Ela se debateu, as pernas chutando o ar, as unhas arranhando meu pulso, mas era inútil. Era como uma boneca de pano lutando contra uma prensa de ferro. Eu a observei de perto, vi o terror florescer em seus olhos enquanto o ar lhe faltava. Eu apertei. Não com raiva, mas com uma curiosidade fria. Senti a cartilagem delicada de sua traqueia ranger e depois ceder sob meus dedos. Um som úmido, um estalo abafado. O corpo dela ficou mole. Um desperdício. Um corpo tão lindo e jovial, agora apenas um saco de carne pendurado na minha mão.

Joguei-a no chão. E foi nesse momento que senti.

Algo se rasgando dentro de mim. Uma parte de mim sendo destruída. O espírito que ela usou para me alimentar, a coisa que me dava força, me abandonou. Senti uma pressão gelada e nauseante subir do meu peito para a minha cabeça, e então um vapor verde e oleoso saiu sibilando pelo meu nariz, se dissipando no ar preenchido pelo incenso adocicado e pela fumaça da lareira. Um vazio oco ficou no lugar.

E então, a dor.

Não foi uma dor comum. Foi uma praga. Começou como ácido sendo derramado em minhas veias, espalhando-se por cada centímetro do meu corpo. Depois, atacou os ossos, uma agonia profunda e latejante, como se estivessem sendo quebrados e moídos lentamente. Minha carne começou a morrer. Eu via acontecer. Minha pele, primeiro, perdeu a cor, depois ganhou um tom doentio de verde, como carne deixada ao sol. E o cheiro… o cheiro adocicado e podre de mim mesmo. Eu estava apodrecendo vivo.

Junto com a dor, veio a fome. Não era fome de comida. Era um buraco negro no meu estômago, um nó de vermes se contorcendo, gritando para ser preenchido. Uma dor dentro da dor.

Eu era um monstro. Um monstro faminto. E a princesa, com seu sorriso cínico e sua ambição vazia, me transformou nisso.

Essas sensações duraram uma semana. Ou uma eternidade. No segundo dia, não conseguia mais ficar de pé. Podia comer um boi que a fome não passava, na verdade tudo que eu comia saia quase que de imediato, sem nem mudar a cor. No terceiro, uma camada de pele do meu braço se soltou como papel molhado. No quinto, eu gritava, mas nenhum som saía, apenas um chiado seco da minha garganta. Eu via o mundo através de uma névoa de dor, o quarto girando, meu corpo um pântano de podridão. Era exatamente como ela disse.

No sétimo dia, no fundo do poço da agonia, uma única fagulha de pensamento cortou a névoa. Uma última chance.

A bruxa.

Com o resto de força que me restava, eu me arrastei para fora daquele quarto fétido.

Eu a encontrei. A Fada Negra.

Na floresta, claro. Onde mais uma bruxa se esconderia? A cabana dela estava espremida sob a copa de um carvalho antigo, uma verruga de madeira na face da terra. E o que se seguiu não foi bonito.

Quando chutei a porta, ela estava sentada, lendo um livro velho à luz de velas. O lugar fedia a ervas secas, um cheiro forte que, por um momento, conseguiu abafar a minha própria fedentina de cadáver ambulante. O susto ao me ver foi grande. Seus olhos se arregalaram. Eu não disse nada. Apenas caminhei calmamente até ela, minha carne podre se desfazendo a cada passo, e enfiei a mão na bolsa que eu carregava. Joguei o conteúdo na mesa, em cima do livro dela. A cabeça da princesa. Já inchada e esverdeada, os olhos leitosos, um presente podre.

Ela me disse que não poderia me devolver o coração. Que o tinham atirado ao mar, parte do ritual. Uma cova de água para completar a magia. Disse que a princesa tinha mentido, que o coração batia porque eu estava vivo, e não o contrário. Que o mar o protegeria, mas que eu, sem o último espírito para me sustentar, iria morrer. E que eu não deveria tocá-la.

Confesso que ela me confidenciou essas informações já sem alguns dedos.

