O Degrau

O Degrau

Robert era um fantasma. Um fantasma que bebia cachaça barata num boteco da Zona Sul e assombrava as ruas de Copacabana com o peso de um passado que já não pagava suas contas. Antigamente, seu nome era sussurrado com uma mistura de medo & respeito. Dono de banca de bicho, agiota, um homem que resolvia problemas. Agora? Agora ele era só a mobília velha do bar, esperando o cupim do tempo terminar o serviço.

Copacabana já não era a mesma. Nem ele. As putas tinham mais plástico que alma, e os gringos fotografavam a própria decadência achando que era charme tropical. Patético. Robert tomou mais um gole. O álcool queimou, uma sensação familiar, talvez a única que ainda o fizesse se sentir vivo.

Mas ele não era o único fantasma no local…

Lorena.

Ela limpava o balcão com uma lentidão que era quase um insulto. Tinha uns dezenove, vinte anos, no máximo. Um rascunho de anjo que o diabo estava terminando de desenhar. Tinha o inferno inteiro no fundo daqueles olhos, um abismo disfarçado de menina. Sabe? Aquele tipo de olhar que grita “me tira daqui, mas me leva pra um inferno mais interessante”. Robert sentiu uma pontada. Não era desejo. Era… arqueologia. Ele estava escavando as próprias ruínas naqueles olhos.

E, como toda ruína que se preze, ela vinha com um demônio particular. O nome dele era Davi. Namoradinho dela. Um playboyzinho metido a malandro, com camisa de time e um sorriso que não alcançava os olhos. Um moleque que achava que a vida era um filme do Tropa de Elite e ele era o Capitão Nascimento.

Numa noite qualquer, depois que o último bêbado foi varrido pra calçada, Davi sentou no banco ao lado de Robert. O cheiro de perfume barato e arrogância preencheu o ar.

“E aí, coroa. Fiquei sabendo que você era o cara.”

Robert só olhou. Nem piscou.

“Papo reto,” continuou o moleque, “Tô com uma parada na mão. Uma carga. A boa. Coisa fina. Mas os caras que tão comprando são… complicados. Precisava de uma cara de respeito do meu lado. Só pra impor, tá ligado?”

Meu cérebro, ou o que restava dele depois de tanto álcool, apitava como um alarme de carro velho. Furada. FURADA. Era óbvio. Uma armadilha de neon piscando em letras garrafais. Mas aí eu olhei pra Lorena, no canto do bar, roendo uma unha. E vi o mesmo desespero que eu sentia toda manhã ao encarar o espelho.

Que se foda.

“Quanto?” eu perguntei.

A história é sempre a mesma, não é? Um velho querendo se sentir jovem, um jovem querendo ser o que não é, e uma mulher no meio, sendo exatamente o que precisa ser para sobreviver.

O negócio era num apartamento no Leme. Vista pro mar. O tipo de lugar que te lembra o quão pobre você é. Davi suava, apesar do ar-condicionado. Eu estava calmo. A morte, pra mim, já era uma vizinha que pedia açúcar de vez em quando. Os compradores chegaram. Dois caras. Um gorila de terno e um magrelo com cara de rato. Não gostei. Eles não pareciam compradores. Pareciam… cobradores. Como o Batman chegando pra acertar as contas com um vilão de quinta.

O gorila abriu a mala que Davi trouxe. Cheirou o pó. Sorriu. Um sorriso que não era um sorriso. Era um obituário.

“Bonito. Onde você achou a nossa mercadoria, Davi?”

O ar gelou. O playboy empalideceu, virou uma estátua de cera derretendo. Começou a gaguejar. Uma desculpa esfarrapada sobre um rolo, um contato… Bla, bla, bla. Patético.

O som foi seco. Um estalo. Como um galho quebrando num filme de terror. O magrelo tinha uma arma na mão, com um silenciador que parecia um brócolis na ponta. Um buraco vermelho se abriu na testa de Davi. Ele caiu pra trás, derrubando uma mesinha de vidro. Fim do Capitão Nascimento.

Minha mão, tremendo um pouco por causa do álcool, mas firme pela raiva, mergulhou por dentro do casaco. O movimento foi lento, quase patético, mas o resultado foi um clique metálico que mudou a música do ambiente. Puxei a minha velha Glock. Enferrujada nas bordas, pesada como um tijolo, uma relíquia dos tempos em que meu nome ainda significava alguma coisa. Apontei para a cabeça do gorila. O magrelo com cara de rato, do outro lado da sala, já estava com a sua arma apontada pra mim. E o gorila, por sua vez, não se moveu, apenas levantou a arma que matou Davi e a apontou para o meu peito.

