Conto: “O Cobrador de Sorrisos: Quando a Autoajuda Vira um Banho de Gasolina”

Conto: “O Cobrador de Sorrisos: Quando a Autoajuda Vira um Banho de Gasolina”

O cursor do Word pisca como uma ferida aberta. Eu odeio aquele brilho branco. Escrevo:

“O universo conspira a favor de quem vibra alto”.

Que frase de merda. Mas é isso que a Paula Sunshine — 2 milhões de seguidores, zero neurônios — quer. Ela me paga para eu ser a alma que ela não tem. Eu sou o Robert, o fantasma que digita “gratidão” enquanto pensa em suicídio ou num sanduíche de joelho no Centro.

Mas há três semanas, algo mudou. Eu cansei de ser invisível. Decidi injetar um pouco de realidade naquele esgoto de filtros e dentes brancos.

No post de segunda-feira, sobre “desapego”, eu escondi uma instrução técnica entre as linhas de autoajuda. Usei uma técnica de escrita que aprendi lendo manuais de interrogatório da CIA. Escrevi:

“Às vezes, desapegar significa deixar o fogo levar o que é sólido. O material é a prisão. Liberte-se na labareda”.

Ficou lindo. Quase poético. 150 mil curtidas em duas horas. O gado estava pronto para o abate.

— Você acha que eles entendem, leitor? — eu pergunto para a parede descascada do meu conjugado no Catete. — Não. Eles só sentem um comichão. Um desejo súbito de queimar o cartão de crédito ou a própria sala de estar.

Mas a história se complicou com um soco na porta. Literalmente.

Eu estava na terceira dose de um conhaque que parecia querosene quando a porta do meu apartamento quase veio abaixo. Não era a Paula Sunshine pedindo mais uma legenda sobre “luz interior”. Era um sujeito magro, com os olhos fundos e uma aura de desastre iminente. Ele segurava um galão de cinco litros de gasolina.

— Robert? — ele sibilou.

O nome dele era Flávio. Ele era um “top fan” da Paula.

O erro foi o uísque barato e aquela mania de grandeza que o álcool traz. Numa noite de terça, depois de derrubar meia garrafa de um Teachers paraguaio, eu respondi a um comentário do Flávio no perfil da Paula. Ele questionava o vazio de uma frase sobre ‘metas e foco’, e eu, querendo provar que era o mestre das marionetes, usei minha conta pessoal — aquela que tem meu nome real e a mesma foto de perfil do meu LinkedIn de ghostwriter. Foi tipo um Batman deixando o RG cair na cena do crime. O cara não era só um louco; era um obcecado com tempo livre e acesso ao Google. Ele cruzou os dados, achou meu endereço num portfólio antigo de redator e decidiu que o ‘profeta’ merecia uma visita presencial. Sabe como é, né? O peixe morre pela boca… ou pelo teclado.

— Eu fiz o que você mandou. Queimei o carro. Queimei os documentos. Mas ainda dói aqui dentro.

Ele apontava para o peito com uma mão trêmula enquanto a outra balançava o galão. O cheiro de combustível invadiu o quarto como um soco de Mike Tyson.

A dinâmica de ação mudou num estalo. Eu não era mais o observador cínico; eu era o alvo. Flávio avançou, chutando minha mesa. O notebook — meu único meio de sobrevivência — voou longe.

— Você disse que a purificação era o caminho! — ele gritou, derramando um rastro de gasolina pelo tapete imundo. — Vamos nos purificar juntos, mestre!

Eu pulei da cadeira. Minha mente trabalhava como um thriller do Tom Clancy: saída de emergência bloqueada pelo louco, arma disponível (uma garrafa de vidro quebrada), tempo estimado para a ignição: três segundos.

— Calma, Flávio! — eu disse, tentando usar minha voz de “coach de inteligência emocional” que eu tanto desprezava. — O fogo é uma metáfora, sabe? Tipo o Batman saindo da caverna. É simbólico!

— Símbolo é o caralho! — ele rugiu, tirando um isqueiro Zippo do bolso. O clique do metal ecoou como um tiro.

Eu não pensei. Avancei. Acertei o estômago dele com o ombro, uma tática suja que aprendi num bar em frente ao Jockey. O galão caiu, encharcando minhas calças. Rolamos pelo chão, entre os destroços de um teclado e o cheiro de morte iminente. Eu sentia a respiração quente dele, o hálito de quem só se alimentou de ódio e pílulas de foco.

Consegui imobilizar o pulso dele contra o chão. A chama do isqueiro estava a centímetros do rastro de gasolina.

— Você quer a verdade, Flávio? — eu gritei na cara dele, a ironia de Nelson Rodrigues borbulhando no meu sangue. — A verdade é que a Paula Sunshine nem sabe que você existe! Eu inventei tudo! Não tem luz, não tem universo, só tem eu e você num quarto fedendo a mijo e combustível!

Ele parou. O corpo dele amoleceu sob o meu. Os olhos dele, antes em chamas, agora pareciam duas poças de água suja. Ele começou a rir. Uma risada rouca, terrível.

— Eu sabia… — ele sussurrou. — Eu só queria que alguém admitisse que é tudo mentira.

O final foi seco. Sem abraços, sem redenção.

Eu tomei o isqueiro dele e o empurrei para fora. Ele saiu cambaleando pelo corredor, um homem livre de posses e de sanidade. Voltei para dentro, sentei no chão molhado de gasolina e peguei o notebook que, por algum milagre, ainda funcionava.

Abri o perfil da Paula. Ela tinha acabado de postar uma selfie num iate. Digitei a nova legenda:

“A vida é um sopro. Às vezes, um sopro de gás inflamável. Aproveite enquanto não vira cinza.”

Publiquei. Em um minuto, o primeiro comentário:

“Nossa, que profundo! Gratidão!”

Eu dei um gole no conhaque direto da garrafa. O ser humano é uma piada sem graça, mas eu sou o único que ainda sabe contar o final.

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