O Vampiro Robert – Parte I: A Criatura

O Vampiro Robert – Parte I: A Criatura

Rio de Janeiro, Setembro de 2010.

Trezentos e cinquenta anos.

Aniversário de quê? De praga? Sete vidas de um gato, dizem. Que piada. Um gato tem a decência de morrer no final. Eu só… continuo. Nasci na França de Luís XV, um tempo em que chegar aos cinquenta era façanha de rei, e eu nem a isso cheguei. Morri aos quarenta. Minha alma foi para a luz, um alívio quente e merecido. Mas uma vadia real e sua bruxa de estimação me puxaram de volta pelo anzol, me enfiaram nesse arremedo de vida.

Veja o início da história aqui

E agora, 350 anos depois, a única coisa que não muda é a fome. Uma fome oca, que começa na boca do estômago e termina na alma. Fome de sangue… Literalmente falando.

No século 18 era mais fácil. O mundo era um matadouro. Pais pariam uma dúzia de filhos esperando que metade vingasse. A vida era barata. Eu podia arrancar um aldeão de uma taverna e, no dia seguinte, ele era só mais um bêbado que não voltou pra casa. Ninguém se importava. Hoje, o mundo, o desgraçado, ficou mais humano. Até a escória – estupradores, assassinos, ladrões de merda – tem alguém que os procure. Uma mãe chorosa, um parceiro de crime, um policial entediado.

Isso exigiu estratégia. Adaptar-se ou virar peça de museu. Adotei o século XXI e, com ele, minha querida Taurus 9mm, sempre fria e fiel no cós da calça, com um silenciador rosqueado na ponta. Se algum “Van Helsing” otário aparecer – e confesso, adoro os filmes do Drácula, todo aquele drama gótico é uma piada deliciosa – o chumbo chega primeiro, não para abater, mas para assustar, pois para manter minha sanidade eu adotei a prática de só “caçar” os piores tipos de ser humano e assim juntar o útil ao agradável: me alimento e presto um serviço para a sociedade.

A arma não é a minha fome, é o meu álibi. Eu a uso para abater a caça, um puff discreto, um corpo no chão. Para qualquer policial ou caçador de monstros de araque, a história está contada: as balas mataram o infeliz, não minhas presas. A ausência de sangue na cena do crime? Um pequeno detalhe que ninguém nota quando se tem dois buracos de 9mm no peito. A arma é a misericórdia de metal.

Só depois, quando o show acaba para os humanos, o meu começa. Eu me sirvo. O sangue quente, a refeição merecida.

Não respiro, não de verdade. Meus pulmões são foles inúteis, servem apenas para uma coisa: farejar. O ar me traz o cardápio da noite. E hoje, nas ruas da Lapa, eu caço.

E sou caçado.

Já faz uns dias. Estou sendo vigiado, perseguido. Uma sombra na borda da minha percepção. Um cheiro. Doce, quase floral, mas com um fundo… metálico. Agradável, mas é a beleza da flor carnívora. Odores escondem intenções. Sinto nos ossos mortos que não tenho mais. E o pior? A coisa sabe que eu sei. É um jogo. Um flerte de predadores. E eu, o idiota aqui, finjo que não notei. Deixo a isca balançar.

 

 

Rua Riachuelo. Meu paraíso e meu esgoto. Um caldeirão fervente de gringo suado procurando sexo, puta barata procurando um otário, e traficante vendendo alegria em saquinhos. A vida pulsa aqui, um banquete de cheiros e intenções. Gordura de pastel, cerveja derramada, perfume falsificado e, por baixo de tudo, o aroma delicioso do desespero.

E da malícia.

Como a que emana daquela mulata. Ah… ela me viu. Encostada num bar, um vestido vermelho tão apertado que parecia pintado na pele escura. Ela não olhava como as outras. Não era um convite, era uma avaliação. Ela não via um cliente, via um alvo. E eu senti o cheiro do sangue dela, denso, pulsando com uma maldade que o deixava… gourmet.

Ela veio até mim, um deslizar de quadris que era pura performance.

