O Sabor da Fraude: Um Conto Sobre Desejo e Chantagem
Foda-se a imortalidade.
Tudo começou onde as coisas boas morrem e as ruins florescem: num fórum do Reddit. A discussão era uma daquelas bem inúteis, sabe? Um bando de moleques de apartamento discutindo se a literatura nacional antiga era “coisa de criança”. Eu, movido a cachaça barata e tédio, entrei com os dois pés no peito da molecada. Despejei meu veneno.
E no meio daquele chorume digital, uma mensagem privada. Um tal de Almeida. O nome não me era estranho. “Gosto do seu jeito de destruir argumentos. É quase poético”, dizia a mensagem.
Uma busca rápida. Puta que pariu. Almeida. O dono da Continental, uma das maiores editoras do Rio. Um tubarão. O que caralhos ele queria comigo?
Começamos a conversar pelo WhatsApp. Papo vai, papo vem. Falamos de tudo. De futebol a Schopenhauer. Ele gostava do jeito que eu escrevia, mesmo ali, naquelas janelinhas de texto. Ele via a porra da “literatura” até na minha lista de compras. E o papo sempre acabava no mesmo lugar.
“Você precisa publicar, Robert. Esse seu talento não pode se perder.”
A verdade? Eu não queria. Nunca quis. Gosto da minha poesia ao vento, gritada em bares caindo aos pedaços, rabiscada em guardanapos manchados de gordura e depois jogada fora. Palavras nascem pra morrer, como todo o resto.
Mas ele insistiu. Usou o argumento mais velho e canalha de todos: “Publicar em livro, rapaz, leva o escritor finalmente à imortalidade”.
A imortalidade. Você acredita nisso? É a cenoura na ponta da vara pra fazer o burro andar. Mas, no fim das contas, de tanto ele encher o saco, eu cedi. Talvez por cansaço. Talvez só pra ver qual era a do velho.
E então, hoje, veio a mensagem final. O convite.
“Robert, venha aqui em casa amanhã para conversarmos. Teremos um encontro de família. Assim unimos o útil ao agradável. Quero que eles conheçam o futuro maior talento da nossa empresa.”
Traduzindo: ele quer me exibir para a família como se eu fosse um puro-sangue que ele acabou de comprar. Me colocar numa vitrine, entre os canapés e o parente chato, e dizer: “olhem o meu novo animal de circo”.
Que se foda. Amanhã eu coloco a coleira e vou conhecer a jaula dourada.
Mas antes da jaula, havia a noite. A imortalidade, mesmo a de mentira, pedia um brinde.
A comemoração não podia ser na Lapa. Aquilo era o meu habitat natural, o lugar onde eu lambia minhas feridas. A vitória, por mais fajuta que fosse, exigia um cenário diferente. Fomos pra Urca. Um bar com vista para a baía, onde a elite vinha fingir que gostava de música ao vivo e pagar uma fortuna por cerveja quente.
Meus “amigos” — uma coleção de poetas fracassados e aspirantes a qualquer coisa — já estavam lá, rindo alto demais, felizes demais com um sucesso que não era deles. Empurrei o corpo por entre as mesas e pedi ao garçom: “Um Johnnie Walker. Duplo.” O uísque do sucesso, que desce queimando igualzinho ao fracasso, só que mais caro. A noite seguiu nesse ritmo: bebidas, risos, tapinhas nas minhas costas, a galera comemorando um futuro que eu mesmo não conseguia enxergar.
No palco, um Zé Ninguém com um violão e um repertório de clássicos do rock pra gringo ver. Ele me conhecia de outras bebedeiras, de outros fins de noite. No meio de “Livin’ on a Prayer”, do Bon Jovi — que ironia do caralho —, ele parou a música.
— Pessoal, uma pausa! Temos uma celebridade entre nós hoje! Robert! O próximo grande nome da literatura! Sobe aqui, poeta! Dá uma palhinha pra gente do que você anda escrevendo!
Os holofotes me cegaram por um instante. Foda-se. Subi. O microfone fedia a cerveja. Olhei para aquelas caras curiosas e comecei a recitar. Um trecho de um conto. Sobre um vampiro que não caçava em castelos, mas nas ruas sujas do Rio. Um monstro que bebia o sangue de viciados e prostitutas na madrugada da Central do Brasil, sentindo o gosto amargo da metrópole em cada gole.
