Conto de Terror Carvalho & Corda
Sexta-feira. 18 de junho de 1993.
Merda de dia pra nascer, merda de dia pra morrer. Pra mim, era só mais uma sexta-feira fodida, o rabo de foguete de uma semana que se arrastava como um bêbado procurando o caminho de casa. Eu era Robert, recruta da Aeronáutica, 18 anos. Dezoito. A idade em que seu pau pensa por você & o cérebro só concorda. E meu pau estava pensando em Angra dos Reis. Belos lugares são só cenários diferentes pra mesma peça de merda, mas a gente sempre acha que dessa vez vai ser diferente. Idiotas.
Mas antes do paraíso fajuto, o purgatório real. Eram cinco da manhã no Depósito de Aeronáutica do Rio de Janeiro, o finado DARJ. Um cemitério de peças de avião e de almas jovens. Meu posto era o mais avançado, o cu do quartel, um lugar onde nem o diabo vinha dar boa noite. O sono me esmagava. Normal. A noite anterior tinha sido em claro no pagode do Tem Tudo, ali debaixo do viaduto de Madureira. Naquela época, Madureira era o inferno com trilha sonora. Hoje, claro, virou uma sede da Igreja Universal do Reino de Deus. O mundo sempre acha um jeito de ficar mais broxa, mas reconheço que muitas almas foram salvas da perdição da cachaça.
Eu estava no 220. Testosterona, ansiedade, a promessa de sol, mar e talvez uma boca nova pra beijar em Angra. A passagem já estava no bolso da farda. Nove e meia da manhã, cadeira 3. Eu só precisava sobreviver até as oito.
Na vida de caserna, a vida é uma fila. Você entra e ganha um número, tipo gado marcado. Os números mais baixos, dos mais velhos, são os “antigos”. E ser antigo, mesmo que por alguns meses, te dava o direito de escolher as migalhas menos nojentas, merda menos fedorenta. Por isso eu escolhi o horário das quatro às seis da madrugada para ocupar meu posto. O posto avançado tinha uma brecha no sistema, uma falha na Matrix Militar. O quartel do Exército, logo ao lado, rendia o posto deles às cinco. O nosso, por algum motivo estúpido que só um burocrata de farda entende, ficava no vácuo. Então, quem pegava o horário de 4 às 6, saía às 5h20. Uma hora e vinte de serviço. Quarenta minutos de vida roubados de volta do governo. Mais quarenta minutos de descanso. Um puta negócio.
Ainda lembro do apelido que dávamos a esse quarto de hora: “Thundera”. Sim, por causa daquele desenho idiota dos Thundercats. O sol nascia bem na sua cara, um holofote divino te cegando, te lembrando que você era só um bosta com um fuzil na mão. O Olho de Thundera, puta que pariu.
Ainda não tinha sol. Só um frio de cortar a alma e um vento que assobiava nas folhas do carvalho gigante em frente ao posto. Parecia um lamento, um som fantasmagórico saído da garganta da madrugada. A chuva recente tinha deixado tudo com cheiro de terra molhada e melancolia. Eu lutava pra ficar de pé, o corpo querendo se entregar ao chão. O sono era um animal pesado nas minhas costas.
E então, eu pisquei.
Foi uma piscada mais longa. Um mergulho rápido na escuridão. Tempo suficiente pra não ver a porra do rondante se aproximando. Acordei com um solavanco, o coração batendo na garganta como um passarinho preso. O vulto estava perto. Perto demais.
Pra disfarçar a merda, pra não me foder, fiz o que qualquer recruta faria. Berrei o procedimento, a voz saindo mais como um latido de um cão sarnento assustado.
— ALTO LÁ! AVANCE A SENHA!
Silêncio. A figura parou, a uns dez metros. A escuridão ainda engolia os detalhes.
Ele respondeu, a voz grave, arrastada, como se viesse do fundo de um poço.
— Carvalho.
Meu sangue gelou. Não. A senha era “Janela”. Eu tinha certeza. Era uma palavra simples, idiota, fácil de lembrar.
— Senha errada! — gritei, tentando injetar uma autoridade que eu não tinha. — AVANCE A SENHA!
— Carvalho!!! Está dormindo, militar?
