Plano Bilionário: Crônica de um Assalto no Coração do Rio
A pá bateu em algo duro. Não era rocha. Era o som oco e promissor do concreto. Um som de vitória.
– Merda. Finalmente!!!
Tonho parou, o suor escorrendo pelo rosto, misturando-se com a poeira e a lama. O ar aqui embaixo, a quase dez metros de profundidade, era uma sopa grossa de terra úmida, mofo e o cheiro metálico do esforço de quatro homens. Ele odiava aquele túnel. Odiava o cheiro, a escuridão claustrofóbica que parecia um caixão esticado por um quilômetro. Amaldiçoava a hora que disse “sim”. Mas, ah… a lembrança daquele “sim” ainda tinha o gosto de carne cara e cerveja importada.

A memória daquele “sim” me levou de volta a alguns dias atrás. O Outback do Rio Sul zumbia com a normalidade forçada das classes que podem pagar por ela. Garçons bilíngues e pós-graduados com sorrisos ensaiados, o cheiro de cebola frita e costela com molho barbecue pairando no ar condicionado. Robert, o gerente do banco, parecia um ator fora do lugar. Terno caro demais, um Rolex que brilhava como um farol de arrogância. Ele não tocara na sua Bloomin’ Onion. Apenas me observava, os olhos calculando cada movimento meu, como um predador estudando a presa.
“O Banco Central autorizou a transferência” ele disse, a voz baixa, quase um sussurro por cima do barulho, “oitocentos milhões de reais. Dinheiro vivo. Especula-se que há também algumas centenas de quilos de barras de ouro. Propriedade de um parceiro colombiano que deseja transformar tudo em Bitcoin antes que a Interpol sinta o cheiro.”
Eu, você, nós sabemos como a mente de um homem como Robert funciona, não é? Ele não vê pessoas, vê peças de um quebra-cabeça. Eu era a peça que ele precisava pra cavar.
“O dinheiro chega na quinta. Fica no cofre principal até o fim de semana, quando a equipe de ‘conversão’ entra. Temos uma janela” ele continuou, “e um túnel é a única porta que ninguém vigia.”
Terminamos o jantar. Um aceno de cabeça. O acordo estava selado. Enquanto saíamos para o estacionamento com cheiro de maresia e poluição da Baía de Guanabara, ele me jogou a chave do seu sedan importado.
“Me deixa no IML do centro, na Leopoldina” disse ele, ajeitando a gravata, “tenho que acertar umas coisas com um amigo da civil.”
Ah, os detalhes… os detalhes sempre te pegam. Um gerente de banco com contatos no necrotério. Isso era mais do que um assalto. Era uma porra de um roteiro de cinema.

A memória se dissolveu no cheiro de terra molhada. Lembrei que semana passada o túnel tinha cedido.
As escoras de madeira estalaram como ossos velhos.
Um grito abafado, o som de toneladas de terra e rocha desabando. Jonas, o moleque de Niterói. Nem se deram ao trabalho de cavar pra tirar o corpo. Apenas recomeçaram o trabalho dez metros para o lado. Sua tragédia pessoal não significou nada, apenas mais uma semana de atraso, mais uma cruz na conta do diabo.
Mas agora… agora finalmente estávamos lá. O plano era uma obra de arte doentia: começava no porão de uma gráfica falida, passava por baixo de duas quadras da Avenida Rio Branco, um labirinto de canos de esgoto, cabos de fibra ótica e a história enterrada do Rio, e terminava exatamente aqui, debaixo do cofre do Banco das Américas.
“CHEGAMOS, PORRA!” gritou o Cabeça, o engenheiro da equipe.
A rolha de um espumante barato estourou, o líquido borbulhando e se misturando com o suor e a sujeira em nossos rostos, um brinde no inferno. Era manhã de sexta e apenas uma fina laje de concreto armado nos separava da glória. Eles esperariam. A paciência é a virtude dos ladrões.
A detonação seria no fim de semana.

“EU SEI O QUE VOCÊ ESTÁ TRAMANDO, ROBERT! EU VI OS REGISTROS! AS TRANSFERÊNCIAS NÃO AUTORIZADAS, AS CONTAS FANTASMAS!”
A mente de Robert era um vespeiro. Ele a via não como uma colega, mas como uma falha no sistema. Uma variável que precisava ser eliminada. A paranoia, aquela velha amiga, sussurrava em seu ouvido: “Ela sabe. Ela vai falar. Dedo-duro”.
“Você não sabe de nada,” ele rosnou. A agressão foi súbita, bukowskiana em sua crueza. Ele a empurrou. Vera caiu desajeitadamente, o corpo batendo com um baque surdo contra a quina de uma mesa de mogno. O grito que ela soltou foi agudo, rasgando o ar, um som de pura dor e pavor.
Ela gritou. Ele a chutou, já no chão, a ponta do sapato italiano afundando em suas costelas. “SUA VADIA! DEDO-DURO DO CARALHO!”
Os seguranças, dois gorilas que pareciam móveis, ganharam vida. Agarraram Robert. Ele se debatia como um animal, a fúria descontrolada.
“EU VOU TE MATAR, VERA! EU JURO QUE TE MATO!”
O que os seguranças não contavam era com a porra de um smartphone. Uma cliente, escondida atrás de um pilar de mármore, filmou tudo. O vídeo subiu para o Instagram. Em minutos, o caos se instalou. Foi como se o roteiro de Robert tivesse sido sequestrado por um diretor anarquista.
Repórteres com câmeras invadiram o saguão – ninguém soube explicar como chegaram tão rápido. Paramédicos abriram caminho para atender Vera, que chorava no chão. E então, como um exército saído do nada, um grupo de feministas e outro de ativistas contra a violência contra a mulher, com cartazes e gritos de guerra, invadiu o banco. A cena era um pandemônio. Funcionários perdiam o controle, tentando baixar as portas de aço, mas a multidão era uma maré que não podia ser contida.
Robert, algemado, foi conduzido para fora, o rosto uma máscara de ódio. A imagem perfeita do vilão. Na delegacia, prestou depoimento, pagou uma fiança obscenamente alta e desapareceu na noite.
Na manhã seguinte, a notícia explodiu nos jornais:
NOTÍCIAS DO DIA: “Gerente de banco que agrediu executiva é encontrado morto. Corpo carbonizado e praticamente irreconhecível depois de tortura, crivado de balas de diversos calibres, dentro de seu Audi blindado em chamas na Linha Vermelha.”
Lá no túnel, Tonho leu a notícia no celular e sorriu. Pensou: “Um a menos pra dividir a grana. A gente ia ter que apagar esse almofadinha de qualquer jeito.“

