Monte Castelo: Um Conto Visceral da FEB na Segunda Guerra
França. A porra de um esgoto a céu aberto com sotaque. O cheiro era o mesmo de toda cidade morrendo: mijo, vinho barato azedando na sarjeta e um medo espesso que colava no fundo da garganta.
Nas vielas, as pessoas eram baratas de casaco, se arrastando pelas sombras, fingindo que não estavam mortas por dentro. Eu via a verdade nos olhos fundos delas. Estavam só esperando a bala final. Como eu.
E era por isso que eu amaldiçoava tudo. Este país. Esta guerra. A porra da missão e o dia em que aceitei a merda toda. E, acima de tudo, eu amaldiçoava o nome daquele morro maldito, lá na Itália, um nome que já nascia com gosto de sangue e neve na boca:
Monte Castelo.

Lembrei do salto.
O plano era simples, na teoria: saltar depois da capital, se infiltrar e pegar pela manhã as ordens para Monte Castelo. Um mapa. Uma passagem secreta. Pra que os pracinhas brasileiros não morressem tentando subir aquele morro sob disparos alemães, virando carne moída na neve. Mas o plano, como sempre, foi pro caralho. O radar nos pegou. De repente, o inferno.
Um clarão laranja engoliu a janela e cada explosão da artilharia antiaérea lá fora era um soco de gigante na fuselagem. O metal gritava. Não era um som de rasgo, era um urro de agonia. A luz vermelha de alerta começou a piscar, pintando nossos rostos de um carmesim fantasmagórico a cada pulso. Um dos rapazes sentado na minha frente, um garoto de Minas que sonhava em ser padeiro, simplesmente se desfez numa névoa vermelha. Não houve grito, só um som úmido.
O cheiro. Cheiro de cordite, de ozônio, de metal superaquecido e o cheiro doce e enjoativo de sangue fresco no ar pressurizado. Gritos se misturavam ao rangido da carcaça moribunda do avião. A lata velha não chorava mais, ela estava morrendo. E nós dentro dela.
Saltei. Um empurrão. O ar me engoliu, um vácuo gelado. O paraquedas abriu com um tranco, rasgando o silêncio da noite. Baixo. Tão baixo que senti o vento chicotear meu rosto, como mil navalhas, o ar gelado me queimando os pulmões a cada respiração.
A aterrissagem foi um inferno. O chão veio rápido demais. O corpo ralou, a pele rasgada, a carne exposta, um filete de sangue quente escorrendo pela têmpora. O gosto de terra e sangue na boca. Olhei para cima. As luzes do avião, agora uma bola de fogo, despencavam do céu. Ouvi os gritos. Curtos. Abafados. Todos que saltaram foram mortos no ar.
O avião caiu, uma explosão surda no horizonte. E eu, um milagre, um erro, estava vivo. Um pedaço de carne que se recusava a morrer.
Que se dane, Robert. O que passou passou, você tem que continuar na missão! Gritei comigo mesmo.

Caminhei em direção ao bar. Um lugar sujo, com cheiro de fumaça e desespero. Queria ver o ambiente onde encontraria o espião no dia seguinte. Entrei no banheiro. Um cubículo imundo. Deixei uma pequena pistola Walther Model 9 atrás de um forro do teto de um boxe fechado. O forro estava amarelo, encardido, intocado há anos. Uma pequena esperança num mar de merda.
Na manhã seguinte, voltei ao bar. O lugar respirava a mesma melancolia de sempre, uma mistura de café barato e sonhos mortos. Pedi uma cerveja e esperei.
O contato não veio.
Em vez dele, a porta do bar se abriu e o murmúrio de conversas morreu, como se alguém tivesse cortado a energia. Não precisei olhar para saber. Aquele tipo de silêncio tem uniforme.
Eram três. O do meio, um oficial, impecável. As botas dele pareciam polidas com verniz e desprezo, limpas demais para aquele chão imundo. Os outros dois eram gorilas, o mesmo olhar vazio e eficiente de quem sabe quebrar ossos. Eles não entraram, eles ocuparam o espaço. O ar ficou mais denso. Os poucos frequentadores locais de repente acharam seus copos de bebida a coisa mais interessante do mundo.
O trio varreu o lugar com o olhar. Um scanner de carne e medo. E então os olhos do oficial, frios como o aço de uma baioneta, encontraram os meus. E pararam. Ele não sorriu. Ele não precisava.
Foi aí que a garganta secou.