Quando terminei com a frase
“…e o amanhecer no Rio não traz a morte, apenas a promessa de mais sede”,
o silêncio se esticou. E então, o bar explodiu. Não foram palmas educadas. Foi um barulho de verdade. Uma onda de aprovação que me deixou enjoado.
Voltei para a mesa, mas minha atenção foi sequestrada. Havia uma mulher, sentada sozinha, me olhando. Uma encarada. Uma análise.
Deixei meus amigos falando sozinhos e caminhei até ela.
— Posso te pagar uma bebida ou você vai continuar tentando dissecar minha alma à distância? — perguntei.
Foi só aí, de perto, que eu a vi de verdade. Ela não era simplesmente bonita. A beleza dela era uma arma. Tinha olhos de um castanho tão escuro que pareciam guardar segredos e tempestades. A boca se curvava num sorriso mínimo, um misto de desprezo e diversão. Usava um vestido preto, simples, que parecia mais caro que tudo que eu possuía. A postura era de uma rainha no exílio. E o olhar… ah, aquele olhar não era de uma fã. Era o olhar de um caçador que acaba de encontrar uma presa interessante.
— Meu nome é Ana. — ela disse, a voz baixa, quase um segredo.
Fomos para o primeiro motel barato que encontramos. O amor dela não foi um carinho, foi uma briga. Um choque de corpos suados, unhas cravando nas minhas costas, dentes mordendo meus lábios com a urgência de quem está se afogando. Uma colisão violenta de duas solidões. Dormimos embolados, o cheiro de sexo, suor e uísque nos envolvendo como uma mortalha.

No dia seguinte, a ressaca era um tango arrastado na minha alma. Peguei um Uber para o endereço do tal Almeida. Leblon. O lugar não era um apartamento, era uma declaração de vitória sobre a gravidade. Um triplex gigantesco debruçado sobre a Lagoa. Paredes de vidro do chão ao teto, móveis de design italiano que pareciam desconfortáveis por princípio, e a vista… ah, a vista. A Lagoa inteira aos seus pés, um espelho azul e calmo. Era um paraíso estéril, limpo demais, silencioso demais. Um lugar onde a poesia ia para morrer.
Almeida era exatamente o que eu esperava. Camisa de linho, sorriso branco.
— Robert! Que prazer! Seu trabalho é… visceral. Uma voz necessária.
Ele falava de mim como se eu fosse um bicho exótico. Eu só balançava a cabeça, o cérebro latejando.
Almeida me serviu um Brandy. A esposa dele, uma mulher elegante com o sorriso congelado de quem se acostumou ao tédio, me analisava.
— Então, Robert, o Almeida diz que você tem uma visão… sombria do mundo.
— Eu não tenho uma visão sombria — respondi, girando o conhaque no copo.
— Eu só não ponho açúcar na realidade. A vida é uma piada cósmica. A gente nasce, apanha e morre. A arte é só o grafite que a gente picha no muro da nossa cela antes do carrasco chegar.
Vi nos olhos deles. Eles adoraram. Impressionei ele e a esposa com o meu modo pessimista e estoico de ver o mundo. Eu era a atração principal do seu zoológico particular.
Estávamos no meio dessa conversa quando um mordomo, reto como uma estátua, apareceu na sala.
— Senhor Almeida, a senhorita Júlia e o senhor Rodrigo estão subindo.
Almeida abriu um sorriso.
— Ótimo!
A porta do elevador privativo se abriu. E eles pararam ali, na entrada da sala, emoldurados pela porta.
— Robert, quero que conheça minha filha, Júlia, e meu genro, Rodrigo. Vão se casar no fim de semana. Ela também é uma aspirante a escritora, sabia?
E então ela deu um passo à frente, entrando na luz da sala.
A mesma pele, os mesmos olhos de desprezo divertido, o mesmo sorriso que conhecia o inferno. A mulher da noite anterior. Meu estômago deu um nó. O mundo parou. Ela me olhou, e um brilho de vitória cruel passou por seu rosto.
— Pai, acho que já conheço o trabalho do Robert. De perto.
