A Ressaca do Glitter e o Camarote

A Ressaca do Glitter e o Camarote

A bateria da Mangueira ainda ecoava no meu esterno, mas o que me chamou a atenção não foi o brilho das alegorias. Foi o colapso.

Estávamos no “Nosso Camarote”. Sabe como é, né? O lugar é um dos poucos que ainda preserva aquele luxo obsceno dos eventos VIPs da monarquia do Rio de Janeiro. É um “cercado” cheio de privilégios onde o champanhe nunca para de borbulhar. Mas a verdadeira jogada é que lá você está no nível da apoteose. É um dos raros pontos onde não há abismo entre você e o desfile. Os carros alegóricos passam na distância de um braço estendido; você sente o deslocamento de ar das esculturas gigantes e o cheiro de suor e maquiagem das alas, como se estivesse desfilando sem precisar dar um passo. É uma experiência imersiva para quem quer sentir o cheiro do povo sem ter que pisar no mesmo chão que ele.

No canto do camarote, perto do buffet de lagosta que ninguém comia por medo de borrar o batom, meu amigo estava tendo um troço.

Não era um infarto. Era pior. Era a realidade furando a bolha.

— Ela me bloqueou, Robert. No meio do desfile da Viradouro — ele balbuciou, os olhos injetados como se tivesse passado a noite cheirando pó de giz.

Eu olhei para ele. O cara era um tubarão do mercado financeiro, tipo um vilão de filme do Gordon Gekko, mas ali, com um colar de havaiana de plástico no pescoço, ele parecia um filhote de cachorro abandonado na chuva.

— Bloqueou porque você é um chato, meu caro — eu disse, sem tirar o cigarro (apagado, por causa das normas, que piada) da boca. — O Carnaval serve pra gente esquecer quem a gente é, mas você levou seu ego pro sambódromo. É como levar um vibrador pra um convento. Não combina.

Ele me olhou com um ódio que durou dois segundos, antes de desmoronar num choro silencioso, abafado pelo samba-enredo sobre a resistência negra. A ironia era tão espessa que dava pra cortar com uma faca de pão. Ali, no conforto do ar-condicionado 18°C, um homem branco rico chorava porque o Wi-Fi do camarote permitiu que ele descobrisse que era corno em tempo real, enquanto lá fora, na avenida, um passista com uma fantasia pesando 30 quilos sorria com dentes de porcelana, escondendo a fome e o cansaço.

E a loira? Ah, a loira do meu lado já tinha achado outro “Robert”. Um tipo mais jovem, com mais dentes e menos cicatrizes mentais. Eu os vi se pegando perto do palco do show de funk. Foi uma cena digna de National Geographic: o acasalamento dos privilegiados.

Hum… me deu uma náusea súbita. Não do álcool, mas da simetria daquilo tudo.

A bateria da Mangueira não pediu licença; ela arrombou a porta da Sapucaí com o pé no peito. O som dos surdos de primeira era tão grave, tão ancestral, que eu sentia o uísque barato chacoalhar dentro do meu estômago. Era um paredão de som, uma força física que fazia o vidro do camarote — aquele aquário de gente pálida — tremer como se estivesse prestes a estilhaçar.

O que presenciei foi um rio de carne e cetim. Milhares de pessoas movidas por uma força que a psicologia jamais conseguiria explicar com seus termos limpos e obsessivos. Não era obsessão, era transe. A bandeira verde e rosa passava girando, e o movimento da porta-bandeira era tão preciso quanto o de uma lâmina de barbear num pescoço bem escanhoado.

As baianas pareciam dervixes rodopiando num mar de algodão doce e dignidade. Eu olhava para aquelas mulheres e via séculos de resistência embalados em saias rodadas. Enquanto isso, no camarote, um sujeito ao meu lado tentava filmar a cena com um iPhone de última geração, mas a mão dele tremia tanto que a única coisa que ele ia conseguir era um borrão de luz. O idiota não percebia que a vida estava acontecendo ali, a cinco metros dele, e ele estava tentando engarrafar o oceano num copo de plástico.

A harmonia da escola era um relógio suíço montado no meio de um terreiro. O canto era um grito de guerra, uma catarse coletiva que fazia os pelos do meu braço se arrepiarem — e olha que eu sou um desgraçado difícil de impressionar. Era visceral. Era como se a alma do Rio de Janeiro tivesse saído do bueiro, tomado um banho de purpurina e decidido que, por uma hora, a morte não tinha jurisdição sobre ninguém.

Foi nesse momento que o contraste me deu um tapa na cara. Olhei para a minha mão segurando aquela pulseira de nylon que me dava “acesso total”. Que piada. Eu tinha acesso ao buffet, ao ar-condicionado e ao silêncio dos covardes. Mas eu não tinha acesso àquela batida. Eu estava fora da frequência.

Saí da área externa do camarote. Foda-se o VIP.

