O Rei da Lapa

O Rei da Lapa

Acordei com a boca parecendo o cinzeiro de um bar de beira de estrada numa terça-feira chuvosa. Sabe como é, né? Aquele gosto de cinza fria misturada com bile e a certeza de que você fez merda. O fígado não estava apenas cobrando a dívida; ele tinha mandado os capangas para quebrar minhas pernas.

O sol batia na janela do meu quarto e meia, na Rua do Riachuelo, como um soco de um peso-pesado. Eram 10 da manhã de um domingo. Um domingo que prometia ser mais um capítulo na enciclopédia do meu fracasso.

Levantei, cocei o saco – um hábito nobre, talvez o único gesto honesto que restou ao homem moderno – e fui pra janela xingar o barulho, a vida, o universo.

Silêncio.

Não aquele silêncio de “ah, o vizinho morreu”. Era um silêncio sólido. Geológico. Cadê a velha da empada berrando com aquela voz de taquara rachada? Cadê o ônibus 433 estuprando a embreagem e cuspindo fumaça preta na cara dos pedestres? Cadê os noiados discutindo a teoria das cordas na calçada com uma pedra de crack na mão?

Nada. O Rio de Janeiro tinha puxado o fio da tomada.

Vesti uma calça jeans que já tinha ecossistema próprio de tanta sujeira, acendi uma ponta de charuto que achei no chão (Deus abençoe as pequenas vitórias) e desci. A portaria, vazia.

A Lapa num domingo de manhã costuma ser um velório de dignidade, com cheiro de urina e turistas tirando foto da desgraça alheia. Mas hoje? O asfalto brilhava. Os Arcos da Lapa, aqueles dentes cariados de um gigante morto, estavam brancos, mudos.

— Alô? — gritei. Minha voz bateu no Circo Voador e voltou, seca. Nem o eco queria papo comigo.

Caminhei até a Mem de Sá. Entrei no primeiro boteco. O cheiro de gordura velha era reconfortante, quase materno. Pulei o balcão. Peguei uma garrafa de Old Parr – sim, hoje nada de corote – e virei no gargalo. O líquido desceu queimando, limpando a alma, batizando o dia.

Foi aí que bateu. A euforia. A doce e mentirosa liberdade.

Eu era o rei. O dono da porra toda. Sem vizinhos, sem dívidas, sem ex-mulheres enchendo o saco.

Entrei numa tabacaria arrombada. Peguei uma caixa de Cohibas. Acendi um, soltei a fumaça azul para o teto e me senti o próprio Churchill, só que sem a guerra mundial pra resolver.

Liguei o som de uma loja de eletrônicos na rua.

Sympathy for the Devil.

Os Stones rasgando o silêncio. Dancei pelado em frente à Sala Cecília Meireles, com o charuto numa mão e o whisky na outra. O badalo balançando ao vento, livre, soberano.

Mijei no meio da Avenida Rio Branco, desenhando minhas iniciais no asfalto quente.

Fui o Imperador do Rio de Janeiro por três dias. Três dias de whisky, fumaça e glória solitária.

Mas aí… o silêncio começou a pesar. O silêncio é um canalha. Ele te obriga a ouvir o que você não quer: a sua própria cabeça. É como uma estática, bzzzzzz, arranhando o cérebro.

No quarto dia, arrastei um manequim que roubei da loja  C&A para o meu “palácio”. Dei o nome de Cláudia.

— O que você acha, Cláudia? — perguntei, servindo um copo de whisky pra ela e outro pra mim. — Será que o arrebatamento veio e Deus olhou pra mim e disse: “Esse aí não, esse aí já tá no inferno”?

Cláudia não respondeu. Mulher sábia. De plástico, fria, perfeita.

A paranoia começou a coçar na nuca. Eu andava com um taco de beisebol, olhando para trás. As sombras se mexiam. O mundo parecia… falho.

Na esquina da Gomes Freire, vi um prédio tremer e ficar pixelado. Como um glitch de videogame barato.

— Eu tô ficando maluco, Cláudia — sussurrei, chorando no ombro duro dela. — Eu preciso ver o mar. O mar não mente. O mar é a única verdade.

Corri. Corri como um animal fugindo do abate. Atravessei o Aterro, o sol derretendo meu cérebro, o suor fedendo a álcool puro. O Pão de Açúcar me olhava lá de cima, aquela pedra idiota e impassível.

Cheguei em Copacabana. A areia imaculada. O mar azul. Infinito.

Caí de joelhos, rindo e chorando.

— Viu, Cláudia? O mar! O mar tá aqui!

Mas então, olhei para o lado.

Cláudia estava sentada na areia. O manequim de plástico, segurando meu taco de beisebol.

— Você nunca saiu do apartamento, Robert — ela disse.

A voz não era dela. Era a minha. Rouca, pastosa, podre de nicotina e desespero.

O mar tremeu. O horizonte piscou como uma lâmpada fluorescente velha.

E o mundo se desfez.

O cheiro de maresia sumiu. Subiu o cheiro azedo, insuportável, de vômito e mijo fermentado.

Abri os olhos de verdade.

Não era a praia.

Era o chão do meu quarto na Rua do Riachuelo.

Eu estava deitado em posição fetal, abraçado a uma boneca inflável muchiba que eu tinha roubado há anos.

O “mar” onde eu tinha mergulhado era uma poça enorme de vômito, vinho barato e urina que se espalhava pelo assoalho de madeira podre. Minha roupa estava encharcada daquilo.

O “Pão de Açúcar”? Era uma pilha de caixas de pizza, garrafas vazias e lixo acumulado no canto do quarto, roçando o teto.

O “charuto cubano” na minha mão era uma bituca de cigarro filtro vermelho que eu tinha pescado do chão e mastigado.

Os três dias de glória. O Old Parr. Os Rolling Stones.

Tudo delírio. Tudo tremens.

Eu não tinha saído dali. Eu tinha passado 72 horas me contorcendo na própria sujeira, viajando no éter da abstinência e da overdose.

Tentei me levantar, mas escorreguei no meu próprio “oceano”.

— Puta que pariu… — gemi.

O silêncio acabou.

Lá fora, a velha gritou: “OLHA A EMPADAAA!”. O ônibus 433 passou na rua, fazendo o prédio tremer. O mundo real invadiu meu quarto com a sutileza de um trator.

Eu estava de volta.

Fechei os olhos, sentindo o gosto de bile e derrota na garganta. O “Rei da Lapa” precisava levantar e limpar o vômito antes que secasse. E o pior de tudo: eu não tinha nem um centavo pra comprar uma cerveja pra curar o tremor.

A vida, meus caros, é a única ressaca que não passa.

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