Almeida riu, sem entender. Júlia me apresentou ao noivo, um almofadinha chamado Rodrigo. O casamento era no fim de semana. A vida, às vezes, tem um senso de humor de um carrasco.
Sentamos para conversar e a cena na sala se arrastava, um zoológico de gente feliz e conversas vazias. Enquanto Almeida e o noivo idiota falavam sobre a direção que a empresa deveria ir, sentia o olhar de Julia roçando minha pele, uma mistura de curiosidade e malícia ou alguma coisa a mais que eu não conseguia descrever. Pedi licença, peguei uma dose generosa do uísque do anfitrião e fui para a sacada. O ar era mais respirável ali. A vista do triplex era de um espelho perfeito cercado de verde. Um oásis de calma que não tinha nada a ver com o inferno dentro de mim.
Eu estava sozinho, vendo o sol começar a descer, quando ela se materializou ao meu lado, silenciosa como uma predadora.
— Dona Ana, que surpresa! — falei, a ironia pingando de cada sílaba.
Ela ignorou o veneno. — Não tinha como eu saber que era você.
— Sei. Você vai casar no fim de semana. Aquilo ontem era uma despedida de solteira?
— Não. — Ela olhou para a água lá embaixo, o rosto impassível. — Eu gosto de sair sozinha… E gostei do seu talento.
— Deu pra notar.
— Mas agora já foi. — Ela se virou para mim, os olhos escuros cravados nos meus. A brincadeira tinha acabado. — E se você pretende mesmo fazer parte dessa família, preciso de um favor.
— O que seria esse favor?
Ela deu um sorriso mínimo, um rasgo de crueldade no rosto perfeito.
— Meu Pai é um homem otimista, mas na verdade eu não sou uma “aspirante a escritora”, Robert, mas o meu maior fetiche é ver meu nome na capa de um livro. Por isso, você vai escrever um livro pra mim. No meu nome. Ou eu conto ao meu pai tudo o que fizemos…
Eu ri. Um riso seco, sem humor. — Duvido muito. Você não vai perder seu marido troféu por causa de uma foda com um escritor de sarjeta.
Ela se aproximou, a voz baixando para um sussurro perigoso.
— Não sei. Do jeito que o Rodrigo é, ele aceita qualquer coisa vinda de mim. Ele me perdoaria. Mas o meu pai… — Ela fez uma pausa, deixando a ameaça pairar no ar. — Meu pai não teria a mesma reação da sua parte. Ele te esmagaria. Seu contrato, sua “imortalidade”… tudo viraria pó.
Xeque-mate. A vadia sabia exatamente onde a lâmina cortava mais fundo.
Bebi o resto do meu uísque num gole só, o álcool queimando o caminho até o meu estômago vazio. Voltei para dentro, peguei um dos charutos caros de Almeida da caixa de cedro sobre a mesa e o acendi, soprando a primeira baforada de fumaça na cara do paraíso particular dele.
Foda-se. Vamos ver no que isso vai dar, então.
A princípio será um livro. Depois, quem sabe, consolar a noiva entediada quando o marido troféu ficar mais tempo do que deve no trabalho. Ainda bem que não sou branco, porque perigaria dela me pedir até para dar a ela um herdeiro mini escritor fracassado em miniatura.
Ela me observava da sacada, esperando a resposta. Eu apenas assenti com a cabeça, o charuto entre os dentes.
O pacto estava selado. Eu aceitei.

O dia do casamento chegou.
A cerimônia foi um espetáculo de bom gosto e dinheiro, um circo de horrores branco e dourado montado num jardim com vista para a cidade. Flores agressivamente brancas brotavam de todos os cantos, um xarope de violinos flutuava no ar, e o padre falava de amor eterno com a convicção de quem lê um roteiro decorado. Eu estava lá, um corvo no meio de pombos brancos, meu terno alugado me sufocando, observando tudo de pé, no fundo.
Lá na frente, o noivo, Rodrigo, chorava de felicidade. Um pobre coitado, engolindo o conto de fadas inteiro. E ao lado dele, Júlia, parecendo um anjo de grife, um sonho de pureza e perfeição. E eu ri por dentro. Um riso silencioso, amargo. Ele não fazia ideia do inferno que o esperava. Mal sabia ele que não estava casando com um anjo, mas com um demônio de vestido branco que, na noite anterior ao seu noivado, se contorcia nos lençóis de um motel barato com o escritor fracassado que agora assistia à sua glória. A lua de mel seria ótima. O resto da vida seria o pagamento. Quando eles disseram “sim” e a multidão aplaudiu, eu quase bati palmas junto, pela performance.
