Um Gole, um Trago e Ela
Jantar de firma. Puta que pariu.
Se existe uma prévia do inferno, é essa. Um salão de festas de hotel na Barra, um lugar sem alma, bege e dourado, fedendo a carpete novo e à desesperança de mil eventos corporativos iguais a esse. O ar-condicionado, um monstro asmático no teto, cuspia um vento gelado que não dava conta de dissipar o cheiro de comida requentada e do perfume falsificado e barato das secretárias.
Eu estava num canto, como sempre. Já no meu terceiro copo de whisky – o mais caro que o bar aberto oferecia, o que não queria dizer porra nenhuma – observando o circo. Homens de meia-idade com suas gravatas afrouxadas, rindo alto demais de piadas sem graça. Mulheres com sorrisos de plástico, calculando qual gerente de pau mole poderia garantir a próxima promoção. Uma dança de primatas, um zoológico de ambição e tédio. E eu ali, o tratador bêbado, odiando cada um deles.
Praticamente uma rotina no mundo corporativo da sociedade conservadora e decandente carioca.
E então, eu a vi.
Claro que eu a vi. O álcool só deixava as bordas do mundo mais borradas, mas ela… ela ficava em alta definição.
Ela era um animal de raça no meio daquele bando de vira-latas. Alta. Um vestido preto, simples, mas que no corpo dela parecia uma ofensa, uma obra de arte cara demais pra estar naquela parede de mofo. As pernas… porra, as pernas dela começavam no chão e só terminavam na minha imaginação mais suja. Cabelo escuro, preso num coque que parecia dizer “sou séria”, mas uns fios soltos na nuca sussurravam “me solta, caralho”.
Mas não era só o corpo. Era o jeito que ela se movia. Uma confiança predatória. Ela não andava, ela patrulhava o ambiente. Os olhos dela, escuros e entediados, analisavam tudo e a todos com um leve desprezo. Ela sabia que era o melhor prêmio da sala e tinha um puto orgulho disso. Era uma atriz. Uma atriz magnífica no palco da mediocridade.
E a melhor parte da performance? Ela é casada. Muito bem casada, ama demais o marido. Um playboy herdeiro que ela conduz como um bibelot nas festas e encontros do escritório, parecem um casal de comercial de margarina. Mas ela sabe muito bem distinguir prazer de negócios, amor de tesão, cumplicidade de depravação. Ela sabe que o nível que chegou em seu relacionamento a impede de ter certas coisas daquele homem. Ele a ama demais para fazê-la se sentir como gosta, ele tem estima demais por ela para submetê-la à degradação, um marido que ama não avilta a esposa… Isso ela deixa para o seu amante. Para um bicho como eu.
E eu, bom… eu queria sentar na primeira fila do show particular dela.
A noite se arrastou como um animal ferido. Mais dois whiskies pra dentro. A farsa social acabou e as máscaras começaram a cair, revelando o cansar e a feiura por baixo.

O corredor do hotel era um túnel de tédio. Luzes amareladas, carpete com estampas geométricas que agrediam a vista. Um cemitério de portas iguais. E eu, alguns passos atrás dela, seguindo o balanço sutil daqueles quadris como um bêbado segue a promessa do último bar aberto.
Ela parou. 237. O som do cartão magnético foi seco, um estalo no silêncio. A luzinha verde piscou. Ela não olhou pra trás. Não precisava. Apenas segurou a porta aberta por um segundo a mais que o necessário.
Entrei.
O clique da tranca foi a única palavra que a gente precisou dizer.
O quarto era uma merda. Igual a todos os outros. Cheirava a produto de limpeza de limão e a solidão. Uma cama de casal grande demais, dois quadros horríveis de barquinhos na parede, um frigobar que zumbia como um inseto moribundo. Uma caixa. Perfeita para o que a gente ia fazer.
Ela jogou a bolsa na poltrona e se virou pra mim, finalmente. Sem sorriso. Só aquele olhar de avaliação.
— E então? — a voz dela era grave, rouca.