“Sozinho, gringo?”

A voz era macia, um veludo escondendo a lixa. O samba no bar não era festa, era febre. Um tambor que bate no ritmo de um coração desesperado. Puxei-a pela mão. O corpo dela era longo, sinuoso, uma cobra de ébano se enroscando no meu. Ela riu, um som ensaiado. Dançamos. O suor dela tinha cheiro de cachaça e malícia. Um perfume que eu conhecia bem. Um corpo que era promessa e perigo, como uma navalha enrolada em seda.

O beijo veio no meio de um giro. A boca dela tinha gosto de menta e Johnny Walker. As mãos, experientes, passeavam pelas minhas costas, procurando o volume da carteira. A língua invadiu a minha, um ato predatório. Deixei. Apertei a cintura dela, sentindo os músculos rígidos sob a pele. Ela gemeu no meu ouvido, um som baixo, animal. O teatro era impecável.

“Tenho um lugar aqui perto. Mais… privado.”

Claro que tinha. O motel era um cubículo na Rua do Lavradio. O cheiro de água sanitária mal conseguia esconder o de sexo e solidão impregnado nas paredes. A cama rangia como um animal ferido. Ela se despiu com uma pressa profissional. Eu me deitei. Ela serviu o uísque que compramos no caminho em dois copos sujos. Deu um na minha mão e sentou na beirada da cama, me observando beber.

Fingi um gole, dois. Me joguei para trás, os olhos fechados, imitando o cansaço de um turista bêbado. Esperei. O silêncio foi quebrado pelo som suave de um frasco se abrindo. Espiei por entre os cílios. Ela, de costas, pingava um líquido incolor no meu copo. O velho “Boa Noite, Cinderela”. Tão previsível.

No instante em que ela se virou, com um sorriso vitorioso no rosto, eu me movi.

Não foi um movimento humano. Foi um borrão. Num piscar de olhos, eu estava atrás dela, uma mão cobrindo sua boca para abafar o grito, a outra segurando sua nuca. O choque em seus olhos foi a coisa mais honesta que vi nela a noite inteira.

E então, enterrei as presas em seu pescoço.

O sangue jorrou na minha boca. Quente, delicioso, com o gosto forte do uísque. Ah, Johnnie Walker… eu prefiro o Tennessee Honey, mas era o que tinha para hoje. Puta que pariu, que delícia. Senti o coração dela tropeçar, um tambor frenético perdendo o ritmo. O medo intensificava o sabor. Puxei o ar, sugando com força, sentindo a vida dela se esvair.

Mas parei. O espírito dentro de mim, a alma da bruxa que eu devorei, sussurrou o aviso de sempre:

Não beba até o fim. A Morte é mais forte que eu. Se ela vier pela sua vítima, levará você junto.

Uma boa morte, quem sabe. Um jeito de sair quando o tédio se tornar insuportável. Mas não hoje.

Arranquei a boca do pescoço dela. Ela estava mole, quase desmaiada. Coloquei-a na cama. Peguei o copo batizado e derramei o líquido na boca dela. Daqui a algumas horas, ela vai acordar com uma puta dor de cabeça, pensando que se confundiu e bebeu do copo errado. Vai se amaldiçoar por ter perdido o “turista otário”. A marca no pescoço? Vai achar que se arranhou na foda que nunca aconteceu.

Saí pela janela, caindo suave no beco dos fundos. Voltei para as ruas. A fome ainda arranhava minhas entranhas. Mesmo sendo um banquete de rei, o aperitivo não me saciou.

Na rua… Lá estava o cheiro de novo. Mais perto. A coisa se move rápido, sorrateira. Pela velocidade que se move, tenho certeza de que a criatura já percebeu que eu a notei.

 

 

Estava na Glória. Uma feirinha noturna, o cheiro de acarajé no ar. O som do samba era mais raiz, mais genuíno. Um mar de gente, um oceano de vida. Comida por toda parte. Minha atenção se desviou. Um grupo de meninas, meias arrastão rasgadas, shorts que eram quase um insulto. Cheiro de sândalo, pele jovem, cheiro de sangue lotado de absinto circulando dentro daquelas peles angelicais. O sangue delas pulsava com a pura e estúpida imortalidade da juventude.