A festa foi no salão ao lado, ainda mais extravagante. Champanhe jorrava, sorrisos falsos eram trocados, e eu me sentia um antropólogo estudando os rituais de uma tribo alienígena. Fiquei perto do bar, o meu único lugar seguro.
Foi quando ela me achou. No meio do caos, seus olhos encontraram os meus. Com um aceno de cabeça, me chamou para um canto mais reservado, atrás de uma parede de arranjos florais. Ela ainda estava deslumbrante, a noiva do ano, mas de perto, o brilho nos olhos não era de felicidade. Era de pura luxúria e poder.
— E então, meu escritor fantasma? — ela sussurrou, a voz carregada de urgência, me prensando contra a parede fria. — Já tem uma prévia pra mim?
Ela se aproximou ainda mais, o perfume caro dela me invadindo.
— Me fala uma sacanagem. Uma bem suja. Do tipo que você sussurrou pra mim naquela noite. Quero consumar meu casamento daqui a pouco pensando nisso.
Ela não falou baixo. Ela falou alto o suficiente.
O noivo, Rodrigo, apareceu na esquina do corredor. O rosto dele se contorceu numa máscara de ódio.
— Que porra é essa, Júlia?
Como faz todo homem que desconfia da mulher, mas é submisso a ela, Ele veio pra cima de mim, o menos culpado do ocorrido. O rosto de menino rico dele, antes um outdoor de felicidade plástica, se transformou numa máscara feia de fúria. Ele não falou nada. Ele não precisava. Eu ainda tinha na mão um copo com um bom Brandy que eu tinha roubado do bar particular do anfitrião, e a primeira coisa que ele fez foi vir pra cima de mim com um soco desajeitado, um gancho de direita que telegrafou sua intenção desde o outro lado do salão.
Não foi o soco que me pegou de surpresa, foi a estupidez do gesto. A mão dele bateu de raspão no meu queixo, mas com força suficiente para arrancar o copo da minha mão. O cristal se espatifou no chão e o Brandy, aquele bom e caro Brandy, se perdeu numa poça inútil no piso de mármore.
Senti o gosto metálico de sangue na boca, onde o anel dele tinha cortado meu lábio. Mas a dor era secundária. A raiva que subiu pela minha garganta não era por causa da Júlia, não era por causa do noivo idiota, não era nem pela dor. Era pelo álcool. Pelo desperdício. Aquele era um bom Brandy, porra. E aquele almofadinha tinha jogado no chão.
— Filho da puta! — grunhi, a voz pastosa de sangue e fúria.
A adrenalina explodiu como um coquetel molotov no meu cérebro. Foda-se o terno alugado, foda-se a festa. Avancei contra ele não como um lutador, mas como um animal. Minha cabeça bateu no peito dele e nós dois fomos para o chão, uma confusão de braços e pernas, de tecido caro rasgando e de grunhidos patéticos.
Não foi uma briga, foi um atracamento sujo e desesperado. Rolamos pelo piso polido, derrubando uma mesinha com taças, o som de vidro quebrando se misturando aos gritos dos convidados. Ele tentava me socar, eu tentava enfiar meus dedos nos olhos dele. Era feio, era humilhante. E, no meio do nosso abraço de ódio, nossa rolagem sem rumo nos levou direto para o altar do sacrifício daquela festa.
A mesa do bolo.
Caímos com tudo. Não houve som de madeira quebrando, apenas um “fomf” suave e úmido. Sete andares de perfeição açucarada, de massa branca e creme de confeiteiro, desabaram sobre nós. O universo virou uma avalanche pegajosa e doce. O cheiro de baunilha se misturou ao de sangue e suor. Por um segundo, ficamos ali, atolados naquele desastre cremoso, dois idiotas batizados em glacê, o palhaço e o corvo, ambos cobertos pela mesma piada branca e melada.
