Resultados Inconclusivos

Resultados Inconclusivos

Mais um dia no confessionário biológico que eu chamo de consultório. O ar-condicionado gemia como um asmático terminal, tentando em vão lutar contra o bafo quente de um Rio de Janeiro que parecia ter vendido a alma ao diabo em troca de um verão eterno. E eu ali, Robert, de jaleco branco, a porra de um anjo de mentira.

Abri a gaveta de baixo da minha mesa. O Macallan sorriu pra mim. Um gole rápido, direto da garrafa, só pra calibrar a alma antes do próximo round. O antisséptico da minha paciência. O dia prometia.

A porta se abre e entra ele. Um australiano. Alto, bronzeado, dentes que pareciam teclas de piano recém-polidas. Um comercial de margarina ambulante. Ele me conta a sua saga, a sua Odisseia particular. Morou 25 anos na França. Vinhos, queijos, o caralho a quatro. Veio pro Brasil atrás de… calor? Mais trabalho? Menos estresse? Ah, a doce e patética ironia dos gringos.

A família era um clichê de porta-retrato: ele, a esposa, a sogra que já devia estar flertando com o fóssil e três rebentos. Duas moças e um rapaz, todos na casa dos vinte. Saudáveis, bonitos, provavelmente insuportáveis. O problema? O quarto filho. A porra do quarto filho não vinha.

“Doutor”, ele disse, com aquele sotaque que transforma qualquer frase numa pergunta, “minha esposa está tão triste. Eu só queria dar essa alegria pra ela.”

Que nobre. Que altruísta. Um verdadeiro mártir da próstata. Olhei a ficha dele. O cara corria maratonas, levantava peso, tinha o corpo de um ator de Hollywood prestes a interpretar um super-herói de segunda linha, tipo o Aquaman. A chance do problema ser dele era quase nula. O problema, ah… o problema quase sempre usa saia e finge dor de cabeça.

Fiz o básico. O protocolo. “Vamos pedir uns exames, só pra desencargo de consciência.” Pedi o pacote completo. Um banho de sangue e esperma no laboratório. Marquei o retorno. “Me ligue quando estiver com os resultados.” Ele sorriu, apertou minha mão com a força de quem esmaga cocos e se foi, deixando um rastro de otimismo e colônia cara no meu oásis de desgraça.

Alguns dias depois, a secretária anuncia. Ele voltou. E trouxe a esposa. Ótimo. Plateia para o circo.

Eles entram. Ele, o mesmo sorriso de outdoor. Um Golden Retriever em forma de gente. Ela… ah, ela. Ela era diferente. Uma francesa com um ar de tragédia antiga, bonita de um jeito que só a culpa consegue esculpir. Entrou arrastando os pés, os olhos varrendo cada canto da sala, menos a minha cara. Agarrou a bolsa como se fosse um escudo. Ele, o idiota feliz, solta a pérola: “Doutor Robert, eu a trouxe de surpresa! Disse que era só uma visita a um amigo!”

Uma surpresa. Puta que pariu. Me senti o anfitrião de uma execução. Ela parecia o Frodo chegando em Mordor, carregando um fardo que ninguém via. Será que ela tinha algo? Uma doença que escondeu do marido-troféu? A mente humana, sabe?, é um labirinto fétido. E a minha já estava no centro, conversando com o Minotauro.

“Sentem-se, por favor.”

Abri o envelope pardo. Os papéis dentro pareciam mais pesados que o normal. Fui passando os olhos pelos resultados, um por um. Hemograma, ok. Hormônios, ok. Glicose, colesterol… tudo nos trinques. E então, o espermograma.

Eu gelei.

Mas não era um frio de ar-condicionado. Era um frio que vinha de dentro, daquele lugar onde a gente guarda as verdades mais cruas sobre a nossa espécie. Li de novo. E de novo.

Azoospermia total. Contagem de espermatozoides: zero. Nível de FSH nas alturas. O diagnóstico era um soco no queixo: o Senhor perfeição, o Adônis australiano, era infértil. Não era uma infertilidade temporária, causada por estresse ou pelo calor dos trópicos. Era de fábrica. Genética. Um defeito no projeto. Ele nunca tinha produzido um único e reles espermatozoide na vida.