“Mentira,” eu disse depois que ela falou do mar. E agarrei o dedo mínimo da mão esquerda dela. Ela tentou puxar, mas era inútil. Eu torci. O osso pequeno estalou alto na cabana silenciosa. Ela gritou, um som agudo, de animal. O dedo ficou pendurado por um fiapo de pele.

“A verdade,” eu disse, a voz um rangido seco.

Ela, chorando, me contou sobre o coração, que ele não me mantinha vivo. Agarrei o dedo anelar. “Não é o suficiente,” eu disse. E puxei. Desta vez não houve um estalo, mas um som úmido de tendões se rompendo. O dedo saiu, levando um pedaço de pele junto. O sangue jorrou.

Foi então que ela falou dos espíritos. E enquanto falava, senti um calafrio. Ela não estava apenas explicando, estava recitando um feitiço. Chamando a parte do espírito dela que ainda me mantinha precariamente vivo, tentando arrancá-lo de mim para me dar o golpe de misericórdia.

Eu vi a mudança em seus olhos, um brilho de poder. Antes que ela pudesse terminar a frase, avancei. Enfiei meus dedos na boca dela, agarrei a língua escorregadia e puxei. Com toda a minha força podre. Ela se debateu, se engasgou, mas eu não soltei. A raiz da língua se partiu com um som nauseante de carne rasgando.

No fim, a matei. Quebrei o pescoço dela. Um ato final, quase mecânico. E caí, agonizando, no sangue dela que encharcava o chão da cabana imunda. O último fio que me prendia à vida tinha se rompido. Era a hora de me despedir pela segunda e última vez deste mundo de merda.

A fome. Era tão imensa quanto a dor que voltava com força total. Um último recurso. Uma ideia nascida do mais puro desespero animal. Eu a despi. Aquele corpo que eu vira nu no ritual. Agora, sem as inscrições, os pelos já crescidos, uma imagem selvagem. Enfiei a mão por entre seus seios, a carne ainda quente resistindo aos meus dedos. Com as unhas, rasguei a pele, quebrei as costelas e mergulhei a mão no peito dela. E o arranquei. O coração.

Ele pulsava na minha mão. E brilhava. Uma luz verde, como uma esmeralda doente, emanava dele. A cada batida, um pó luminoso saía e se dissipava no ar. E eu ouvi uma voz na minha cabeça. O espírito dela. Falando numa língua que eu não entendia, mas que era quente, que me confortava. Num espasmo de instinto, eu mordi. Comi aquele pedaço de carne pulsante. Lentamente. Saboreando o sangue quente, adocicado. Pela primeira vez em dias, senti um gosto que não era o da minha própria podridão.

E a dor parou.

Nas horas seguintes, senti meu corpo se refazendo. A força voltando. A pele recuperando a cor. O cheiro de cadáver se dissipando. Mas a fome… a fome continuou.

O corpo da bruxa estava pálido no chão, os olhos abertos e vazios. Me ajoelhei ao lado dela. Fechei seus olhos. E comecei a lamber o sangue já coagulado do chão de madeira.

Eu bebi. Bebi como um animal sedento. Bebi tudo. E então a fome… a fome também se acalmou com o sangue, mas eu queria mais, apesar do espírito me impedir de beber até o fim.

Eu me levantei e fui embora.

E cem anos se passaram.

O mundo era outro. Início do século 19. A França, a minha velha França, agora se ajoelhava para um baixinho corso chamado Napoleão, um folgado que se achava Deus e que, de certa forma, era mesmo. A Europa pertencia a ele. Tão longe daqui. Aqui era o Rio de Janeiro, 1808. Uma cidade úmida e febril que tinha acabado de receber a corte portuguesa, um bando de nobres covardes que fugiram de Napoleão e descobriram que o Brasil era o esconderijo perfeito.

Eu vim junto com eles. Um novo mundo, a mesma merda de sempre.

