Match de Risco: Uma Noite de Chuva e Máscaras em Botafogo

Match de Risco: Uma Noite de Chuva e Máscaras em Botafogo

A chuva no Rio não cai, ela desaba como um castigo bíblico atrasado. Eu estava num desses bares de esquina em Botafogo onde o garçom te olha como se você devesse dinheiro ao pai dele. O Tinder é o cemitério da esperança, sabe? A gente desliza o dedo pra direita esperando um milagre, e acorda com uma ressaca de realidade. Hum… tipo assim, quem nunca achou que um match seria a salvação da lavoura e acabou sendo só mais um prego no caixão?

Eu já passei por algo parecido e aprendi que a curiosidade é o que mata o gato, mas o tédio é o que enterra o homem.

Ela chegou. Clarice. Ou qualquer nome que soasse como seda rasgada. Não parecia real — parecia ter saído de uma página amarelada do Raymond Chandler, mas com um iPhone na mão e um olhar que dizia que ela conhecia todos os meus pecados antes mesmo de eu cometê-los. Robert, meu caro, você é um amador, pensei. Eu sou o Homem de Ferro de ressaca e ela é a viúva negra com um plano de previdência privada para a minha alma.

— Você bebe como quem quer esquecer que existe — ela disse, sentando sem pedir licença. A voz dela era um veludo perigoso.

— E você fala como quem já decorou o roteiro do meu fracasso — respondi, tentando manter a crueza de quem já leu Bukowski demais e viveu de menos.

A gente começou aquele jogo. Uma queda de braço onde os músculos eram as palavras. Ela me analisava, dissecava minha insegurança como se fosse um entomologista diante de uma barata tonta. “Você quer ser amado ou quer ser punido, Robert?”. A pergunta ficou pairando entre nós, misturada ao cheiro de cigarro e maresia. Era pura psicologia de predador. Eu me sentia pequeno, um figurante num filme do Christopher Nolan, perdido em camadas de mentiras que eu mesmo ajudei a construir.

O deboche dela era uma obra de arte. Nelson Rodrigues teria orgulho daquela crueldade doméstica. Ela não queria meu corpo; ela queria ver minha espinha dobrar. E o pior? Eu estava adorando a humilhação. É a velha história: o ser humano é um bicho que lambe a bota que o chuta.

— Chega de teoria — eu disse, batendo o copo vazio no balcão. — Vamos ver se você é tão real quanto o seu sarcasmo.

Saímos. A chuva estava tão forte que as ruas de Botafogo pareciam canais de uma Veneza distópica e suja. Ela caminhava com uma elegância que desafiava a gravidade e o lodo, os saltos estalando no asfalto molhado como tiros de pequena caloria. Fomos em direção à orla, o vento soprando a maresia contra os prédios descascados. Eu esperava um convite, um quarto de hotel ou um beijo com gosto de gim, mas ela parou diante do muro baixo da praia, onde as ondas batiam com uma violência desnecessária.

— Você não lembra de nada, não é, Robert? — ela disse, a voz agora perdendo o veludo e ganhando o corte de uma navalha cega.

— Eu tento não lembrar nem do que comi no almoço, boneca. O passado é um cadáver que a gente esquece de enterrar.

Ela soltou uma risada seca. Tirou da bolsa um papel amassado, protegido por um plástico. Me entregou. Era uma foto de dez anos atrás. Um churrasco suburbano, cerveja de marca ruim e muita gente irrelevante. No centro, eu estava rindo, cercado por pessoas que eu tratei como móveis de segunda mão. Ao meu lado, uma mulher de ombros caídos que eu mal lembrava de ter conhecido.

— Quem é a baranga? — perguntei, com o meu cinismo habitual, tentando manter a pose.

— A “baranga”, como você chamava na frente de todo mundo, era minha irmã, Robert. — Ela chegou mais perto. — Você a destruiu com esse seu desprezo de quinta categoria. Ela morreu há dois anos. De solidão. Nunca mais se aproximou de ninguém depois do inferno psicológico que você proporcionou a ela. E eu prometi que faria você sentir o mesmo. Olhe para você agora. Cinquenta anos, sozinho, largado, bêbado na chuva, achando que uma mulher como eu realmente daria para você.

Eu olhei para a foto. Depois para ela. A chuva escorria pelo meu rosto e eu senti um tédio profundo. Que coisa cansativa é o drama dos outros. Dei um sorriso de canto, aquele que eu guardo para os cobradores e para as ex-mulheres.

— Ela morreu de quê? Solidão? — Soltei uma risada curta, sentindo a água gelada no pescoço. — Que falta de criatividade, Clarice. Ou seja lá qual for o seu nome. Sua irmã era um peso morto, e você é só uma nota de rodapé amarga. Se você gastou dez anos planejando esse teatrinho só pra tentar me quebrar… saiba que você não pode matar psicologicamente quem já está morto por dentro. O seu algoritmo de vingança é tão falho quanto o seu gosto para homens.

Ela esperava que eu caísse de joelhos. Esperava o choque, a lágrima, o “me perdoe”. Coitada. Eu sou o vilão da história de tanta gente que já perdi a conta dos créditos finais.

— Se não for puxar uma arma escondida de dentro de sua bolsa, vá para casa, boneca. Aproveite que a chuva esconde o seu choro. Eu tenho mais o que fazer.

Virei as costas antes que ela pudesse ensaiar outra frase de efeito. Deixei ela lá, com a foto na mão e um plano de vingança que não me tirou nem um fio de cabelo. Voltei para o bar de esquina, o único que ainda mantinha a porta entreaberta. O garçom, aquele com cara de poucos amigos, nem perguntou nada. Eu me sentei no banquinho de couro rachado e bati a mão no balcão.

— Um duplo. Sem gelo. E deixa a garrafa perto, porque a noite foi uma comédia de baixo orçamento.

O líquido âmbar desceu queimando, rasgando a garganta e colocando as coisas no lugar. No fim das contas, a gente nasce sozinho e morre sozinho, e quem tenta enfeitar isso com sentimentalismo só está perdendo tempo de bar. O uísque era honesto. Clarice era apenas um erro de processamento.

Virei o copo de uma vez. Se meu fígado sobreviver a essa garrafa, o próximo match que se dane.

 

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