O Macaco, o Playboy e o Blue Label
Acordei com o gosto de cabo de guarda-chuva na boca e uma certeza divina pulsando na têmpora esquerda. Tinha sonhado com macacos. Não qualquer macaco, veja bem. Eram chimpanzés de terno, fumando charutos cubanos e jogando pôquer no convés do Titanic.
Sonho é coisa séria. Freud explicaria como desejo reprimido de voltar pro útero; eu explico como o 17 na cabeça.
Joguei cinquenta pratas que eu não tinha no grupo do macaco. O dinheiro do aluguel, o dinheiro da comida, o dinheiro que eu deveria ter usado pra comprar dignidade. E deu. Deu macaco. O 17 brilhou no poste como um neon de puteiro barato. Eu estava rico. Ou, pelo menos, deixaria de ser pobre por uns três dias.
Vesti minha melhor camisa — a que tinha menos furos de cigarro — e desci para a Lapa. O calor do Rio não perdoa, sabe? É um bafo quente que te abraça e sussurra que você vai suar até a alma desidratar. Acendi um cigarro barato, daqueles que o filtro esquenta tanto que queima o beiço, e caminhei até o “Bar do Zé”, o ponto de coleta.
Só que, quando cheguei lá, o “Bar do Zé” não era mais do Zé.
O chão de cimento queimado tinha virado porcelanato. O cheiro de fritura velha e urina tinha sido substituído por… lavanda? E no lugar do Seu Tião — um velho gordo, suado, que cheirava a talco e conhaque Dreher — estava um sujeito que parecia ter saído de um comercial de whey protein.
Camisa polo justa estalando no bíceps, barba desenhada na régua, relógio dourado que gritava “comprei em Miami mas sou perigoso”. Era a nova gestão. A milícia gourmet.
— Pois não, cidadão? — ele disse. A voz não tinha cascalho. Tinha arrogância de quem fez curso de coaching.
Eu olhei pro balcão. Atrás dele, intocada, uma prateleira iluminada com leds azuis. E lá estava ela. Uma garrafa de Johnny Walker Blue Label. Um anjo engarrafado no meio daquele inferno asséptico.
— Vim buscar meu prêmio — falei, apoiando os cotovelos no balcão de mármore fake. — Deu macaco. Tenho um bilhete aqui que vale cinco mil.
O “Playboy”, vamos chamá-lo assim, sorriu. Foi um sorriso de tubarão que acabou de fazer clareamento dental.
— O ponto mudou de administração, tio. O Tião se aposentou. As regras agora são outras. Taxa de transição, entende? O sistema antigo… ele tinha muitas falhas de compliance.
Compliance.
O desgraçado usou a palavra “compliance” num ponto de jogo do bicho na Lapa.
Senti aquele clique na minha cabeça. Aquele momento em que você percebe que a pessoa na sua frente não é um ser humano, é um obstáculo biológico que precisa ser removido ou contornado. Eu olhei pra ele. Analisei os olhos. Pupilas levemente dilatadas.
Cocaína de qualidade média.
Ele estava nervoso, apesar dos músculos. A mão direita tamborilava perto da cintura, onde o volume quadrado denunciava uma Glock. Não um revólver 38 enferrujado, mas um polímero austríaco. Tático. Como um romance do Tom Clancy, só que ridículo.
— Entendo… — soltei a fumaça do meu cigarro na cara dele. Ele torceu o nariz (não gosta de fumaça, né, princesa?) — Mas veja bem, meu jovem. O Tião… ele não se aposentou.
Vocês sabem como é, a mentira tem que ser temperada com um detalhe verossímil.
— Como é? — O Playboy parou de tamborilar.
— O Tião é da velha guarda. Do tempo do Castor. — Inclinei o corpo pra frente, baixando o tom de voz. — Sabe por que ele deixou vocês assumirem? Porque ele precisava de “laranjas”. Hum… sabe o que tá rolando na Zona Oeste? Aquele expurgo?
A paranoia é uma ferramenta maravilhosa. Todo miliciano tem medo de dois entes: a Polícia Federal e um miliciano maior que ele.
— Do que você tá falando, Tio? — A mão dele foi pro cabo da Glock.
— Eu não sou seu Tio. Sou o contador. — Eu não era contador nem da minha própria vida, que estava no vermelho desde 1998. Mas ele não sabia. — O Tião me mandou vir aqui testar a segurança. E, sinceramente? Você tá falhando. Deixou um estranho entrar, não pediu senha, e ainda tá com essa cara de quem vai se cagar se o carro preto passar na porta.
Nesse exato momento, como se o Deus do Caos estivesse regendo a orquestra, um escapamento de moto estourou na rua. PA-POW!
A analogia aqui é simples: foi como jogar um Mentos numa Coca-Cola Diet dentro da mente do Playboy.
Os olhos dele arregalaram. Ele sacou a Glock, trêmulo, olhando para a porta, esperando o esquadrão da morte do Seu Tião (que provavelmente estava jogando dominó em Bangu e nem lembrava que esse bar existia).
— Quem tá aí?! — ele gritou, apontando a arma pro nada, suando frio, destruindo a imagem de macho alfa do Instagram.
Era a minha deixa. “O caos é uma escada”, já dizia aquele anão da série de dragões, mas para mim, o caos é um open bar.
Enquanto ele avançava para a porta, tremendo, tomado pela narrativa que eu plantei no cérebro de amendoim dele, eu não fui para o caixa. Dinheiro é papel. Papel queima, papel rastreia.
Eu estiquei o braço por cima do balcão. Meus dedos, calejados e amarelos de nicotina, envolveram o gargalo frio e pesado do Blue Label. Era pesado como um pecado bom.
Deslizei a garrafa para dentro da minha sacola de pano suja.
— Ei! Onde você vai? — o Playboy gritou, sem olhar pra trás, ainda mirando na rua vazia.
— Vou chamar o reforço! Segura a posição, garoto! O Tião vai ficar orgulhoso! — gritei de volta, já na calçada.
Caminhei rápido. Não corri. Correr atrai predadores. Caminhei com a dignidade de quem acabou de fechar um negócio multinacional. Dobrei a esquina, entrei num beco escuro que cheirava a mijo e realidade, e sentei no meio-fio.
Tirei a rolha. O cheiro… ah, meus amigos. Carvalho, mel, turfa e a lágrima de anjos escoceses.
Enquanto o líquido âmbar descia queimando, limpando a “gourmetização” da minha alma, eu pensei: no fim das contas, a vida é isso. Um bando de idiotas armados com medo de fantasmas, enquanto a gente tenta roubar um gole de felicidade no meio da confusão.
Acendi outro charuto, dessa vez imaginando que era um Cohiba, e brindei ao macaco. Aquele primata filho da puta nunca me decepcionou.
Como diria Nelson Rodrigues: “O dinheiro compra tudo, até o amor verdadeiro, mas não compra a classe de beber um Blue Label no meio-fio da Lapa sem ter pagado um centavo”.

Robert mete a mão no bolso, tira o bilhete premiado e o alisa contra o joelho. O macaco. O 17. Ainda estava ali. O aluguel continuaria atrasado, a luz seria cortada na terça, mas eu tinha o ouro líquido na mão esquerda e a promessa de cinco mil pratas na mão direita. Só precisava achar um bicheiro raiz, um que ainda usasse giz e não tivesse Instagram.
Ergui a garrafa para a lua pálida que tentava furar a poluição da Lapa.
— Saúde — sussurrei para ninguém. — Afinal de contas, ainda tenho o bilhete.