O oficial, com um sorriso cínico, perguntou se eu conhecia o contato espião. Ele reforçou a palavra “conhecia” porque segundo ele, já não estava mais vivo. Neguei, usando todo o meu francês para dizer que era um escritor, que não sabia nada sobre espiões ou guerras. Ele falou que torturaram um paraquedista. Que ele entregou parte da missão. E que tinham certeza que o espião iria passar os planos para alguém ali, naquele bar, um brasileiro disfarçado. Planos que eles já tinham recuperado.
“Vamos ver se esse contato é você…” Ele me olhou de cima a baixo.
“A cor da pele e o sotaque. Detalhes que te entregaram.” Ele falou.
Ele pegou um revólver, um Smith & Wesson, e esvaziou o tambor no lixo. Pegou uma única bala do bolso. Colocou. Girou.
“Vamos brincar de roleta russa.”
Um dos soldados, um armário com uma pistola na cintura, sentou do meu lado. O outro, com uma metralhadora, foi para o balcão, atrás de nós. Vigiava. Mas se engraçou com uma garçonete francesa. Uma loira. Cabelos curtos, desgrenhados, como se tivesse acabado de sair da cama. O corpo bem cheinho, as curvas generosas, um convite ao pecado. Os lábios, vermelhos, carnudos, pareciam sussurrar promessas de prazer e esquecimento. Ele dividia a atenção entre mim e ela.
O oficial começou. Apontou a arma para a própria cabeça. Clique.
Um clique seco. Nada. Me passou o revólver…
“Sua vez.” Disse.
Não tinha escolha… Ele iria me obrigar a atirar em minha própria cabeça. Não tinha como reagir, eles eram 3 e naquela arma, só tinha uma munição no tambor. Coloquei-a na minha têmpora. Fechei os olhos. Puxei o gatilho.
Clique.
Nada. A bala não estava na posição. Sorte. Ou azar.
Passei o revólver para ele.
O oficial bebeu todo o copo de whisky que estava em cima da mesa de um só gole, colocou a arma novamente na cabeça e puxou o gatilho.
Clique. Nada.
O jogo da morte seguiu. A cada clique, um arrepio na espinha. A cada giro do tambor, a vida por um fio.
Chegou a sexta tentativa, a minha vez, eu sabia que era o fim.
Pela lógica, pela matemática da morte, a última tentativa era a minha. O soldado ao meu lado colocou a mão no fuzil, deixando de falar com a mulher. O outro pegou a pistola Luger e apontou para mim. O oficial sorriu.
“É a sua vez.”
Eu não tinha escolha. O desespero me sufocou, um nó na garganta, um grito mudo. A morte me encarava. Meu dedo, trêmulo, puxou o gatilho. Apertei bem os olhos, respirei fundo. Me despedi da vida.
Clique.
Mas não houve disparo! Um milagre. Ou uma piada cruel.
Eles riram. Os três. Uma risada seca, sem humor. Riram da minha cara. Riram da minha vida. O oficial mostrou a munição. Já tinha sido usada. Era uma piada de mal gosto.
Estava puto, sangue nos olhos, mas vi que era a minha oportunidade. Forcei a barriga e soltei um peido, um som nojento e asqueroso. O cheiro de ovo podre, carniça e esgoto se espalhou como uma nuvem tóxica. Até eu me assustei com minha capacidade de interditar um ambiente.
O oficial me deu uma coronhada e os alemães começaram a me xingar. “Brasileiro maldito!”, “Se cagou nas calças!”. O bar todo riu. Com lágrimas forçadas, pedi pra ir ao banheiro.

O oficial mandou um dos brutamontes me acompanhar. Rezei pra que o primeiro boxe estivesse livre, e quando entrei, estava. Sorte minha. Azar o deles.
Entrei. Fechei a porta. O forro do teto. Amarelo. Intocado. Estiquei a mão. O metal frio da Walther. Peguei a pistola, conferi o carregador.
Cheio. Uma bala já no cano, tinindo, pronta para ser usada e mais 6 no carregador…
Coloquei no fundo do bolso. Tinha que esperar o momento certo.
Quando voltei, o oficial já recarregava o revólver com uma bala – agora de verdade – que ele havia resgatado da lata de lixo.
“Brasileiro maldito, vamos continuar… Mas agora você vai brincar sozinho.”
O oficial sorriu. Ele girou o tambor do revólver e o fechou com um clique metálico.
Aquele som. Foi o estopim.
O mundo inteiro pareceu parar por uma fração de segundo. Vi o soldado no balcão, o olhar bovino perdido no decote da garçonete. Vi os lábios vermelhos dela. Senti o peso da Walther no meu bolso, um pedaço de metal frio prometendo calor.
Não havia mais plano. Não havia missão. Só havia o agora. O bicho acuado.
E o bicho ataca.