Fui para a área de serviço, onde os garçons descansavam. O cheiro ali era real: cigarro barato, desinfetante e o cansaço legítimo de quem ganha a vida servindo quem não tem vida. Um dos garçons, um senhor com a cara do meu avô se ele tivesse bebido mais querosene, me ofereceu um gole de uma garrafa de plástico.

— Cachaça da boa, patrão? — ele perguntou, com um brilho no olho que nenhum convidado lá dentro tinha.

Dei um gole. Queimou. Foi como se o próprio Thor desse um soco na minha garganta.

— Isso sim é Carnaval — murmurei.

Voltei pro desfile, mas dessa vez olhei pro meu próprio reflexo. Eu era o pior de todos. O observador cínico que despreza a festa, mas não consegue ir embora. Eu sou o cara que assiste ao acidente de carro em câmera lenta e anota a placa.

Lá fora, o dia começava a clarear. O céu do Rio estava ficando daquela cor de hematoma — roxo e alaranjado. A última escola passava, deixando um rastro de penas de pavão e garrafas de água vazias. O feitiço estava quebrando. Em duas horas, o terno de linho estaria vomitando num táxi e eu estaria procurando uma farmácia aberta pra comprar algo que calasse a voz na minha cabeça.

No fim das contas, Nelson Rodrigues estava certo: o ser humano é uma peça de teatro mal escrita, e o Carnaval é o único momento em que o diretor nos deixa improvisar a tragédia.

Eu já estava pronto para o abandono. Ia girar a chave e sumir antes que o sol revelasse todas as nossas rugas morais. Mas aí eu a vi.

Lá fora, na pista que agora era um cemitério de penas e latas amassadas, uma senhora caminhava. Devia ser da Velha Guarda — o garbo ainda estava lá, mas a estrutura… ah, a estrutura estava entregue ao cansaço. A fantasia branca e dourada, outrora imponente, ia se arrastando pelo chão como a cauda de um bicho ferido. Ela estava descalça, segurando as sandálias numa mão e a dignidade na outra. O rosto era um mapa de rugas e gliter barato.

Me debrucei no alambrado.

— Ei! Madrinha! — gritei, minha voz cortando o mormaço da manhã. — Ainda tem algum pingo de vida nesse corpo ou você já se entregou às baratas?

Ela parou. Olhou para o lado, para o luxo estéril do camarote, e caminhou até a divisa.

— Meu filho — a voz dela era um lixa fina —, eu desfilei em duas escolas. Tenho samba no pé, mas a minha garganta parece que engoliu a areia de Copacabana inteira.

— Espera aí. Não se mexe.

Sabe aquele instinto de quando o herói decide ignorar o roteiro e pular do prédio? Pois é. Voltei pro bar, ignorei o barman com cara de modelo e “sequestrei” uma garrafa lacrada de vodka russa. O meu amigo ainda soluçava num canto — patético como um vilão de desenho animado que perdeu o esconderijo.

Para o desespero do segurança do nosso camarote pulei o alambrado. Um salto desajeitado, o impacto do asfalto subindo pelos meus joelhos como um lembrete de que eu não tenho mais vinte anos. Mas eu estava lá. Na pista.

— Bebe — eu disse, entregando a garrafa.

Ela não fez cerimônia. Deu um gole que faria o Bukowski pedir arrego. Depois me passou a garrafa. Bebemos ali, no meio da Sapucaí deserta, como dois sobreviventes de um naufrágio que acabaram de encontrar uma ilha de gelo.

— Pra onde você vai nesse estado, mulher? — perguntei, sentindo o calor da vodka começar a brigar com a melancolia.

— Vou com as amigas pro enterrar dos ossos lá no morro. Samba da Mangueira. — Ela me olhou de cima a baixo, um sorriso de dentes de ouro iluminando o rosto cansado. — Você tem disposição de acompanhar uma senhora até o alto do morro, menino? Ou vai ficar aí chorando com os ricos?

Eu ri. Uma risada de verdade, daquelas que dói o estômago.

— Tô com um amigo lá em cima — apontei pro camarote —, o infeliz tá chorando porque a mulher deu um block nele. Um desperdício de oxigênio.

— E ele vem? — ela perguntou.

— Ele que se exploda. Vamos indo. Quando a gente chegar lá no alto, eu mando a localização pra ele. Se ele tiver culhão, ele aparece. Se não, morre no ar-condicionado.

Saímos caminhando. Ela, com sua fantasia arrastada; eu, com meu cinismo de estimação e uma garrafa de vodka pela metade.

No fim das contas, a vida é isso, sabe? Um porre mal curado. A gente passa o ano inteiro construindo muros e camarotes só pra descobrir que a única coisa que vale a pena é o momento em que a gente decide pular o alambrado. O Rio de Janeiro estava despertando, feio e lindo ao mesmo tempo. E enquanto subíamos em direção à Mangueira, eu só conseguia pensar que o inferno deve ser um camarote eterno, e o céu… o céu deve ser um samba de fundo de quintal, com cachaça ruim e alguém que saiba o seu nome sem precisar olhar na pulseira VIP.

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