A Maldição da Tanajura de Bangu

A Maldição da Tanajura de Bangu

O ano era 1995. E que mulata, meus caros. Que mulata!

O corpo dela parecia ter sido esculpido por um demônio com um senso de humor sádico. Sabe a tanajura? Aquela formiga com uma bunda que desafia as leis da física? Era ela. Uma cintura que você podia circular com as duas mãos & uma bunda que precisava do próprio CEP. Conheci essa aberração da natureza num pagode poderoso ali na Lapa, o Bar Semente. Segunda-feira. Sim, você leu certo. Segunda-feira. Porque aqui no Rio de Janeiro, meu amigo, nem o dia oficial do arrependimento é poupado. A gente começa a semana já pedindo perdão pelos pecados que ainda vai cometer.

O que me fisgou? Ah, o óbvio ululante, diria o velho Nelson. A aliança. Um anel de ouro grosso, pesado, que brilhava na mão dela como um farol avisando de um rochedo. Mas faróis, para nós, os náufragos da moral, não são avisos. São convites. Os modos dela, o jeito que o corpo se desmanchava ao som do Molejão, não eram de uma senhora casada. Eram de uma leoa entediada com o rei da selva.

“Se você me der mais uma chance no futuro…”

Ela cantava, e os quadris balançavam numa promessa que adultério nenhum conseguiria cumprir. O olhar dela me escaneou, me julgou e me aprovou em questão de segundos. Fui até ela. A abordagem foi fácil demais. Perigosamente fácil. Conversamos, trocamos contatos de ICQ e Orkut – as sementes digitais do nosso pequeno apocalipse particular.

Mas foi no refrão de “Cigana”, do Raça Negra, que o diabo sussurrou no meu ouvido. A voz do Luiz Carlos era a trilha sonora da minha própria desgraça.

“Então vem (então vem)… Maltrata de vez (maltrata de vez)…”

Agarrei-a pela nuca e tasquei-lhe um beijo. O gosto era de cerveja, suor e má decisão. O melhor gosto do mundo.

Descobri que ela, Madalena, morava em Bangu.

Bangu.

Para um playboy de Botafogo como eu, Bangu é praticamente outro país. Uma embaixada do caos. Uma hora de viagem, se os deuses do trânsito estivessem de bom humor. E eles nunca estão. Mas, ah… o sacrifício valeria a pena. Pelo menos era o que o meu cérebro de baixo repetia como um mantra.

Início da viagem. Na altura da Cidade Alta, a Avenida Brasil parou. Uma massa de metal e impaciência. Acidente. Um Monza 85, aquele caixote com rodas, tinha se enroscado numa Kawasaki Ninja novinha. O motorista do Monza, um pobre coitado com a cara de quem já paga as contas em 12 vezes, olhava pra moto como se estivesse olhando para a própria sentença de morte. Venderia o carro, a casa e a alma pra pagar o conserto daquele míssil japonês.

Como o bom otário que eu era, reduzi a velocidade para fofocar a desgraça alheia. Vidro aberto, cotovelo pra fora, sentindo aquela brisa quente com cheiro de escapamento. Foi uma fração de segundo. Um vulto. Um moleque, rápido como um rato, meteu a mão pelo meu vidro, arrancou meu relógio do pulso e sumiu entre os carros. Primeiro prejuízo da noite. “Mas vai valer a pena”, eu disse a mim mesmo, tentando acreditar na própria mentira.

Perto de Campo Grande, o universo decidiu que eu não estava sofrendo o suficiente. Pneu furado. Ótimo. Mais meia hora no acostamento, com o cheiro de lama e urina da beira da pista. A chave de boca, escorregadia de graxa, rasgou meu dedo mindinho. E o macaco, essa invenção do inferno, afundou na lama, fazendo meu carro despencar e amassar a lateral. A humilhação era um prato que se comia quente, com acompanhamento de tétano.

Chegar em Bangu e achar a rua dela foi como procurar uma agulha num palheiro em chamas. O mapa “Guia Rex”, coitado, estava mais desatualizado que a promessa de político. Ruas que existiam no papel, na vida real eram muros. Becos, vielas, morros. Finalmente, encontrei. Um predinho de cinco andares, sem elevador, com a pintura descascada e a dignidade por um fio.

Parei embaixo da janela. Respirei fundo e soltei o grito de guerra dos amantes anônimos:

— MADALENA! CHEGUEI!

A cabeça dela apareceu na janela, os olhos arregalados de pânico. Parecia que tinha visto o Batman.

— Suba rápido! Não deixa ninguém te ver, pelo amor de Deus!

Cinco andares. Uma escadaria velha, estreita, cada degrau um gemido. Mas, porra, ia valer a pena.

Entrei. O apartamento era humilde, mas aconchegante. E tinha uma cama. Uma cama gigante. O paraíso. “Meu marido tá viajando, só chega amanhã à noite”, ela disse. Música para os meus ouvidos.

