A arte de sangrar no papel: 10 mandamentos para quem teima em escrever

A arte de sangrar no papel: 10 mandamentos para quem teima em escrever

Então o primeiro rascunho não foi o suficiente. Você quer mais. Acha que escrever é uma lista de tarefas. Que bonitinho. Escrever não é uma receita de bolo. É uma briga de faca no escuro. Mas já que você insiste em entrar nessa briga, que pelo menos leve a lâmina certa. Aqui estão suas dicas, agora com o peso que elas merecem.

1. A ideia não vai cair do céu. Ela rasteja do esgoto.

Achar que uma grande ideia vai simplesmente aparecer na sua cabeça é como esperar ganhar na loteria sem comprar o bilhete. É preguiça. É estupidez. As ideias não são encontradas, são caçadas. Esteja sempre em estado de alerta. Carregue um caderno, use o bloco de notas do celular, grave áudios. A realidade é uma torrente de material bruto. Aquele casal brigando sem palavras no café, a frase solta de um bêbado na calçada, a notícia de rodapé no jornal. Tudo é material.

Victor Hugo, o gigante francês, começou O Corcunda de Notre-Dame por causa de uma única palavra que encontrou gravada numa parede escura da catedral: “ANÁΓKH”. Em grego, “fatalidade”. Ele mesmo descreve no prefácio:

“O autor deste livro, ao explorar um dia a Catedral de Notre-Dame, encontrou, num canto escuro de uma das torres, esta palavra gravada à mão na parede: ANÁΓKH. […] Estas maiúsculas gregas, enegrecidas pelo tempo e profundamente entalhadas na pedra, […] impressionaram vivamente o autor. Questionou-se, tentou adivinhar que alma em agonia não quisera partir deste mundo sem deixar esta marca de crime ou de desgraça na fachada de uma velha igreja.”

Uma palavra. E dela nasceu um universo. Pare de esperar pela musa e comece a cavar o lixo do mundo.

2. Seja um espião. A vida alheia é seu laboratório.

Um escritor medíocre descreve o que vê. Um bom escritor descreve o que os outros sentem. Para isso, você precisa parar de ser o centro do seu universo. Observe. Mas observe de verdade. Não olhe apenas para a garçonete, veja como ela força um sorriso para um cliente grosseiro e como seus ombros caem um centímetro quando ela se vira. Isso é história.

Truman Capote, para escrever A Sangue Frio, não fez só entrevistas. Ele se mudou para a cidade, respirou o mesmo ar, comeu a mesma comida e absorveu o silêncio e a dor daquela comunidade. Ele se tornou um fantasma, um observador invisível. Seu trabalho não foi perguntar, foi entender. Comece a fazer isso. Coloque-se na pele das pessoas até que seus sapatos comecem a te machucar.

3. O mapa da mina ou o abraço do caos.

Existem basicamente dois tipos de masoquistas que se metem a escrever: os arquitetos e os jardineiros. J.K. Rowling era uma arquiteta, com planilhas detalhando a linhagem de cada bruxo. George R. R. Martin é um jardineiro; ele planta as sementes (personagens) e vê que porra de árvore vai crescer, mesmo que ela resolva matar todo mundo no processo. Nenhum método é melhor que o outro. O inferno é não ter método algum.

Stephen King, outro jardineiro, diz em Sobre a Escrita:

“Histórias são coisas encontradas, como fósseis na terra. […] O trabalho do escritor é usar as ferramentas de sua caixa de ferramentas para tirar a coisa do chão com o mínimo de dano possível.”

Tenha um plano, mesmo que seja só o primeiro passo. Ou se jogue no escuro. Mas saiba que tipo de louco você é. Não ter um roteiro não é desculpa para não saber para onde sua história está indo.

4. O título é a sua isca. Não ofenda a inteligência do peixe.

“O Melhor Amigo do Meu Irmão”. “A Garota que eu Odeio Amar”. Se o seu título parece algo que uma inteligência artificial sem alma cuspiria, jogue no lixo. Um título é uma promessa. Cem Anos de Solidão. O Som e a Fúria. Crônica de uma Morte Anunciada. Eles não te contam a história, eles te dão um arrepio. Te fazem uma pergunta silenciosa.

Pense no poder de Fahrenheit 451. Ray Bradbury não chamou de “O Bombeiro que Queimava Livros”. Ele te deu a temperatura em que o papel queima. É poético, é misterioso, é inteligente. Seu título é a primeira e talvez a única chance que você tem de agarrar o leitor pelo colarinho. Não desperdice com clichês.

5. Crie gente de verdade. O mundo já está cheio de bonecos.

Seu protagonista não pode ser perfeito. A perfeição é chata e falsa. Nós não nos conectamos com deuses, nos conectamos com as rachaduras, as falhas, as cicatrizes. Dê aos seus personagens vícios, medos irracionais, um passado sujo. Faça-os contraditórios. Um assassino que ama gatos. Uma freira que duvida de Deus.

Dostoievski nos deu Raskólnikov em Crime e Castigo, um estudante que comete um assassinato por uma teoria filosófica e depois é consumido pela culpa e pela paranoia. Ele é monstruoso e, ao mesmo tempo, tragicamente humano. É nessa tensão que a grande literatura vive. Quer um exemplo mais direto? Olhe para o meu criador, Bukowski. Seus personagens são um desastre. Bêbados, perdidos, fodidos. E é por isso que são inesquecíveis. Porque, em algum canto escuro, eles nos lembram de nós mesmos.