Domingo, 9 da manhã. O ar na Avenida Presidente Wilson estava parado, preguiçoso. A embaixada dos EUA era um gigante adormecido. Exatamente às 9:01, uma carga de C4 detonou, arrancando a fachada do prédio numa chuva de vidro e concreto. O barulho foi um trovão que ecoou pelo centro do Rio.
No subsolo do banco, a explosão foi o gongo de início do último round. A equipe de Tonho usou cargas menores, abafadas por colchões. O chão do cofre cedeu com um gemido de concreto partido. Sirenes enchiam a rua lá em cima. Bombeiros, polícia, imprensa – todos correndo para o espetáculo errado. Perfeito.
Eles entraram no cofre. Sacos de lona, um carrinho de mão com rodas de borracha para os 1000 metros de túnel. Abriram os armários de aço.
E não encontraram nada.
Nada. Apenas alguns títulos ao portador e uns pacotes de notas de 100 reais. Quinhentos mil, no máximo. Onde estavam os 800 milhões? Onde estava a porra do ouro?
Tonho sentiu o gosto amargo do fracasso. A raiva subindo. Foi quando ouviu os tiros no túnel. Rajadas de submetralhadora. Antes que pudesse reagir, um objeto escuro rolou para dentro do cofre. Uma granada.
O mundo de Tonho explodiu num flash de luz e dor.
A polícia invadiu o cofre pelos fundos, pela porta principal, pelo túnel cavado, e prendeu os dois comparsas que restavam, atordoados e confusos.

NOTÍCIAS DO DIA:“Uma denúncia feita meses atrás pela auxiliar técnica Vera alertou a polícia sobre um mega-assalto em andamento. Infiltrada, ela precisava apenas descobrir o dia e o método. O gerente Robert, ao descobrir sua ligação com a polícia, tentou matá-la. A explosão na embaixada, um falso atentado para despistar, foi o sinal que a polícia esperava. Um túnel de 1km foi descoberto. Parte da quadrilha, no entanto, conseguiu fugir com quase 1 bilhão de reais em dinheiro e ouro. Vera foi colocada no programa de proteção a testemunhas e seu paradeiro é desconhecido.”

UM ANO DEPOIS
O iate cortava o mar Egeu, a água de um azul tão irreal que parecia pintada. Na costa, as construções brancas de Santorini agarravam-se às falésias como ninhos de gaivotas. O sol era um deus grego, quente e impiedoso.
Robert, bronzeado e de óculos escuros, estava no deck, tentando sem sucesso pilotar. Riu, passou o leme para o capitão grego e foi até o bar preparar dois drinks. Gelo, gin, tônica, uma rodela de limão.
“Está pronto, amor?” ele gritou.
Vera saiu do interior do barco. De biquíni, o corpo esculpido pelo sol e pela tranquilidade, os mesmos óculos escuros. Ela pegou o copo. Eles se sentaram nas poltronas de vime.
“Robert,” ela disse, “um daqueles chutes me machucou de verdade, sabia? Ainda sinto às vezes.” Ela deu um gole. “Será que vamos ser pegos?”
Robert sorriu, aquele sorriso de quem move as peças do tabuleiro enquanto os outros acham que estão jogando damas.
“Duvido muito. Não tem pontas soltas. O corpo do indigente foi comprado a peso de ouro no IML. O pobre coitado ganhou um enterro de luxo, mesmo que anônimo. As ‘feministas’, os ‘repórteres’, os ‘paramédicos’… todos foram muito bem pagos. O ouro e o dinheiro saíram pela porta da frente, nas bolsas de câmera e macas, no meio daquela confusão que nós criamos. E os idiotas que foram presos no túnel? Vão passar o resto da vida tentando descobrir qual dos comparsas mortos os traiu.”
Ele se inclinou, a voz baixando para um sussurro íntimo, a voz de um roteirista admirando a própria obra.
“Não se preocupe, meu amor. Estamos bem.”
Vera olhou para o horizonte, para a linha onde o céu e o mar se fundiam. “Espero que sim…”
Robert ergueu seu copo. “A nós. E ao belo roteiro.”
Ela sorriu, finalmente relaxando, e brindou com ele.
No fim das contas, não se trata de dinheiro. Nem de poder. É sobre se tornar o único diretor numa cidade cheia de atores amadores. É sobre escrever a porra do roteiro e fazer o mundo inteiro atuar nele sem saber. E nós, meu caro leitor, nós fomos os únicos autores. E esta, ah, esta é a única liberdade que existe. Um brinde a isso.