A noite foi uma guerra. Cerveja gelada, cama gigante e dois corpos tentando aniquilar um ao outro. Frenética. No rádio, Cidade Negra cantava a trilha sonora da nossa pequena eternidade.

“Amor igual ao teu, eu nunca mais terei…”

E não teria mesmo. Graças a Deus.

Acordei com aqueles olhos castanhos imensos colados em mim. O sol da manhã entrava pela janela, um holofote cruel sobre a minha estupidez. Quando ela se levantou pra oferecer café, ouvimos.

O som de um escapamento furado, um trovão profano rasgando a paz da rua.

Madalena não ficou pálida. Ela ficou transparente. A cor sumiu do rosto dela como se um fantasma tivesse chupado sua alma.

— Meu Deus… É o meu marido!

O pânico que se instalou naquele apartamento minúsculo faria um filme de terror parecer uma comédia da Sessão da Tarde. Eu, nu como um macaco depilado, e ele lá embaixo, estacionando o carro. Não dava tempo de vestir, de fugir, de evaporar. Eu o encontraria no corredor, e a única apresentação seria um soco na minha cara.

— Se esconde! — ela sibilou.

Corri para o armário. Abri a porta e dei de cara com um arsenal. Escopetas, facas, um 38. Parecia o esconderijo do Justiceiro.

— Madalena, que porra o seu marido faz?

— Ele é policial federal. Mas está afastado permanentemente.

— Por quê?

— Psiquiatria. Tentou matar o chefe.

Ah, que ótimo. Maravilhoso. Eu tinha me metido com a mulher de um Rambo suburbano com problemas de gestão de raiva. O armário era uma péssima ideia. Com certeza era ali que ele guardava a arma. A casa não tinha varanda. Só havia um lugar. Um único, humilhante e claustrofóbico lugar.

O box da cama.

Ela levantou o colchão. Me empurrou para dentro daquele caixão de madeira junto com minhas roupas amarrotadas.

— Fica aí, quieto. Vou sair com ele pra tomar café na padaria e você aproveita pra sumir.

A tampa fechou. Escuridão. Cheiro de mofo e poeira. O silêncio era total. Eu estava quase dormindo quando a porta do quarto abriu. Os passos dele eram pesados. O som da cama rangendo sob o peso dos dois corpos fez meu estômago gelar.

— Amor, que bom que você chegou cedo… Estava com saudades. — a voz dela era puro mel. Atriz de primeira.

— Deu problema no trabalho. Pegamos um bandido, o fdp escapou da delegacia. Achei ele na rua e meti a porrada. O delegado me mandou pra casa. Com medo de descobrirem que eu tô trabalhando mesmo afastado.

— Que chato, amor… O bandido tá preso?

— Não. Mandei ele pro CTI, com minhas próprias mãos.

CTI. Ok. Eu estava oficialmente fodido.

— Vamos tomar café na padaria? — ela tentou.

— Não. Você tá com um cheiro diferente. Vamos fazer outra coisa.

Meu coração parou. O teto de madeira a centímetros do meu nariz começou a parecer a tampa do meu caixão. A cama cedeu um pouco mais.

— Os dois deitaram. O teto sobre minha cabeça cedeu… Eu senti o cheiro do perfume barato dela misturado com o suor dele. E então, a voz dele, cavernosa:

— Quero te beijar… aí embaixo.

— Não é uma boa ideia, amor…

— Que nada. Você sabe que eu não ligo.

Uma vontade insana de rir me subiu pela garganta. Era o riso do desespero. Eu ia morrer, mas ia morrer achando graça.

— Engraçado… tá com um gosto diferente. Você tomou banho com água sanitária?

— Até parece! É que você tá tanto tempo sem me procurar que até esqueceu o gosto que eu tenho. — Gênio! Pensei. Que mulher genial.

Tive que morder a mão para não gargalhar. Minha vida estava em jogo. E então, começou. O som. Aquele nhec-nhec-nhec ritmado, uma trilha sonora para o meu funeral. Eles não faziam amor. Eles se atacavam. Grunhidos, gritos, pareciam dois animais no cio. E ela, a desgraçada, estava adorando. O perigo, a minha presença ali embaixo, aquilo era um tempero. Um afrodisíaco.

A situação ficou preta quando uma poeira fina começou a cair do estrado de madeira no meu rosto. O pó entrou no meu nariz. A vontade de espirrar. Ah, a vontade de espirrar… Era uma força da natureza. Segurar aquilo era como tentar segurar um tsunami com uma peneira. Se eu espirrasse, seria meu último ato na Terra.

Foram 40 minutos. Quarenta minutos de puro inferno. Quando parecia que ia acabar, ela começava de novo. Aquela mulher era uma máquina. Uma diaba. Ela queria me torturar.

Eu não ia aguentar. A pressão no meu nariz era insuportável. Então, no auge do barulho, quando os gritos deles atingiram o volume máximo, eu usei a única janela de oportunidade. Soltei um espirro curto, abafado, patético. Um “atchim” que se perdeu no meio dos “AAAAH” dela.

