O Apartamento que Gemia em Copacabana
O apartamento ficava na Barata Ribeiro, num daqueles prédios que parecem um dente podre na boca de um velho. O elevador pantográfico rangia como se estivesse sendo torturado, e o porteiro tinha olhos de quem já viu três suicídios e dois carnavais e não se importou com nenhum deles. O amigo do Robert, o Mendonça — um sujeito que carregava o fracasso no vinco da calça — tinha alugado aquele “studio” pelo preço de uma dose de uísque barato no botequim da esquina. Barato demais. No Rio, quando a esmola é demais, até o santo desconfia, sabe? Mas o Mendonça achou que tinha tirado a sorte grande. Pobre diabo.
Entrei lá com uma garrafa de whisky debaixo do braço. O lugar era um quadrado de concreto descascado, apertado como o traje do Batman no corpo do Adam West. E foi aí que eu ouvi.
Um som. Não era um estalo de madeira, nem o vizinho batendo um bife. Era um gemido. Baixo, rítmico, uma frequência que entrava direto no osso.
— Tá ouvindo essa merda? — perguntei, sentindo um calafrio que não era o ar-condicionado (que nem existia).
— É o encanamento, Robert. O prédio é de 1940, o cano deve estar com asma — o Mendonça disse, já virando o primeiro copo.
Eu já passei por algo parecido numa pensão no Estácio, mas lá o som era de ratos. Aqui era diferente. Parecia… humano. Mas um humano cansado. Me encostei na parede perto do banheiro. A alvenaria estava fria, mas parecia vibrar contra as minhas costas. Senti aquela fisgada na base do crânio, a mesma que um figurante que vai morrer em um filme de terror B sente quando sabe que tem algo de errado atrás da porta. As paredes estavam vivas? Se estivessem, deviam estar tão deprimidas quanto nós.
— Não é cano, Mendonça. O som é vocalizado. Tem alguém sofrendo aí dentro. Ou gozando há três dias seguidos.
— Ah, para com isso! É o vizinho, o seu Hermes. O velho deve estar com a TV ligada.
Bebemos. Uma, duas, quatro horas. A garrafa de vodca estava no fim e o sol de Copacabana batia na janela com a sutileza de um soco do Mike Tyson. O gemido continuava. Uuuuuuhhh… — um lamento metálico, constante, o som da própria alma do Rio de Janeiro saindo pelo ralo.
Eu estava naquela fase da bebedeira em que você vira um filósofo ou um demolidor. Mendonça optou por ser o filósofo chorão. Eu? Eu virei o detetive de hospício. Peguei um martelo de carne na cozinha minúscula — Deus sabe por que o Mendonça tinha aquilo — e comecei a bater na parede do corredor.
— Robert, você vai me fazer ser expulso, seu animal! — o Mendonça gritou, mas ele estava bêbado demais para se levantar.
Ploft. Ploft. O som era oco. Um oco falso, como as promessas de campanha ou o amor das strippers da Vila Mimosa. Acertei o gesso com toda a raiva que eu sentia pelo aluguel caro e pela falta de gelo. A parede cedeu. Não saiu sangue, não saiu ectoplasma.
O que saiu foi poeira e o cheiro de rádio velho.
Mendonça se arrastou até lá. Enfiamos a lanterna do celular no buraco. Entre a parede real e o drywall improvisado, havia um nicho. Lá dentro, uma prateleira de metal com dois gravadores de rolo enormes, de fabricação alemã, e um emaranhado de cabos que pareciam veias negras. As bobinas giravam. Bem devagar. Creck-creck-creck…
O gemido vinha dali. Era o som da fita magnética roçando no cabeçote gasto, amplificado por um alto-falante escondido que servia para o operador ouvir o que captava.
— É da época da ditadura… — o Mendonça sussurrou, a voz sumindo. — Escuta de algum coronel que morava aqui.
Robert aproximou o ouvido. Não havia vozes. Não havia planos subversivos ou fofocas de alcova. Apenas o silêncio de um apartamento vazio gravado por 40 anos. O sistema estava ligado na fiação do prédio, um zumbi tecnológico se alimentando de energia roubada, registrando décadas de poeira caindo e o som do mar ao longe.
Olhei para o Mendonça. O rosto dele estava cinza. A ironia era tão cortante quanto uma lâmina de barbear: o medo dele era que o apartamento fosse mal-assombrado por fantasmas, mas o horror era que ele estava sendo vigiado por ninguém. Um sistema de opressão que esqueceu de morrer, gravando o nada absoluto.
— Sabe o que é pior? — eu disse, pegando o último gole de whisky barato morno. — A fita acabou faz tempo. O motor continua girando o vazio.
Mendonça olhou para o buraco na parede como quem olha para a própria cova.
— A gente desliga? — ele perguntou.
— Deixa o bicho gemer, Mendonça. É a única coisa nesse bairro que ainda tem a decência de reclamar da vida.