O gorila falou. “E ai, vovô? Veio morrer junto com esse merda?”

Eu ri. Uma risada rouca, de cigarro e fracasso.

“Eu já morri há muito tempo, seu merda. Só esqueceram de me enterrar.”

Silêncio.

Um impasse mexicano. Três imbecis numa sala com vista pro mar, prontos para se mandarem para o inferno. Lindo. Uma cena de final de filme de Quentin Tarantino. Faltou só a música do Ennio Morricone. Eu podia sentir o suor escorrendo pela minha testa. Meu dedo no gatilho. O deles também. Ninguém respirava. Quem piscasse primeiro, morria. E o problema é que eu estava velho, bêbado, e precisava piscar.

Foi quando a porta se abriu.

Click.

O som suave da maçaneta foi uma granada explodindo no silêncio. Por um milésimo de segundo, a atenção do gorila se desviou. Os olhos dele saíram da minha mira e focaram na entrada.

Era Lorena, com a bolsa a tiracolo, olhando a cena com um tédio que era o maior dos insultos.

Aquele milésimo de segundo foi tudo que eles precisaram.

O magrelo não atirou. Ele se moveu. Rápido como uma serpente. O cano da arma dele acertou meu pulso com a força de uma marreta. A Glock voou da minha mão, quicando no piso caro. A dor foi um choque elétrico que subiu pelo meu braço. Antes que eu pudesse reagir, o gorila estava em cima de mim.

Não eram socos. Era demolição.

O apartamento ficou pequeno demais. O cheiro de pólvora, sangue e perfume caro se misturaram numa colônia da morte. O gorila veio pra cima de mim. Lento, confiante. Um urso encurralando um coelho velho. Eu sabia que não tinha chance. Era a matemática da vida. Força vs. Ferrugem. O primeiro golpe quebrou minhas costelas. O segundo afundou meu rosto. Caí de joelhos, o mundo girando. A bota dele acertou minha cabeça. Flash branco. Escuridão. Senti o gosto do meu próprio sangue e de dentes quebrados. Eles me chutavam no chão, uma carcaça inútil, o som das pancadas ecoando no apartamento de luxo.

Mas aí, algo aconteceu.

“Espera.” A voz era de Lorena.  Estava parada perto da porta, com a bolsa a tiracolo. Os olhos dela não tinham medo. Tinham… tédio.

O gorila parou. Olhou pra ela. E sorriu. De novo aquele sorriso de cemitério.

“Resolveu falar, princesa. Pensei que ia deixar a gente se divertir um pouco mais com o seu velho.”

Meu mundo parou. As engrenagens enferrujadas do meu cérebro tentaram processar aquilo. Seu velho?

O magrelo se aproximou dela, deu um beijo rápido. “Bom trabalho, amor. O otário do Davi caiu direitinho.”

Lorena deu de ombros, olhando para o corpo do namorado no chão como quem olha para um prato sujo.

“Ele era um idiota. Um problema. Precisava ser… descartado.” Depois, os olhos dela pousaram em mim. Frios. Calculistas. Como os de um cientista olhando para uma cobaia.

“E ele?” ela perguntou, apontando o queixo na minha direção. “Era a peça que faltava. O otário com complexo de herói. O álibi perfeito. Ninguém ia desconfiar de uma garota assustada sendo protegida por um dinossauro.”

A verdade me atingiu como um soco no estômago. Um gancho de direita que me nocauteou sem nem tocar na minha pele. Eu não era o cavaleiro de armadura enferrujada. Eu era o escudo. A isca. A porra do cordeiro sacrificial.

O gorila riu, uma risada que parecia um trovão. “Pode deixar, princesa. O vovô aqui já vai dormir.”

Eu estava apagando quando ouvi um toque de celular. Um funk. A violência parou. O gorila tirou a bota de cima do meu peito para que o magrelo pudesse atender.

“Fala,” disse o magrelo, ofegante, tentando controlar a respiração. Ele ouviu por um instante, o rosto se contorcendo. “Como assim, ‘deu ruim’? Explica essa porra direito, Leco.”