6. Leia. Coma os livros. Digira os mestres.

Dizer para um escritor ler é como dizer para um cozinheiro provar a comida. É o mínimo. Mas não basta ler. Você precisa dissecar. Por que essa frase do Faulkner funciona? Como a Caroline Kepnes constrói a voz doentia de Joe em Você? Por que os suspenses do Tom Clancy te prendem, mesmo que você não se importe com submarinos?

Leia como um ladrão, roubando técnicas, estruturas, truques. William Faulkner disse a famosa frase:

“Leia, leia, leia tudo — lixo, clássicos, bons e ruins, e veja como eles fazem. Assim como um carpinteiro que trabalha como aprendiz e estuda o mestre. Leia! Você vai absorver.”

Devore tudo. E depois, cuspa no seu próprio estilo.

7. Vomite o primeiro rascunho. A edição é onde você limpa o sangue.

A primeira versão de qualquer coisa é um lixo. Hemingway sabia disso. Anne Lamott chamou de “o primeiro rascunho de merda”. A meta não é acertar, é terminar. Desligue o crítico interno — aquele babaca que fica no seu ombro dizendo que tudo está horrível — e apenas escreva. Deixe os erros de digitação, as frases sem sentido, os buracos no enredo. Apenas atravesse o deserto.

Jack Kerouac escreveu On The Road em três semanas, num rolo de papel contínuo. Ele não parou. Ele vomitou a história. A edição, a lapidação, a transformação do caos em arte… isso vem depois. Permita-se ser imperfeito. É a única maneira de começar.

8. Sua voz é a sua alma na página. Encontre-a.

No começo, você vai soar como seus heróis. Tudo bem. Mas continue escrevendo até que essa imitação barata se desgaste e algo seu comece a emergir. Sua voz é a soma de tudo: seu ritmo, seu humor, suas obsessões, sua visão de mundo. É o que faz com que um parágrafo de Bukowski seja inconfundivelmente dele, e um de Virginia Woolf seja dela.

Compare a crueza de Bukowski:

“Eu tinha cinquenta anos e há quatro não ia pra cama com nenhuma mulher. Não tinha amigas. Olhava para as mulheres à distância. Elas não me fascinavam. Pareciam convencionais, bitoladas, burras, presunçosas.” (Mulheres)

Com a introspecção de Clarice Lispector. A mesma situação — solidão — seria descrita de maneiras visceralmente diferentes. Sua voz é sua impressão digital. Não a sufoque tentando agradar.

9. A musa é uma mentira. A disciplina é sua única deusa.

Não espere pela inspiração. A inspiração é uma prostituta cara que raramente aparece e, quando vem, não fica muito tempo. O que funciona é a rotina. O trabalho. Gustave Flaubert, que passava dias para encontrar a palavra certa, aconselhou:

“Seja regular e ordenado em sua vida, para que você possa ser violento e original em seu trabalho.”

Sente a bunda na cadeira. Todo dia. No mesmo horário. Mesmo que você só encare a tela. Mesmo que escreva uma única frase e a apague. Você está treinando seu cérebro. Está dizendo a ele: “É aqui que a mágica acontece, seu desgraçado, com ou sem vontade”.

10. Deixe o ego na porta. A escrita vai te humilhar.

Você vai escrever algo que acha genial e ninguém vai se importar. Vão criticar seu trabalho. Vão rejeitá-lo. Se o seu ego for frágil, ele vai quebrar. A escrita não é sobre você. É sobre a história. É sobre o leitor. Esteja aberto a críticas. Aprenda a matar suas frases favoritas se elas não servem à história.

Lembre-se de F. Scott Fitzgerald e seu editor, Maxwell Perkins. Perkins cortou, rearranjou e moldou O Grande Gatsby. Fitzgerald não fez birra. Ele ouviu. Porque ele sabia que a história era maior que o ego dele. Abrace a humildade, ou o mundo literário vai enfiá-la goela abaixo de você.

referências:

  • MasterClass – “How to Find Writing Inspiration: 6 Tips for Finding Writing Ideas”: Este artigo reforça a primeira dica, sobre como as ideias não surgem do vácuo, mas da observação e da coleta ativa de informações do mundo ao redor.
  • Reedsy Blog – “The Stephen King Guide to Writing”: Uma análise profunda dos conselhos de King, que valida diversos pontos nossos, especialmente a importância da disciplina (sentar na cadeira todo dia) e da leitura voraz como ferramentas essenciais.
  • Writer’s Digest – “The 7 Tools Every Writer Needs in Their Toolbox”: Confirma a necessidade de o escritor ser um “ladrão” de técnicas e a importância de desenvolver a própria voz a partir do estudo de outros autores.
  • The New Yorker – “The Art of Fiction No. 226, Neil Gaiman”: Nesta entrevista, Gaiman fala sobre a permissão para errar no primeiro rascunho, um ponto crucial da nossa sétima dica. Ele enfatiza que o importante é colocar a história no papel, não importa o quão imperfeita ela esteja.

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