O Super-Homem era de kriptonita.

Levantei os olhos do papel. Ele ainda sorria, esperando o sinal verde para começar a produzir o seu quarto milagre. Então, olhei para ela.

Nossos olhos se cruzaram por um segundo. E naquele segundo, eu vi tudo. Os 25 anos de mentira. Os três filhos que não eram dele. A tristeza dela, que não era por não ter o quarto, mas pelo medo de o primeiro, o segundo e o terceiro serem descobertos. Ela sabia. Desde o início.

Foi um olhar de mil lanças.

Ela desviou o rosto, a cabeça baixando numa confissão silenciosa. O corpo murchou na cadeira.

O marido, alheio a tudo, quebrou o silêncio. “E então, doutor? Tudo certo pra gente começar a treinar?”

O que eu faria? Dinamitar aquela família ali mesmo, na minha frente? Ser o arauto da verdade, o anjo da justiça com um diploma de medicina? Ou ser apenas… humano? Hum… a humanidade é superestimada.

Fechei a pasta com um estalo suave. Forcei um sorriso profissional, a mesma máscara que uso pra dar notícia ruim.

“Olha, senhor… alguns resultados aqui são… hum… inconclusivos. Preciso de mais uns dias. Quero cruzar umas informações, talvez consultar um colega. Coisa de protocolo, sabe? Só pra ter certeza absoluta.”

Ele murchou um pouco, mas a esperança é uma barata, nunca morre. “Ah, claro, doutor. Sem problemas. O que for preciso.”

Eles se levantaram. Eu os acompanhei até a porta. Ele me deu outro aperto de mão de quebrar os ossos. Ela veio logo atrás. E então, quando o marido já estava no corredor, ela parou na minha frente. Pela primeira vez, me encarou. De verdade.

Não eram olhos de uma vítima. Eram olhos de uma jogadora que acabara de escapar de um xeque-mate. Havia um universo inteiro ali: um pedido de desculpas, uma súplica e, acima de tudo, uma gratidão suja, crua. Um “obrigada” que nunca seria dito. Os meus olhos responderam no mesmo silêncio. Um “o mundo é uma merda, boa sorte” que ela entendeu perfeitamente.

Eu não a julguei. Quem era eu pra julgar? Naquele instante, minha mente foi invadida não por condenação, mas por uma curiosidade quase pornográfica. Imaginei as sacanagens, as mentiras sussurradas no escuro, o sexo com outro cara — o pai verdadeiro — enquanto o marido dormia no quarto ao lado ou viajava a trabalho. A vida dupla. A performance de uma vida inteira. Naquele segundo, eu não era o médico. Era o cúmplice. O único espectador que conhecia o roteiro completo daquela peça.

Ela deu um aceno quase imperceptível com a cabeça e se foi, deslizando pelo corredor para se juntar ao seu prêmio e à sua sentença.

Fechei a porta. Respirei fundo. O cheiro de colônia cara e de cumplicidade silenciosa ainda pairava no ar.

Cheguei em casa mais tarde, o peso do mundo nas costas. Foda-se o mundo. Joguei as pastas na mesa de centro. A cidade lá fora gritava, com suas buzinas e sirenes, a trilha sonora do caos. Abri a janela. O cheiro de mormaço e de mar preencheu o apartamento.

Fui até o bar. Peguei meu velho amigo, o mesmo Macallan 18 anos. Servi uma dose generosa, sem gelo. O gelo é para os fracos. Fui até a caixa de Cohibas, peguei um, cortei a ponta com a precisão de um cirurgião entediado. Acendi. A primeira baforada, densa e aromática, era como um “vai se foder” para o universo.

Sentei na poltrona, o copo na mão, o charuto na outro.

O santo infértil da Austrália e sua madona dos chifres. Três filhos. Vinte e poucos anos de um teatro bem ensaiado. Não é curioso? No fim das contas, a vida não passa de uma grande e elaborada mentira que a gente concorda em acreditar. Uns mentem sobre amor. Outros, sobre felicidade. E alguns, tipo assim, mentem sobre a porra de uma linhagem inteira.

Dei um gole longo no whisky. O líquido desceu queimando, limpando a alma.

Um brinde.

Um brinde à divina, à espetacular, à inevitável putaria que move o mundo.

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