Elas me distraíram e quase não vi. Um vulto.

Passou por mim como uma rajada de vento. Rápido. Rápido demais, até pra mim. O cheiro doce me envolveu por um segundo. Aquele cheiro. Era a criatura. Meus instintos gritaram. O que essa porra queria comigo? O jogo de esconde-esconde acabou?

Não. Hoje não. O aperitivo com a ladra não me deixou forte o suficiente, e uma batalha de demônios pelas ruas cheias de seres humanos não é algo que eu deseje – para pessoas como eu anonimato é vida. Preciso de uma refeição de verdade. Amanhã, com o corpo refeito, eu encaro essa coisa.

Como se o destino ouvisse, passaram por mim três homens. O jeito de andar, os olhos varrendo a multidão. Vi o cabo de duas facas escondidas pelos mais velhos e o volume de um 38 velho na cintura do mais novo.

Predadores.

Estavam seguindo um casal de italianos que parecia saído de um comercial de macarrão. Vou ver até onde isso vai… Hoje era o dia de sorte do casal. E o meu dia de ter uma refeição tripla.

 

 

Domingo de manhã. O ar da cidade parece mais denso, triste. O silêncio dos que dormem pesa. Mas eu estou bem. Porra, como estou bem. Uma refeição farta. Uma mulher linda, três delinquentes. O sangue deles ainda corre em mim, uma energia quente e suja. É hora de caminhar. É hora de encontrar meu perseguidor.

Calcei o tênis. Outra invenção maravilhosa deste século. A Floresta da Tijuca era o lugar. Uma catedral de umidade e silêncio, onde eu poderia ditar as regras do jogo.

Andando pela trilha, o cheiro: medo e ousadia, um ladrãozinho. Dito e feito. Ele pulou do meio do mato, uma faca de cozinha na mão. Rosto magro, olhos fundos de crack. Mas meu alvo não era ele. Seu dia de sorte.

“Passa a grana, playboy!”

Dei o Rolex. Alguns dólares. Ele viu o tênis. “O tênis também.”

Não. O tênis, não. Eu precisava de velocidade. “Não”, eu disse, a voz calma.

Ele hesitou, ia avançar. Mas algo o travou. Talvez ele tenha visto que meus olhos não estavam nele, mas viajando pela mata, caçando algo maior. Ele insistiu. E eu gritei. “NÃO!” Um som que não era humano, um rosnado que veio do fundo de 350 anos de existência. Ele achou que eu era maluco. E era mesmo. Num pulo sumiu no mato.

Distração inútil. Mas serviu. Senti o odor da criatura. Perto.

Foi rápido pra caralho.

O som de um galho quebrando à minha esquerda. Instinto. Dei um passo para trás no mesmo instante. Um vulto passou onde minha cabeça estava. Senti o arrastar frio de uma lâmina na pele do meu pescoço. Um fio de sangue escorreu. Por um centímetro, eu não fui decapitado. Seria complicado andar por aí sem cabeça, ia chamar muita atenção.

O vulto parou a uns dez metros. Finalmente, pude vê-lo. Na verdade vê-la.

Era uma mulher. E que mulher. Corpo pequeno, compacto, puro músculo e fibra. A pele de índia, mas pálida pela falta de sol, brilhava sob a luz filtrada das árvores. Cabelos negros, compridos, bagunçados. Usava um top preto, uma saia curta e esvoaçante. E as luvas. Ah, as luvas. De couro, subindo até os cotovelos, e de cada dedo se estendia uma lâmina de uns quinze centímetros, afiada como uma navalha. Uma versão feminina e gostosa do Freddy Krueger. O traje mínimo era para velocidade, claro.

Eu sorri, sentindo o sangue escorrer pelo meu pescoço.

“Calma, amor. A gente nem casou ainda e você já quer arrancar minha cabeça?”

