Conto: “Cama, Mesa e Desespero: O Lado Tóxico do Amor no Rio”

Conto: “Cama, Mesa e Desespero: O Lado Tóxico do Amor no Rio”

O calor em Copacabana não é uma temperatura, é uma sentença de prisão. O ventilador de teto girava torto, fazendo um barulho de helicóptero em queda livre, enquanto eu observava a Helena passar café na cozinha minúscula. A calcinha de algodão desbotada, o suor na nuca… ela parecia uma pintura triste do Edward Hopper, só que com cheiro de óleo de soja e desilusão.

Vocês acham que o amor é aquela palhaçada que a Disney vende, né? Hum… tipo assim, violinos tocando e beijos na chuva. Mentira. Quem nunca se pegou pensando nisso que atire a primeira pedra. O amor, meus caros, é um pacto de mediocridade mútua. É você encontrar alguém que suporte os seus defeitos porque tem muito medo de morrer sozinho.

Eu olhava pra Helena e pensava naquela música velha do Roberto Carlos. “Você é minha doce amada, minha alegria, meu conto de fadas”. Bobagem. O Rei não sabia de nada. Eu não queria ser a cama e a mesa dela. Eu queria que ela fosse a minha cama, a minha mesa, o meu despertador e a minha conta de luz paga. Nossa relação era como a do Venom com o Eddie Brock nos quadrinhos da Marvel: eu era o parasita simbionte, um monte de gosma tóxica, e ela era o hospedeiro que me mantinha vivo enquanto eu lentamente drenava a energia vital dela.

— Fritou os ovos com a gema mole, como eu pedi? — perguntei, acendendo o primeiro cigarro do dia. Eram onze da manhã de um domingo.

Ela parou. O silêncio na cozinha ficou espesso, denso, quase dava pra cortar com uma faca de pão. A tensão mudou a pressão atmosférica do quarto. Sabe quando o ar fica pesado antes de uma tempestade? A respiração dela acelerou, o peito subindo e descendo, os nós dos dedos brancos apertando o cabo da frigideira com uma força letal. Uma gota de suor escorreu da têmpora dela, brilhando na luz amarelada da lâmpada nua, e pingou no chão de linóleo imundo. Foi um movimento milimétrico, visceral. Eu juro que vi o momento exato em que a sanidade dela rachou.

— Faça você os seus ovos, Robert — ela disse. A voz saiu baixa, perigosa. Nelson Rodrigues diria que toda mulher carrega uma assassina adormecida, esperando apenas a entonação errada do marido para acordar.

Ela largou a panela, foi até o armário e puxou uma mala velha. Começou a jogar roupas lá dentro. Blusas, sutiãs, uma escova de cabelo.

— O que é isso, Helena? Teatro de domingo? — Eu dei uma risada irônica, mas o meu estômago deu um nó. Não um nó de saudade, veja bem. Um nó de pânico real, fisiológico. Se ela fosse embora, quem ia negociar o aluguel com o Seu Valdir? Quem ia saber onde estavam as minhas pílulas pra pressão?

— Acabou. Eu tô secando do seu lado, Robert. Você me suga. Você não me ama, você me usa como um eletrodoméstico que não tem garantia!

Ela ia passar pela porta. Eu tinha três segundos para agir. Eu precisava de um ato heróico, um plot twist digno de um Oscar, uma manipulação tão perfeita que a deixaria paralisada. Fui até ela, segurei seus ombros (não muito forte, só o suficiente para o drama) e olhei bem no fundo dos olhos dela, marejados e cansados.

— Você acha que eu te uso? — sussurrei, rouco, quebrando a quarta parede da nossa própria desgraça. — Helena, eu sou um monstro. Eu sou um buraco negro. Mas você é a única coisa que me impede de devorar a mim mesmo. Se você sair por essa porta, eu não vou chorar… eu vou deixar de existir. Porque eu sou a doença e você é o meu único sintoma.

Eu não tava oferecendo amor. Eu tava oferecendo uma codependência tão doentia, tão egoísta, que soou como a declaração mais romântica que ela já ouviu em anos. O ser humano tem uma tara inexplicável por consertar coisas quebradas. E eu, no fim das contas, sou a maior sucata da cidade.

Ela chorou. Largou a mala. Me abraçou forte, sentindo o cheiro do meu cigarro e do meu fracasso. Eu acariciei o cabelo dela, sorrindo pro teto descascado.

O amor venceu, pensei. E, melhor ainda, o café não esfriou.

 

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