Conto Noir O Dilúvio dos Hipócritas: A Verdade Dói e Derrete
O asfalto de Copacabana tava cozinhando meus ovos. Sabe como é, né? Janeiro no Rio, quarenta graus na sombra e uma umidade que faz você sentir que tá respirando sopa de asfalto. Eu tava lá, no balcão do bar do Seu Manuel, olhando pro fundo de um copo de dose como se fosse achar o sentido da vida ali dentro.
Spoiler: só achei um resto de açúcar e o reflexo de um homem que precisava de um banho e de uma nova alma.
Eu sou o Robert. Um sobrevivente do tédio.
As pessoas ao redor… ah, as pessoas. Eu as observo como quem estuda um acidente de carro em câmera lenta. Um escritor atento diria que eu sou um observador, mas eu me sinto mais como um juiz de uma partida de futebol onde todo mundo tá roubando. Tipo assim, olha aquele cara de terno ali no canto. Tá falando no celular sobre “ética nos negócios” enquanto olha pro decote da garçonete com a sutileza de um tubarão branco. Ele mente pra esposa, mente pro chefe e mente pra si mesmo no espelho toda manhã.
De repente, o céu ficou da cor de um hematoma roxo.
Não foi um aviso. Foi um soco. A chuva caiu, mas não era água de lavar calçada. Era algo denso, com um cheiro metálico, tipo sangue de robô. E aí o show começou.
— Ah! Meu Deus! Tá queimando! — o engravatado gritou.
Eu olhei pela janela suja e vi a mágica acontecer. A pele dele começou a chiar. Sabe quando você joga um bife na chapa quente? Exatamente isso. A chuva tocava nele e a carne derretia em tiras cinzas. Ele gritava sobre ser um “homem de bem”, mas a chuva não tava nem aí pro seu LinkedIn. Ela sabia que ele era uma farsa.
Era o apocalipse dos hipócritas. Uma versão carioca de Além da Imaginação, mas sem o Rod Serling pra explicar a moral da história.
Eu saí pra rua. Dane-se. Se eu tivesse que derreter, que fosse logo. Eu já me sentia um lixo mesmo. Mas quando as gotas tocaram minha nuca… nada. Era só água fresca. Um carinho gelado no meio do inferno. Eu ri. Eu sou um bêbado, um egoísta, um bosta que não liga pra ninguém, mas eu nunca fingi ser o Batman. Eu sou o Coringa da honestidade brutal, e a física do universo resolveu me dar um passe livre.
Eu precisava ver a Clara.
A Clara era minha obsessão. Ela morava num conjugado na Barata Ribeiro. Ela era perfeita, sabe? Aquela pele que parece feita de porcelana e promessas. Ela sempre falava de caridade, de luz, de “boas vibrações”. Eu pensava: “Se eu não queimo, ela vai ser uma sereia nessa chuva”.
Corri pelas ruas. O Rio tava dantesco. Vi um pastor derretendo no capô de um SUV blindado. Vi uma digital influencer perdendo o nariz enquanto tentava filmar um story sobre “gratidão”. A cidade tava virando um ensopado de gente mentirosa. Era visceral. O som da pele descolando dos ossos era como abrir um velcro gigante.
Cheguei no prédio dela. Subi as escadas tropeçando no meu próprio cinismo. Bati na porta.
— Clara! Abre! Sou eu!
Ela abriu. Tava seca. Linda. Um anjo de pijama de seda.
— Robert? O que tá acontecendo lá fora? — Ela perguntou com aquela voz de quem nunca disse um “porra” na vida.
— A justiça, Clara! A verdade caiu do céu! — eu disse, puxando ela pro parapeito da janela. — A gente tá salvo. A gente é puro, cada um do seu jeito. Vem comigo. Vamos caminhar sobre os cadáveres dos falsos.
Eu a puxei pra debaixo da goteira. Ela hesitou por um segundo. Olhou pra chuva como se olhasse pra um abismo.
— Robert… — ela começou, e o tom de voz dela mudou. Não era mais o anjo. Era algo frio. Algo que Nelson Rodrigues descreveria como a “nudez castigada” da alma. — Você é tão patético. Você acha que eu sou boa? Eu te aturei porque você era o meu “projeto social”. Eu me sentia santa cuidando de um lixo como você. Eu nunca te amei. Eu odeio cada segundo que passei respirando o seu cheiro de cigarro barato.
Ela deu um passo pra dentro da chuva. Eu esperei o brilho da santidade.
Nada. A chuva batia nela e escorria como se ela fosse feita de teflon.
— Viu? — ela sorriu, um sorriso que faria o Hannibal Lecter pedir arrego. — Eu não queimo porque eu não tenho uma gota de culpa. Eu sei exatamente o monstro que eu sou e eu adoro isso. Eu não minto pra mim mesma, Robert. Eu sou uma predadora completa.
Meu mundo girou. Eu olhei pra ela, aquela visão de perfeição psicopata, e uma pontada de esperança (aquela praga!) me atingiu. Pensei:
“Talvez eu possa salvá-la. Talvez, lá no fundo, ela só precise de um amor de verdade pra ser humana…”
No milésimo de segundo em que eu acreditei nessa mentirinha reconfortante pra massagear meu ego…
CHIÁÁÁÁÁÁÁ.
Minha mão direita, que segurava o braço dela, começou a fumegar. A dor foi um raio elétrico que fritou meus neurônios. Eu gritei. A pele da minha palma grudou na seda do pijama dela e começou a derreter como cera de vela barata.
Eu tinha mentido pra mim mesmo. E a chuva, aquela desgraçada honesta, não perdoa nem os amadores.
Ela me empurrou de volta pro quarto, fechou a janela & me olhou com um desprezo olímpico enquanto eu me contorcia no chão, vendo meus dedos virarem geleia.
O Rio de Janeiro lá fora continuava gritando. E eu? Bom, eu só queria uma dose. Mas minhas mãos não conseguiam mais segurar o copo.