Ele fez uma pausa, e do chão, através de um olho inchado, eu podia ver a cor sumindo do seu rosto. Ele parecia um fantasma.

“Não… Não fode… Eles quem?” Ele se afastou, andando de um lado para o outro no apartamento, quase tropeçando no corpo de Davi. “Os caras do Vidigal? Como caralhos eles descobriram? A gente tava limpo!”

O gorila, que até então me olhava como um pedaço de carne, agora se virou para o comparsa, a expressão de predador substituída por uma de pura ansiedade.

“Foi o X-9 do Alemão,” continuou o magrelo ao telefone, a voz agora um sussurro de pânico. “Aquele filho da puta. Ele cantou a gente. Falou que a gente ia passar a carga pra frente aqui no Leme… Merda! Eles tão vindo pra cá? Quantos?… PUTA QUE PARIU!”

Ele desligou o celular e olhou para o gorila. O suor brilhava na testa dos dois. O clima de controle e poder tinha evaporado. No lugar, ficou o cheiro de medo.

“Deu merda, Beto. Deu a merda maior,” disse o magrelo. “O Leco falou que o bonde do Vidigal tá subindo. Alguém deu a letra que a gente tava aqui. Eles sabem que a carga que a gente roubou deles tá nesse prédio.”

O gorila, o monstro que segundos atrás brincava de quebrar meus ossos, agora parecia uma criança assustada. “Subindo como?”

“Com tudo! Armados até o dente, querendo o que é deles e a nossa cabeça de brinde. A gente tem cinco minutos pra sumir daqui. Cinco minutos ou a gente vira presunto junto com esses dois merdas aqui.”

O olhar do gorila passou do magrelo, para a porta, e finalmente caiu sobre mim, um saco de carne quebrada no chão. Por um segundo, eu vi a intenção nos olhos dele. Terminar o serviço. Um tiro rápido.

“Não dá tempo!”, gritou o magrelo, lendo o pensamento do parceiro. ” Deixa essa porra aí! Ele já tá morto, não tá vendo? Foda-se o velho! Vamo embora! AGORA!”

Eles nem olharam para trás. Apenas correram, o som de seus passos desesperados ecoando pelo apartamento. Ouvi a porta bater com uma força que fez as paredes tremerem.

E então, silêncio.

Um silêncio preenchido apenas pelo som da minha própria respiração, um chiado doloroso e patético. Minha vida foi salva pela burocracia do crime, por uma guerra de facções que não era minha. Eu era o dano colateral, esquecido na pressa de fugir de um problema maior.

Eles me deixaram ali, numa poça do meu próprio sangue, ao lado do corpo de Davi. Lixo descartado. A missão deles era apagar o playboy, e eu era só o dano colateral, um velho bêbado que não valia o preço de uma bala. Ouvi, ou pensei ter ouvido, a porta se fechar. O som dos passos dela se afastando, decididos, indo em direção ao futuro dela. Um futuro construído sobre dois corpos. Um morto, o outro desejando estar.

Não sei quanto tempo passou. Minutos? Horas? Acordei com a sirene de uma ambulância ao longe, uma canção de ninar para a cidade que nunca dorme. Cada respiração era uma faca entrando e saindo do meu pulmão. Tentei me mover. Agonia. O sangue no chão já estava pegajoso. Consegui me arrastar, um verme patético, deixando um rastro de vergonha pelo piso caro.

Ninguém me viu sair. Ou se viram, não se importaram. No Rio, um velho fodido e ensanguentado é só parte da paisagem.

Cheguei no meu buraco em Copacabana quando o sol já nascia, pintando o céu com cores bonitas demais para um mundo tão feio. Olhei meu reflexo no espelho quebrado do banheiro. Um olho roxo, a boca cortada, o rosto inchado como o de um lutador que perdeu feio.

Eles não tinham me matado. Tinham feito pior.

Tinham me deixado vivo com a verdade. A verdade de que eu não era nada. Nem herói, nem vilão. Apenas uma ferramenta. Um degrau que ela pisou para subir.

Sobreviver, eu percebi ali, cuspindo um caco de dente na pia, era apenas uma sentença de morte mais longa.

A dor limpou a névoa do álcool. A humilhação cauterizou a ferida da velhice.

Eles tinham cometido um erro. Não era pra me deixar vivo.

Isso não vai ficar barato assim.

Vai ter volta.

A sobrevivência é a minha própria maldição.

 

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