O noivo espumava, atolado no glacê, mas o ímpeto dele havia se esvaído. Eu me levantei, coberto daquela massa branca e pegajosa. Num gesto inútil e quase cômico, comecei a limpar o excesso de bolo do meu terno alugado. Foda-se a briga, eu estava pensando no depósito que não receberia de volta.
Foi nesse instante de calma absurda que a noiva, a minha querida “Ana”, encontrou sua saída. Com os olhos cheios de lágrimas de crocodilo e a boca vermelha borrada de batom, ela apontou para mim e gritou para a multidão paralisada, encenando a maior performance da sua vida:
— Ele me forçou! Ele me agarrou! Socorro!
Mas uma pessoa não comprou o teatro. A mãe dela. Uma mulher que até então parecia uma estátua de botox, de repente ganhou vida. Ela não olhou para mim. Lançou um olhar de fúria e desprezo para a própria filha, um olhar que continha um histórico inteiro de mentiras e decepções.
— Você aprontou de novo, Júlia! — a mãe sibilou, a voz baixa, venenosa, no meio do salão silencioso. As duas começaram a discutir ali mesmo, um espetáculo dentro do espetáculo, esquecidas do resto do mundo. A verdade da família, o pus acumulado por anos, vazando no meio da festa de casamento.
A mãe estava tão consumida pela raiva da filha que se esqueceu do marido. Esqueceu do Almeida.
O grande editor, o homem das letras e dos bons modos, não estava mais raciocinando. Com o rosto vermelho, transformado num burguês enfurecido defendendo sua propriedade danificada, ele agarrou a primeira coisa que viu. Não os punhos. Uma daquelas cadeiras douradas e frágeis da festa. E veio correndo na minha direção.
A mãe, percebendo o movimento tarde demais, tentou gritar:
— Almeida, nãã…
Mas já era. A madeira da cadeira não explodiu, ela cantou uma nota surda e dolorosa contra a minha costela, me roubando o ar. A dor foi um clarão branco, uma ofensa física que meu corpo não pôde ignorar.
Não houve pensamento. Não houve escolha. Foi puro reflexo involuntário. Um instinto de bicho acuado. Meu braço, movido por uma eletricidade antiga, disparou para frente. Meu punho encontrou o queixo dele com um som oco e úmido de osso batendo em osso.
Os olhos de Almeida reviraram, perdendo todo o foco. A fúria se dissolveu, dando lugar a uma expressão vazia. E ele desabou para trás como um terno caro vazio, caindo sem jeito no chão de mármore. Desmaiado.
O silêncio que se seguiu foi mais alto que todos os gritos.
E então, como em toda boa ópera-bufa, chegou a cavalaria. As luzes vermelhas e azuis da polícia piscaram por entre as árvores, transformando o jardim destruído e besuntado de creme numa discoteca trágica.
Dois PMs entraram na cena, seus coturnos pesados pisando com um cuidado cômico para não escorregar nas poças de recheio de nozes. Eles me olharam, olharam para o editor desmaiado, para o noivo soluçando coberto de bolo, e suspiraram o suspiro universal de quem já viu de tudo, mas preferia não ter visto.
Quando o metal frio das algemas finalmente fechou nos meus pulsos, fez um barulhinho nojento, um “squish” de aço se misturando com o glacê real. Eu estava oficialmente preso. Pegajoso, ensanguentado e cheirando a festa de criança. A imortalidade, pelo visto, começava na delegacia.”

O cheiro de baunilha ainda estava no meu cabelo quando a porta de ferro bateu. Da discoteca trágica para a cela de sempre, que fede a desinfetante barato e arrependimento. As grades desenham sombras na parede. Todo o caminho percorrido, toda a tinta gasta… pra terminar num xadrez úmido. A glória durou menos que uma ereção de bêbado.
Meu lamento na cela é um lamento silencioso, mas não consigo esconder aquele riso seco de quem sabe que recebeu exatamente o que merecia.
Um velho, encolhido no beliche de cima, me observa com olhos cansados. Ele se inclina, a mão trêmula estendendo um copinho de plástico com um líquido âmbar.
— Toma, rapaz. O primeiro gole é sempre o mais difícil.
Era uísque. O cheiro forte invadiu a cela. Eu peguei o copo.
E bebi.