— Que barulho foi esse? — ele perguntou, ofegante.

— Acho que foi a cama, amor. Precisa de um óleo.

Quando finalmente acabaram, o alívio foi quase um orgasmo.

— Eu poderia dormir a noite toda — ele disse.

— Vai dormir sim, meu bem. Mas antes, um banho. Vamos tomar uma ducha juntos.

Era o meu sinal. Quando ela se levantou, senti duas bicudas secas na parte de trás do box.

Vaza. Agora.

Ouvi o som da água do chuveiro. Levantei a tampa do colchão. Vesti a cueca, peguei o resto das roupas e corri, descalço, para fora do apartamento. Fechei a porta com o cuidado de um ladrão de joias. Comecei a me vestir no corredor escuro quando a porta ao lado se abriu. Uma velha, de pijama e bobes no cabelo, me viu. A boca dela se abriu num “O” de horror. E então ela gritou.

— ASSUNÇÃO! ASSUNÇÃO! TEM UM HOMEM PELADO SAINDO DA SUA CASA! CORRE AQUI!

A porta do apartamento da Madalena se escancarou. Mas não foi o Assunção que saiu. Foi ela, enrolada numa toalha, com o fogo do inferno nos olhos.

— CALA A BOCA, SUA BRUXA INVEJOSA!

As duas voaram uma no pescoço da outra. Cabelo, unhas, gritos. Um espetáculo grotesco. A toalha da Madalena caiu, revelando o corpo pelo qual eu tinha arriscado a minha vida. Ela, por sua vez, rasgou o pijama da velha. As duas, uma nua e a outra seminua, rolando no chão. Aproveitei a confusão. Desci as escadas correndo, mas dei de cara com um monte de vizinhos subindo para ver o show. Tive que voltar. O único esconderijo? A lixeira comunitária do andar.

Lá dentro, fedendo a chorume, consegui me vestir.

Abri a porta da lixeira devagar.

O corredor era um pandemônio. O próprio Assunção, de toalha, tentava separar a briga, xingando a vizinha, achando que ela era uma maluca. Saí de fininho, desci as escadas como um fantasma e ganhei a rua. Vivo.

Corri até a esquina, onde meu carro, meu pobre Gol quadrado, me esperava. Abri a porta, entrei rápido. Rápido demais. Não vi que o carro não tinha mais rodas. Estava suspenso em tocos de madeira. O vidro do carona estava quebrado. O rádio toca-fitas tinha sumido.

Quando bati a porta, um casal de pombos saiu voando pelo buraco do vidro. Tinham começado a fazer um ninho no banco do passageiro.

“O que mais pode dar errado hoje?”, pensei.

Revoltado, comecei a socar o volante. Foi quando eu olhei para a frente. Na esquina, andando devagar, estava ele. Assunção, com o seu 38 na mão. A vizinha maluca, no fim, tinha plantado uma semente de dúvida. Ele estava caçando o “homem pelado”.

Não pensei. Me joguei no banco do carro, deitando. E dei de cara com o presente dos meus novos inquilinos. Uma pasta morna de fezes de pombo encheu a minha boca.

O nojo, a vontade de vomitar, a certeza da morte. Tive que engolir. Fiquei ali, imóvel, sentindo o gosto da minha própria derrota. A sombra dele passou pelo para-brisa. O coração batia tão forte que achei que o carro balançava. Ele parou. Olhou para o carro depenado. Alguns segundos de silêncio. E seguiu em frente.

Chamei um táxi para ir ao centro de Bangu achar um guincho. Só para descobrir, com a mão no bolso, que minha carteira também tinha ido embora.

A caminhada foi longa. Achei um orelhão que, por milagre, funcionava “no direto”. Liguei para o Tonhão do Guincho. Ele me cobrou metade do meu salário para vir de Botafogo resgatar minha carcaça metálica.

Ele me encontrou na Avenida Brasil. Voltamos juntos.

Onde antes havia um carro sem rodas, agora não havia nem portas, nem motor, nem fios. Levaram tudo. Até os tocos de madeira.

Cheguei em casa de madrugada. Abri o computador. ICQ. Orkut. Achei o perfil dela.

Deletado com sucesso.

Não, não posso reclamar. Eu mereci cada segundo. Como dizem os velhos sábios, há maldições que não vêm do além. Elas moram em Bangu, usam aliança e dançam pagode na segunda-feira. No fim das contas, a gente aprende. Há um cheiro que certas mulheres casadas carregam na pele, um perfume que só os idiotas como eu conseguem sentir. Não é flor, não é doce. É cheiro de pólvora. E a gente, com o pavio da própria estupidez aceso, se aproxima, achando que vai viver uma aventura, sem perceber que o estouro final será sempre dentro da nossa própria cara.

A vida como ela é: uma bomba-relógio com quadris de tanajura.

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