O Homem que Virou Pêndulo
Aviso do autor: O que você vai ler a seguir é a minha interpretação, a minha dramatização dos fatos. A história é real, os ossos dela são verdadeiros. Mas a carne, o sangue e os sussurros na cabeça do personagem… bom, isso é por minha conta. A realidade, no fim das contas, é só um rascunho.
O barulho da chuva batendo na janela do meu apartamento em Copacabana me lembra o som de estática. Um chiado constante, tipo assim, o universo tentando te dizer alguma coisa que você não consegue entender. Ou talvez só esteja te mandando à merda, o que é mais provável.
Na TV, passa um desses filmes de guerra antigos. O Mais Longo dos Dias. Preto e branco, heróis com maxilares quadrados e a morte coreografada. Um balé de idiotas. E então aparece a cena. O paraquedista pendurado na igreja. Red Buttons fazendo cara de pânico. Hollywood. Uma mentira bonita, bem embalada.
A verdade é sempre mais suja. Mais fedida.
Eu desligo a TV. Conheço a história de verdade. A história de John Steele. E não tem nada de bonito nela.

Pensa comigo. Você é um Zé Ninguém de Metropolis, Illinois. Um cara que, em tempos de paz, provavelmente estaria consertando cercas ou bebendo cerveja barata num bar de beira de estrada. Mas a roleta do mundo girou e, opa!, agora você é um paraquedista da 82ª Divisão Aerotransportada. Um fodido anjo da morte com uma arma na mão e o coração na boca.
6 de junho de 1944. Madrugada.
O interior do C-47 é um inferno de metal e vômito. O cheiro de suor azedo, medo e combustível se mistura numa porra de perfume único. Homens rezando baixo, outros fazendo piadas que não têm graça alguma. É o riso dos condenados, sabe? John olha pela janela, mas não tem janela. Só a escuridão lá fora e a luz vermelha aqui dentro, pintando todo mundo de diabo.
“…ele não pensava em glória. Quem pensa em glória numa hora dessas é um imbecil ou um mentiroso.”
Luz verde.
O grito. O empurrão. O caos.
Steele salta. O vento é um soco no rosto. Por um segundo, um silêncio quase divino. Só o som do ar cortando. Mas dura pouco. Logo abaixo, a cidadezinha francesa de Sainte-Mère-Église não é um alvo. É uma fogueira.
Uma casa está em chamas, iluminando a praça como um palco doentio. E os paraquedistas, caindo do céu com seus panos brancos, viram os alvos mais fáceis do mundo. Patos num parque de diversões alemão.
Puta que pariu.
Ele ouve os gritos. O som inconfundível de uma MG 42 — a serra elétrica de Hitler — rasgando carne e lona. Ele vê silhuetas de amigos balançando mortas em seus arreios, descendo já sem vida. É um matadouro aéreo.
E ele está caindo direto no meio.
O chão se aproxima rápido demais. Ele tenta manobrar, puxar os tirantes, mas o destino é um filho da puta com um senso de humor macabro. Em vez da terra prometida ou de um telhado qualquer, ele sente o tranco. Um solavanco violento que quase parte sua espinha.

