Quer Ser Escritor? A Verdade Crua Que Ninguém Te Conta
Então você quer ser escritor. Acha bonito, não é? A imagem do gênio torturado, com uma garrafa de uísque barato e uma musa imaginária, cuspindo obras-primas no meio da noite. Esqueça. Jogue essa imagem no lixo junto com seus rascunhos ruins.
A verdade é que escrever não é um dom divino. É um trabalho braçal, uma sentença. É como ser um pedreiro da alma, empilhando palavras uma a uma, sob um sol desgraçado, sem a certeza de que o muro não vai desabar no final.
O Primeiro Grande Erro: A Miragem da Perfeição
O primeiro soco na cara do iniciante é a distância entre a ideia e a execução. Na sua cabeça, a história é um filme do Scorsese. No papel, vira um episódio de Malhação escrito por um bêbado. As frases não encaixam, os diálogos soam falsos, a coisa toda simplesmente não funciona.
É aí que a voz do demônio da autocrítica começa a sussurrar no seu ouvido. “Isso?”, ela diz. “Isso é o seu melhor? É só isso que você tem?”. Ela te compara com os gigantes que você lê e te mostra o quão pequeno e patético você é. A verdade é que seu primeiro rascunho vai ser um lixo. É inevitável. É o pedágio. Achar que vai sair perfeito de primeira não é otimismo, é pura estupidez. É o ego te preparando para a queda. E a maioria se espatifa aqui, convencida de que não nasceu pra coisa.
O Segundo Grande Erro: A Corrida de 100 Metros
Se você sobrevive ao primeiro nocaute, encontra o segundo. É o viciado em começos. O cara tem uma ideia “genial” por semana. Começa com um gás de foguete, escreve vinte páginas, se sente o próprio Hemingway e, na semana seguinte, abandona tudo por uma nova “ideia ainda melhor”.
O computador dele é um cemitério de primeiros capítulos. Ele nunca enfrenta o pântano que é o meio de uma história – a parte chata, difícil, onde a inspiração já foi embora e só o que resta é a disciplina de um operário. Ele quer o orgasmo da criação, mas não aguenta a preliminar que dura meses. É um ciclo de impotência literária, pulando de projeto em projeto, sem nunca terminar porra nenhuma.
Certo, já te mostrei o abismo. Agora, se você ainda está aqui, talvez haja algo a ser feito. Não espere um mapa do tesouro, são apenas ferramentas enferrujadas que talvez te ajudem a cavar.
- Seja um ladrão. Você não tem uma voz ainda. Pare de tentar inventar uma do nada. Escolha os escritores que você admira, aqueles que te fazem pensar “puta que pariu, eu queria ter escrito isso”. Leia-os até o osso. Depois, copie. Descaradamente. Imite o ritmo, a estrutura, o jeito que eles constroem uma frase. A arte é canibalismo. Você devora seus heróis e, no processo de digestão, algo novo e seu começa a surgir. Ninguém nasce original. A originalidade é um mosaico feito das peças que você roubou.
- Construa gente, não fantoches. Suas fichas de personagem são uma merda. Nome, altura, cor do cabelo? Isso é RG, não é uma pessoa. Vá mais fundo. Qual o cheiro do seu protagonista depois de um dia de trabalho? Qual a mentira que ele mais conta para si mesmo? Qual a sua maior humilhação, aquela que o acorda às 3 da manhã suando frio? Dê a ele medos, desejos contraditórios, uma necessidade desesperada. Personagens movem a trama, não o contrário. Se você não souber quem eles são na escuridão, eles serão bonecos de papel sob a luz do dia.
- Abrace o lixo. Eu já disse que seu primeiro rascunho vai ser ruim, mas vou repetir: faça arte ruim. Dê a si mesmo a permissão de ser um fracasso. Escreva diálogos horríveis, cenas que não levam a lugar nenhum, descrições pavorosas. Apenas coloque a merda toda pra fora. A única maneira de chegar em algo bom é atravessando um oceano de ruindade. O escultor não encontra a estátua, ele tira tudo que não é a estátua do bloco de pedra. A escrita é a mesma coisa. O primeiro texto é só o bloco de pedra. O trabalho de verdade vem depois, com o martelo e o cinzel da edição.
No fim das contas, a escrita não te deve nada. Não te deve fama, não te deve dinheiro, nem mesmo a satisfação. É um caminho solitário e ingrato. Mas se, depois de toda a dor, o suor e a frustração, você ainda sente aquela coceira, aquela necessidade de sentar e juntar palavras… então talvez não seja uma escolha.
Talvez seja a sua única maneira de continuar respirando. E isso, meu amigo, é o único incentivo que você vai ter. Agora, volte ao trabalho.
Referências:
- King, S. (2000). On Writing: A Memoir of the Craft. Scribner.
- Lamott, A. (1994). Bird by Bird: Some Instructions on Writing and Life. Pantheon Books.
- Pressfield, S. (2002). The War of Art: Break Through the Blocks and Win Your Inner Creative Battles. Black Irish Entertainment LLC.
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