A Placa e o Rei: A Batalha de Clark Gable por Hattie McDaniel

A Placa e o Rei: A Batalha de Clark Gable por Hattie McDaniel

1939. Califórnia. O ar cheirava a tinta fresca, serragem e… hipocrisia.

O set de …E o Vento Levou era o maior circo já montado. Um épico. David O. Selznick, o produtor, estava construindo Roma em um dia, e queimando-a no dia seguinte.

Clark Gable acendeu um cigarro.

Ele era o Rei. O Rei de Hollywood.

Uma piada.

Ser Rei significava que seu rosto valia milhões e sua paciência valia centavos. Ele estava cansado. Cansado do calor dos refletores. Cansado da tensão entre ele e Vivien Leigh. Cansado da porra do roteiro que mudava a cada duas horas.

E, agora, ele estava cansado de uma estupidez em particular.

Ele gostava de Hattie McDaniel.

Por que não gostaria? A mulher era um dínamo. Chegava na hora, sabia as falas, & tinha uma risada que parecia capaz de derrubar uma parede. Ela era “Mammy”. Mas, para ele, ela era uma profissional. Talvez a única ali, além dele, que entendia que isso era um trabalho. Um trabalho fodido, mas um trabalho.

Ele a viu mais cedo. Voltando.

Não do banheiro. Mas da direção do banheiro.

Hattie tinha que fazer uma caminhada. Uma longa caminhada. Para um barraco separado, quase fora dos limites do estúdio, só para poder mijar.

Gable foi investigar.

Ele não precisou procurar muito. Lá estava, pregado numa porta de madeira compensada, fedendo a tinta barata: NEGRO.

E, claro, na porta ao lado, a anfitriã da festa: BRANCO.

Gable parou. Olhou para as letras. A fumaça do cigarro subindo.

Que merda era aquela?

Isso não era o Sul de 1860. Era a porra de um set de filmagem em Culver City. Um lugar onde tudo era falso—as paredes, o céu, os sentimentos—mas, aparentemente, o preconceito era real. Era a ironia mais nojenta que ele já tinha visto, e olha que ele vivia em Hollywood. Gastar milhões para romantizar o “Velho Sul” e, ao mesmo tempo, importar a sua burrice mais fundamental.

A vida imitando a arte? Não. A vida sendo uma vadia preguiçosa, como sempre.

Ele jogou o cigarro no chão. Amassou-o com a bota.

Aquele desprezo melancólico, sabe? Aquele cansaço de Bukowski. Não era raiva de justiceiro social. Era… nojo profissional.

Ele não foi até o produtor. Ele foi até o diretor. Victor Fleming.

Fleming já estava no limite. O cara assumiu a direção depois que Cukor foi chutado, estava filmando dia e noite. Parecia um fantasma.

Gable nem bateu. Entrou no trailer de Fleming. A “ação” aqui não foi de socos. Foi tática. Visceral. Como um impasse nuclear.

“Vic”, Gable disse. A voz baixa.

Fleming levantou a cabeça. O pânico nos olhos. “O que foi, Clark? A Vivien? O roteiro? Deus, o que foi agora?”

“As placas”, disse Gable.

“Que placas? As placas da rua? As da frente da Tara?”

“As dos banheiros.”

Silêncio. Fleming piscou. Ah. Isso.

“Clark, pelo amor de Deus…”, começou Fleming, com a voz cansada de quem vai dar uma desculpa. “É… complicado. São as leis locais, os outros atores do Sul, o Selznick acha que é melhor para evitar…”

“Evitar o quê, Vic? Evitar que a Hattie use o mesmo buraco no chão que a Scarlett?”

Gable se aproximou da mesa. Ele era o Superman. Ele era o Homem de Ferro. Ele era o ativo mais caro do estúdio. E ele sabia disso.

“Eu não tô nem aí para as suas complicações”, disse Gable. “Só vou dizer uma vez. Tira a merda das placas. Ou vocês vão ter que achar outro Rhett Butler.”

.

A ameaça. A bomba atômica.

Fleming ficou pálido. Perder Gable? Agora? Seria o fim do filme. O fim de Selznick. O fim de sua própria carreira.

“Clark… você não pode…”

“Posso. E vou. Tô indo pro meu trailer. Você tem uma hora.”

Ele saiu.

Não demorou vinte minutos. As placas foram arrancadas. Não com um pedido de desculpas. Apenas… sumiram. Como se nunca tivessem existido.

Hattie viu. Ela soube.

Ela não fez um agradecimento choroso. Ela não era esse tipo de personagem. Ela era melhor que isso.

No dia seguinte, no refeitório lotado, Gable pegou seu prato—bife e batatas, como sempre—e olhou ao redor. Ele viu a mesa de Hattie. Ela estava lá com os outros atores negros, comendo em silêncio.

Gable caminhou até lá. Na frente de toda a equipe. Na frente da delicada Vivien Leigh e do esnobe Leslie Howard.

Ele sentou.

“Posso?”, ele perguntou, já sentado.

Hattie olhou para ele. Um segundo. Dois. E então, aquela risada. Aquela risada que derrubava paredes.

“Francamente, Sr. Gable”, ela disse, imitando a voz dele, “eu não dou a mínima.”

Eles comeram juntos. Um ato de guerra. A gentileza mais simples como a maior das subversões.

Claro, a história não acaba aí. Seria fácil demais.

Veio o Oscar. Hattie McDaniel. “Melhor Atriz Coadjuvante”. A primeira. A primeira pessoa negra a ganhar a porra da estatueta. História. Um farol.

Gable aplaudiu de pé. Ele estava orgulhoso.

Mas… ah, a vida como ela é…

A cerimônia foi no Ambassador Hotel. Um lugar que tinha uma política rígida: “Não aceitamos negros”.

O produtor, Selznick, teve que “puxar seus pauzinhos” (leia-se: implorar) só para Hattie poder entrar no prédio para receber o prêmio que o filme dele estava ganhando.

E sentar com a equipe? Com Gable? Com Vivien?

Não.

Hattie McDaniel, a vencedora do Oscar, foi escoltada até uma mesinha no fundo do salão. Separada. Perto da parede. Perto da cozinha.

Gable venceu a batalha das placas. Mas a guerra… a guerra estava perdida. A estupidez, meu caro, a estupidez humana é a única coisa verdadeiramente imortal.

 

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