Silêncio.
Ele abre os olhos. E está pendurado. O paraquedas, seu anjo da guarda de seda, o traiu. Prendeu-se numa gárgula ou sei lá que porra de pedra no topo da torre da igreja.
Lá embaixo, o inferno continua. Ele tem uma visão privilegiada da carnificina. Vê seus companheiros, homens com quem dividiu cigarro e medo horas antes, sendo caçados como ratos na praça iluminada. Vê um soldado alemão acabando com um americano ferido com um tiro na nuca. Frio. Metódico.
A dor vem em seguida. Uma pontada aguda no pé. Merda. Ele foi atingido na descida. Nada grave, mas dói como o diabo.
Estou fodido. Completamente e irremediavelmente fodido.
Um soldado alemão olha para cima. Vê o corpo de Steele balançando suavemente com o vento. Aponta. Grita algo em sua língua gutural. Outros olham.
A mente de Steele entra em curto-circuito. Acabou. Vão usá-lo como alvo de treino. Vão enchê-lo de buracos por pura diversão.
E então, o instinto. Aquele bicho primitivo que vive no fundo do nosso cérebro, a única coisa que realmente importa quando a merda bate no ventilador.
Fique morto.
A voz não foi um pensamento. Foi um comando.
Mortos não se mexem. Mortos não respiram. Mortos não sentem o pé sangrando. Relaxe o corpo, seu merda. Deixe a cabeça pender. Isso. Como um saco de batatas. Um bom e velho saco de batatas americano furado.
Ele obedece. Solta cada músculo. Deixa o corpo mole, um boneco de pano quebrado. Os alemães lá embaixo observam por mais um instante. Talvez tenham dado de ombros. Mais um fallschirmjäger americano morto. Grande coisa. Eles voltam para a caçada.
E John Steele fica ali. Um pêndulo humano no relógio da morte.
As horas se arrastam como lesmas. Cada segundo é uma eternidade. Ele ouve tudo. Os gritos diminuem, substituídos por gemidos. O fogo crepita. As ordens em alemão ecoam na praça. Ele não ousa abrir os olhos. Apenas sente. O frio da pedra da igreja nas costas. O vento gélido. O cheiro de fumaça e morte que sobe da aldeia.
Quem nunca se pegou pensando nisso? O que você faria? Você aguentaria? Provavelmente não. Eu também não. A gente gosta de se imaginar como herói, mas no frigir dos ovos, a maioria de nós é só… carne. E carne tem medo.
Duas horas. Duas horas fingindo ser um cadáver enquanto a guerra ruge sob seus pés. Ele não pensou na namorada, na mãe ou na torta de maçã. Ele pensou em uma única coisa: não se mexa. Não respire. Não viva.
Até que, finalmente, a farsa acaba. Um alemão mais atento — ou talvez só mais entediado — percebe que o “cadáver” ainda está quente. Eles o descem. Com brutalidade, claro. Arrastado pela praça, o pé ferido gritando, ele se torna um prisioneiro de guerra.
O fim da linha? Quase. Mas a sorte, aquela vadia inconstante, ainda não tinha terminado com ele.
Num momento de distração dos seus captores, ele vê uma brecha. E corre. Ou melhor, se arrasta, manca, impulsionado por puro desespero. Consegue escapar. Se esconde, rasteja por dias, até finalmente encontrar sua unidade, ou o que sobrou dela.

Ele sobreviveu à guerra. Voltou para casa. Virou um Zé Ninguém de novo. Trabalhos comuns. Uma vida banal. Como se o universo quisesse provar que aquele momento de insanidade na torre da igreja foi só isso — um momento. Um soluço na rotina cósmica.
E então, o câncer. Na garganta. A ironia final. O homem que sobreviveu fingindo silêncio, morto pela doença que o calaria para sempre. Morreu em 1969, aos 56 anos. Sem glória, sem desfile. Só mais um número na estatística.
Hoje, tem um boneco pendurado lá em Sainte-Mère-Église. Um manequim com um paraquedas, para os turistas tirarem fotos. Uma homenagem.
Eu olho para o copo de uísque na minha mão. O gelo derreteu. Uma homenagem… a quê? À coragem? Talvez. Ao instinto de sobrevivência? Com certeza.
Mas pra mim, aquele boneco é um monumento ao absurdo. Um lembrete de que, no grande esquema das coisas, somos todos paraquedistas caindo numa zona de pouso em chamas. Alguns são abatidos no ar, outros chegam ao chão e lutam. E alguns, os mais estranhos, ficam pendurados num lugar improvável, entre o céu e o inferno, fingindo-se de mortos para poderem viver mais um pouco.
No fim das contas, não é isso que todos nós fazemos, de um jeito ou de outro?
É, acho que vou beber mais uma. À saúde fodida de John Steele. O homem que virou pêndulo e enganou a morte por um par de horas.