Naquela semana, nesta floresta densa e alienígena que cheirava a terra molhada e flores podres, dois padres foram mortos. Brutalmente. O assassino, um ladrão de pés descalços, os matou por dois burros velhos, uma bolsinha de ouro e dois pares de botas gastas.

E agora, o ladrão estava aos meus pés.

Ele se arrastava na lama, o rosto coberto de ranho e lágrimas, implorando pela vida miserável. Eu quase hesitei, um espasmo de algo que um dia foi humanidade. Mas então vi o sangue dos padres, já seco e escuro, na sola das botas que ele roubara.

“Piedade, senhor! Por Deus, piedade! Achei que quem matava os ladrões nesta floresta era a guarda do rei! Jamais imaginei que era vossa senhoria, um nobre!”

Olhei para ele, para a sujeira debaixo de suas unhas, para o terror em seus olhos. Eu estava com fome. Uma fome profunda, oca, que roía minhas entranhas. O último malfeitor que eu caçara fora há semanas. Estava cada vez mais raro achar esse tipo de lixo por aqui. Começava a me arrepender de ter vindo para este fim de mundo – na França, canalhas como este eram abundantes, uma praga que ninguém notava quando um ou outro desaparecia.

Eu sorri. E ele viu minhas presas. Caninos que eu mesmo lixei até ficarem pontiagudos, ferramentas para me ajudar a comer. Elas brilharam na escuridão da noite tropical, uma noite pesada, cheia de sons de insetos e do farfalhar de coisas que eu não conhecia. O frio da noite era meu único companheiro. Sempre foi.

Agarrei-o pelo pescoço. A pele dele era áspera, o pulso martelando em pânico sob meus dedos. Levantei-o do chão, os pés dele se debatendo inutilmente no ar. O cheiro. Primeiro o cheiro de suor e medo. Mas então, por baixo, senti o cheiro do sangue dele, quente, vivo, correndo a uma velocidade extrema sob a pele. O aroma abraçou minhas narinas, me embriagou, despertando o animal.

“E é”, eu disse, a voz um rosnado baixo, a última coisa que ele ouviria neste mundo.

“Eu sou o guarda da rainha.”

Referências:

  • SOALHEIRO, Barbara. Um dia em Versalhes era suficiente para entender as razões da Revolução. Aventuras na História. Dez. 2019. Este artigo descreve a rotina fútil, os custos absurdos e a falta de higiene no Palácio de Versalhes no século XVIII, validando a descrição de um “conto de fadas apodrecido” e a decadência da rainha e sua corte. Disponível em:
    https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/almanaque/historia-um-dia-em-versalhes-era-suficiente-para-entender-razoes-da-revolucao.phtml
  • WIKIPEDIA. Vampiro. A enciclopédia detalha as origens do mito dos vampiros no folclore eslavo e europeu, mencionando a associação com a nobreza (como Elizabeth Báthory e Vlad, o Empalador), a imortalidade e a necessidade de se alimentar de sangue, o que corrobora a transformação e a sobrevivência de Robert. Disponível em:
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Vampiro
  • SUPERINTERESSANTE. Como é um ritual de imortalidade?. Dez. 2017. A revista explora diferentes métodos e crenças sobre rituais de imortalidade em várias culturas, incluindo o uso de sacrifícios e a ideia de se tornar uma divindade, fornecendo uma base para o ritual sombrio realizado pela princesa e a bruxa. Disponível em:
    https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-e-um-ritual-de-imortalidade/
  • BRASIL ESCOLA. Vinda da família real para o Brasil. O artigo contextualiza a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808, explicando a fuga das tropas de Napoleão. Isso confirma o cenário histórico da parte final do conto, onde Robert se encontra no Brasil. Disponível em:
    https://brasilescola.uol.com.br/historiab/corte-portuguesa.htm

Como você avalia esse conteúdo?

Clique nas estrelas

Como você achou esse post útil...

Sigam nossas mídias sociais

Lamentamos que este post não tenha sido útil para você!

Vamos melhorar este post!

Diga-nos, como podemos melhorar este post?

Um comentário em “O Guarda da Rainha

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Tamanho do Texto-+=