Num movimento só, meu corpo explodiu. A perna disparou como um pistão, afundando a bota no peito do alemão sentado ao meu lado. O som foi de osso quebrando e ar sendo expulso. Antes que ele atingisse o chão, a Walther já estava na minha mão, cuspindo fogo. O som dela no bar fechado era um trovão, um rasgo na realidade.
Dois tiros cravaram no peito do brutamontes do balcão. Ele estava prestes a reagir mas a metralhadora dele disparou contra a garçonete e contra sua própria cabeça, que explodiu como uma melancia, pintando a parede, as garrafas, parte do teto e o rosto assustado da garçonete.
O corpo dele caiu sobre ela, que não gritou. Apenas soltou um suspiro, um som de pneu furado. Danos colaterais. A palavra flutuou na minha mente, fria.
O outro alemão, aquele do chute, já se mexia no chão. A Walther cuspiu fogo mais quatro vezes na direção dele, uma tempestade de chumbo para garantir que ele não se levantaria. Um tiro abriu a boca dele num sorriso de sangue e dentes quebrados. O outro calou seu coração para sempre.
Foi quando o oficial reagiu. Desespero nos olhos. Ele apontou o Smith & Wesson para mim e puxou o gatilho. Clique. Nada. Outra vez. Clique. Pânico. Amador.
Mas a sorte é uma vadia traiçoeira. No meio dos cliques, o tambor encontrou a bala. O disparo soou quase patético. Senti uma picada de abelha gigante no ombro, perto do pescoço. Um choque quente.
Merda, fui atingido.
Por um segundo, pensei que ia cair ali mesmo, me afogar no meu próprio sangue junto com os outros.
Mas eu ainda tinha uma bala. A última. Mirei no centro da testa dele. Ele abriu a boca para dizer algo.
Não deixei.
A munição espatifou os ossos da testa dele, e aqueles grandes olhos verdes, em segundos, perderam o brilho e a vida. Foi um som úmido, nojento, como um melão caindo no chão. Ele despencou sem vida na mesa, como se fosse um bêbado que finalmente sucumbe ao álcool.
O bar era um pandemônio. Gritos, gente se jogando no chão. Mas para mim, tudo ficou em silêncio. Parei por um segundo. Olhei para a minha obra: sete disparos no alvo, três corpos em posições grotescas, uma vítima inocente. Uma natureza-morta do caralho.
Minha mão se abriu. A Walther caiu no chão com um baque seco.
Então eu me virei. E, sem pressa, caminhei para a porta, passando pelas pessoas encolhidas que se recusavam a olhar para mim, como se eu fosse o próprio Anjo da Morte caminhando entre eles.
Enquanto andava, a dor lancinante começou a ceder, a se transformar. Não era a dor de um buraco, mas o ardor de um rasgo. A bala tinha passado de raspão, cavando um sulco na minha pele. Um beijo do inferno.
Uma queimadura. Uma lembrança.
Do lado de fora, o ar frio da França me deu um tapa na cara.
A missão tinha ido pro caralho.
O contato, o mapa, tudo virou fumaça e sangue no chão de um bar imundo. E a ironia era essa, a piada final de Deus ou do diabo: eu fui enviado para encontrar um atalho, uma maneira de evitar que os nossos pracinhas virassem carne moída tentando subir Monte Castelo.
Agora, sem mapa e sem atalho, só restava um caminho. O da força bruta. O da morte certa.
Só me restava ir para aquele morro maldito e me juntar aos outros na fila do moedor de carne.
Veja a história em vídeo:
Referências:
- A Batalha de Monte Castelo: O objetivo da missão de Robert é um dos combates mais emblemáticos travados pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. A luta para tomar Monte Castelo das forças alemãs foi real, sangrenta e um marco da participação brasileira na guerra.
- Os “Pracinhas”: O termo que você usa para os soldados brasileiros, “pracinhas”, era como os membros da FEB eram popularmente conhecidos. A origem vem da expressão “sentar praça”, que significava se alistar no serviço militar.
- Pistola Walther Model 9: A arma compacta que Robert esconde no banheiro é um detalhe historicamente preciso. A Walther Model 9 foi uma pistola de bolso calibre 6.35mm, ideal para ser facilmente ocultada. Embora menos famosa que suas “irmãs” (PPK, P38), sua produção continuou até o fim da Segunda Guerra Mundial, tornando-a uma arma plausível para um agente ou soldado em uma missão secreta.
- Revólver Smith & Wesson Victory Model: O revólver do oficial alemão é um detalhe autêntico. O “Victory Model” foi uma versão simplificada do famoso revólver S&W Model 10, produzido em massa durante a guerra para as forças Aliadas através do programa Lend-Lease. Era comum que armas Aliadas fossem capturadas e reutilizadas por soldados alemães.