Ela não respondeu. Veio pra cima. Rápida, puta que pariu. Era como um lince caçando um bicho-preguiça. Eu não tinha chance na velocidade. Tinha que ser na estratégia. Na força bruta.

Por onde ela passava, o vento levantava as folhas. Eu a atraí para um corredor estreito entre duas árvores. No momento exato em que ela entrou no meu raio de alcance, desferi um soco. Não mirei na cabeça. Mirei no maxilar. Um gancho de direita com a força de quinze homens.

O som foi obsceno. Um estalo molhado, a mandíbula dela se deslocando com o impacto. Sangue espirrou no meu punho. Mas ela era boa. Mesmo no meio do golpe, as garras dela me acharam. Senti as lâminas da mão esquerda rasgando minha lateral. Não foi um corte, foi um filé. Uma dor fria, cirúrgica, seguida pelo calor do meu próprio sangue inútil. Outra lâmina fatiou minha panturrilha.

Será que é hoje? Será que essa coisinha linda vai me dar a boa morte que eu secretamente anseio? Ao contrário dos vikings, eu não sonho com Valhalla. Eu já estive do outro lado. Não tenho medo.

Levei o punho ensanguentado à boca. O sangue dela. Doce. Humano. Puta merda, ela é humana. Algum demônio a guia, assim como a mim.

Ela gemeu de dor, a mão no maxilar quebrado. Mas, com uma agilidade felina, saltou e subiu na árvore à minha frente. E então, o horror. Ela correu pela porra do tronco, na vertical, e se lançou sobre mim. Não tive tempo.

Senti as garras da mão direita dela entrando no meu peito. Um rasgar profundo de carne e músculo, que me atravessaram e saíram nas minhas costas. Ela se assustou. O choque em seus olhos. Ela esperava fatiar um coração, um órgão vital para destruir. Mas ali, ela não encontrou nada.

Há séculos eu aprendi a pulsar meu pulmão esquerdo. Um truque de salão. Um jeito de imitar um coração batendo para enganar os curiosos e me passar por humano.

Caí de joelhos. As lâminas dela estavam presas na minha caixa torácica. Ela tentava puxar, em pânico. Era a minha chance. Agarrei o tornozelo dela. Puxei com tudo. Ela caiu no chão me levando junto com ela. Montei sobre ela e agarrei o seu braço direito, o que estava preso em mim, e puxei. Para o lado. O ombro dela se deslocou com um estalo doentio. Ela gritou. Segurei o braço com as duas mãos e torci.

O osso se partiu. Rasguei os músculos e tendões. O braço saiu.

Ela sangrava. Sangrava muito. Fiz o mesmo com o outro braço, que foi mais fácil de ser arrancado. Ela desmaiou de dor. Uma sujeira do caralho. Sangue, folhas, pedaços de mulher.

Olhando os restos dela, senti um barulho de folhas atrás de mim…

E então, o cheiro de urina e pavor me lembrou da plateia. Olhei para trás. Lá estava o ladrãozinho, um monte de trapos desmaiado contra uma árvore, os olhos revirados mostrando só o branco. O espetáculo foi forte demais para um amador. Peguei meu Rolex e os dólares, mas pensei e os depositei ao lado dele. Considere uma indenização.

Ele vai precisar. Já consigo visualizar a cena patética: ele, suando frio, tentando explicar para algum engomadinho de consultório o que viu aqui. Como um fodido desses descreve um demônio de tênis de corrida e uma ninja com garras de açougueiro dançando um balé de ossos quebrados? Como ele explica a velocidade que a mente não processa, o som de carne rasgando?

O engomadinho vai anotar tudo em seu bloquinho, diagnosticar um ‘surto psicótico induzido por substâncias’ e encher o coitado de pílulas. Pelo menos agora, ele terá como pagar pela primeira receita.

Nem ele e nem ela, estavam mortos. Ele, eu deixarei ali. Ela… ou melhor, os pedaços dela que sobraram… virão comigo.

Continua…

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