Não respondi com palavras. Fui pra cima dela e tomei a boca dela como se fosse o último copo de bebida do mundo. Tinha gosto de vinho tinto e de um batom que custava mais que o meu aluguel. A princípio foi uma briga, dentes contra lábios, mas logo ela cedeu, a língua dela encontrando a minha. As mãos dela, frias, subiram pela minha camisa, desabotoando com uma pressa eficiente, quase profissional.
Rasguei a alça do vestido dela. O som do tecido se partindo foi música.
Não teve delicadeza. Foi um amontoado de membros e suor na cama espaçosa do hotel. E eu sabia exatamente o que eu estava dando pra ela ali. A oportunidade de ser suja. De ser possuída com o desdém que o marido-troféu jamais teria coragem de oferecer. O maior prazer dela, eu via nos olhos dela, era a certeza de que, depois daquela depravação, eu jamais seria o homem sentado ao seu lado na festa de família, ao lado da sua mãe, falando sobre como eles fazem bolinhos de chuva quando a farinha acaba.
Cada movimento era pra apagar o dia, o trabalho, a vida de merda que a gente levava. Ela não gemia, ela gritava, com raiva, cravando as unhas nas minhas costas. E eu fodia com ela, alimentando aquela fúria, sabendo que eu era só uma ferramenta pro caos particular dela, assim como ela era uma pro meu. Era a única oração que eu conhecia.
Quando acabou, eu rolei pro lado. O silêncio voltou, pesado, grudento.
Ela se levantou quase que imediatamente. Como se o chão estivesse queimando. Foi pro banheiro. Ouvi o som do chuveiro. Metódico. Rápido.
Acendi um Camel. O primeiro trago queimou a garganta. A fumaça subiu e dançou com a luz do abajur, a única luz acesa. Olhei pela janela. As luzes da cidade. Um monte de gente sozinha em suas próprias caixas.
Ela saiu do banheiro enrolada numa toalha, o cabelo molhado escorrendo pelas costas. Nem olhou na minha cara. Vestiu a roupa íntima, o vestido agora rasgado, e calçou as meias. Parou, de pé, perto da poltrona onde tinha jogado a bolsa. Impecável, a porra da atriz. Eu continuava deitado na cama, um pedaço de carne suada no colchão dela.
Ela me olhou. Não disse nada. Só fez um leve movimento com a cabeça na direção da porta. O recado era claro: o espetáculo acabou, pode sair do palco.
Levantei sem pressa. Catei minhas calças, minha camisa amassada do chão. Vesti a minha fantasia de homem de negócios de volta. Passei por ela, que nem se mexeu. Abri a porta e saí.
O corredor parecia ainda mais longo e solitário na volta. Meu quarto. 312. A mesma porta, o mesmo carpete. Entrei. O mesmo cheiro de nada. Joguei a chave na mesa. Tirei da mala a garrafa de Tennessee Honey que eu sempre carregava pra essas viagens de merda. Nem me dei ao trabalho de pegar o copo do banheiro. Bebi no gargalo. Quente, rasgando. Foda-se.

Hoje. O escritório. A mesma luz branca de necrotério, o mesmo barulho de teclados. A ressaca martelando na minha cabeça.
Lá pelas dez, eu a vi perto da máquina de café.
De tailleur cinza, cabelo preso, a armadura completa. Ela estava rindo de alguma merda que o idiota do marketing falou. Ela me viu. Nossos olhos se cruzaram por cima das baias.
E ela me deu. Não um sorriso. Não um aceno, apenas um levantar quase imperceptível do canto da boca.
E depois virou o rosto.
Voltou a ser a atriz. A esposinha trofeu do herdeiro de sei lá o quê.
E eu, sentado na minha cadeira de rodinhas, olhando pra um projeto no Adobe Photoshop, senti um buraco no estômago. Um vazio. E logo em seguida, uma pontada. A mesma coceira de ontem.
Puta que pariu. Preciso sentir aquele gosto de batom caro de novo.
Que se foda.
A vida se resumia a isso, afinal. Havia os maridos e havia os amantes. Os que enfeitam a sala de estar e os que sujam os lençóis.
A mim, por algum castigo ou vocação, talvez por meu gosto peculiar por whisky barato e charutos e meu total desprezo pela raça humana — coube o papel do esgoto. E o esgoto não pede licença. Apenas existe, para que a fachada da casa bonita continue de pé.


