Conto: “A Viúva da Rua da Passagem”

Conto: “A Viúva da Rua da Passagem”

O cheiro de velório é uma mistura de lírios apodrecendo, cera de vela & o hálito de gente que finge que se importa. Eu detesto lírios. Eles têm cheiro de mentira bem-passada. O falecido era o “Velho” Gouveia. Um companheiro de copo que, se tivesse bebido metade do que dizia, teria morrido vinte anos antes. Mas ali estava ele, numa caixa de mogno barata em Botafogo, cercado por gente que, no fundo, só queria que o café da cozinha estivesse mais quente & que a cerimônia acabasse logo para pegarem o Uber.

Eu não vim para rezar. Sabe como é? Rezar exige uma fé que eu perdi entre uma dose e outra de conhaque. Vim apenas para confirmar que ele finalmente tinha parado de falar.

— Robert… ah, Robert… — soluçou Arlete.

Ela estava magnífica no seu luto de vitrine. Um véu preto que mais revelava do que escondia — tipo um trailer de filme proibido, sabe? Arlete chorava com uma precisão matemática. Cada lágrima parecia ter sido colocada ali com um conta-gotas. Eu conheço o cheiro do fingimento; cheira a talco e a um desejo reprimido de abrir o espumante assim que o coveiro terminar o serviço.

Aproximei-me, ajustando meus óculos. Senti o calor do corpo dela através do tecido fino do vestido.

— Ele se foi como um passarinho — ela murmurou, encostando a cabeça no meu ombro. — Tão puro…

— Puro, Arlete? — sussurrei, a voz carregada daquela ironia ácida que o Nelson Rodrigues adoraria. — O Gouveia era um pântano. E você sabe disso. A pergunta é: quem foi que empurrou o passarinho do galho?

Ela congelou. O soluço parou no meio, como um disco arranhado. Ela me olhou e, por um segundo, vi a verdade: um brilho de ódio e luxúria. Não havia dinheiro em jogo, entende? Pelo menos eu não tinha certeza de nenhum tostão. O que havia ali era o peso de anos de um casamento que era um necrotério compartilhado.

— Você sempre foi um canalha, Robert — ela disse, a voz agora rouca, sem o verniz da viúva santa. — É por isso que o Gouveia gostava de você.

— Ele não gostava de mim. Ele se via em mim. Ele se via em mim como um espelho quebrado num beco sujo — continuei, sentindo o perfume dela lutar contra o fedor dos lírios. — Mas eu estou vivo e ele está lá, parecendo um boneco de cera mal acabado.

Arlete deu um passo à frente, colando o corpo no meu. Estávamos a dois palmos do defunto. O luto dela era uma farsa deliciosa, uma performance digna de um prêmio que ninguém ali teria coragem de entregar. Eu não tinha certeza sobre o dinheiro do Gouveia, e francamente, nem me importava. Tem algo mais magnético na miséria moral do que numa conta bancária recheada. Sabe como é? Ver o verniz rachar é meu esporte favorito. Quem nunca se pegou querendo ver o circo pegar fogo?

— Ele morreu de quê, Arlete? — perguntei, deixando a pergunta pairar no ar como fumaça de cigarro barato. — Ou melhor, morreu de quem?

Ela soltou uma risadinha seca, um som que não combinava com o véu. — Morreu de tédio, Robert. O coração dele simplesmente desistiu de carregar tanto rancor. — Ela esticou a mão e tocou a borda do caixão com as unhas pintadas de um vermelho que gritava sob as luvas rendadas. — Ou talvez tenha sido o gim. Ele bebia como se estivesse tentando apagar um incêndio interno.

Ficamos ali, naquele silêncio tenso, observando o rosto pálido do Gouveia. Eu me sentia como um detetive — ou um predador —, dissecando cada micro-expressão dela. Ela não sentia falta do marido; ela sentia falta da plateia que ele proporcionava para o seu martírio.

— Sabe de uma coisa? — ela murmurou, desviando o olhar para um sobrinho pálido que chorava num canto. — Eu já passei por algo parecido… aquela sensação de que o morto ainda está ouvindo. Você acha que ele ouve, Robert?

— Se ouve, deve estar furioso por eu estar sentindo o seu cheiro em vez do dele — respondi. Hum… talvez eu tenha ido longe demais, mas o cinismo é um vício difícil de largar.

Foi então que o silêncio da capela foi estraçalhado. Um barulho seco, vindo de dentro da madeira. Toc-toc.

Arlete soltou um arquejo & eu ajustei os óculos, meu coração dando um solavanco de adrenalina tática. Não era assombração. Era física pura. O sobrinho pálido, no auge do desespero, tinha se jogado sobre o caixão, mas algo deu errado. O peso dele forçou a estrutura barata — sabe como são as coisas hoje em dia, tudo de compensado — e a mão do Gouveia saltou para fora como uma mola sinistra, enganchando-se no colarinho do rapaz.

— Socorro! Ele me pegou! — o garoto gritou, os olhos saltando das órbitas.

O salão virou um pandemônio. Mas eu não me mexi. Notei que, no movimento brusco, uma carta dobrada deslizou do bolso interno do paletó do morto, caindo exatamente aos pés de Arlete. Ela tentou pisar em cima, mas eu fui mais rápido.

— Olha só — eu disse, pegando o papel enquanto o garoto lutava contra o aperto do cadáver. — O passarinho deixou um bilhete antes de cair do galho.

Não era um testamento. Não era dinheiro. Era apenas uma página, escrita com uma letra trêmula e furiosa:

Arlete, eu vi o que você colocou no gim. Nos vemos no inferno, querida. Robert vai te contar o caminho.

O Gouveia sabia que eu viria. Ele sabia que eu era o único canalha o suficiente para não desviar os olhos. A mão dele não segurava o sobrinho por acaso; era o último espasmo de um ódio que se recusava a ser enterrado.

Arlete me olhou, e o véu finalmente caiu. Não o de tecido, mas o de santa. A ironia de Nelson Rodrigues é essa: no fim, o adultério e o crime são apenas temperos para um café frio de velório.

— E agora, Robert? — ela perguntou, a voz tremendo de verdade pela primeira vez.

— Agora? — Guardei a carta no meu bolso. — Agora eu aceito aquele espumante que você guardou. Mas eu sirvo as taças. Não confio muito no seu tempero, sabe? No fim das contas, a gente colhe o que planta.

Dei as costas para o defunto e para a viúva, saindo para o calor abafado de Botafogo. A vida é uma piada suja, e o Gouveia tinha acabado de contar a melhor delas.

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