A voz dele agora tinha um tom de desprezo. Ele se aproximou mais. Um sargento. Primeiro Sargento. As divisas no braço se destacavam fracas na luz do poste distante. Mas o rosto… o rosto era um borrão de sombras. Notei que suas botas, mesmo ali no escuro, brilhavam. Impecáveis. Que porra de maníaco engraxa a bota pra andar na lama?
O regulamento era claro: senha errada, rendição, procedimento de alerta. Mas eu tinha dormido. Ele estava perto. E se… e se eu tivesse esquecido? A mente prega peças, não é? Principalmente quando está encharcada de cansaço e cerveja barata.
— Qual é a senha e a contra-senha, soldado Robert? — a voz dele cortou meus pensamentos.
— É “Janela” e “chave”, senhor…
— Soldado Robert, você dormiu e esqueceu a senha! — ele disse, a voz agora um trovão baixo. — Pague dez flexões para mim. E quero que cante.
Flexões na lama. Maravilha. O frio do chão molhado subindo pelas minhas mãos.
— Fale junto comigo, recruta Robert. Uma flexão por palavra: EU. ESQUECI. QUE. A. SENHA. É. CARVALHO. E. CONTRASENHA. CORDA.
Meu cérebro travou. Carvalho? Corda? Que porra era aquela? Mas eu fiz. O corpo obedece, a mente se cala. O medo é um bom adestrador.
— Mais dez! — ele ordenou. — Cante de novo!
— EU. ESQUECI. QUE. A. SENHA. É. CARVALHO. E. CONTRASENHA. CORDA.
Terminei, os braços tremendo, o fôlego curto, o gosto de ferrugem na boca.
— Qual é a senha? — ele perguntou, parado sobre mim como um abutre.
— CARVALHO! — gritei.
— Qual é a contrassenha?
— CORDA!
— Soldado… — ele fez uma pausa. — São 5h20. Hora de você sair do posto. Mas você cometeu um erro. Um erro grave. Um erro que colocou toda a segurança do Quartel em Risco, você quase fudeu todo mundo aqui, você quase me fudeu seu maldito! Quero que vá correndo até aquele portão ali e volte. Em menos de 40 segundos.
— Agora, Sargento?
— Já deveria ter ido! VAI!
Corri. Corri como se minha vida dependesse disso. O ar gelado queimando os pulmões. O portão parecia a porra da linha do horizonte. Fui e voltei. Um minuto.
Ele balançou a cabeça em desaprovação, as sombras no rosto dele pareciam se aprofundar.
— Recruta Robert, você sabe quem eu sou?
— Não, senhor!
— Você nunca me viu aqui? Sou o Primeiro Sargento Almada. Por não conhecer os seus chefes que estão de serviço, pague mais dez flexões. Cante a nossa música.
— EU. ESQUECI. QUE. A. SENHA. É. CARVALHO. E. CONTRASENHA. CORDA.
— Recruta Robert, SENTADO! UM, DOIS!
Caí no chão, a bunda batendo na terra fria, e gritei o complemento: — TRÊS, QUATRO! INFANTARIA!
— Recruta Robert, DE PÉ! UM, DOIS!
Levantei num pulo. — TRÊS, QUATRO! INFANTARIA!
– SENTADO! UM, DOIS!
— TRÊS, QUATRO! INFANTARIA! Sentei mais uma vez, agora caindo por cima do fuzil. O grito saiu automático. Que se foda, eu era da Aeronáutica, mas na hora da dor, a gente grita qualquer merda que nos ensinaram a gritar. Absurdo.
— DE PÉ! UM, DOIS!
— TRÊS, QUATRO! INFANTARIA!
— Gostei. — ele disse, e eu senti um arrepio. Não era um elogio. — Agora corra para o portão e volte em 40 segundos ou vamos fazer tudo de novo.
Eu não sei quantas vezes eu corri. Perdi a conta das flexões. O mundo se resumiu àquele trecho de asfalto, ao som da minha respiração ofegante, à voz de comando dele e àquela cantiga idiota: Carvalho… Corda. O tempo se dissolveu. Virou uma pasta de dor, humilhação e frio. Era uma tortura. Pura e simples. Por volta das seis e vinte, quase uma hora depois do meu horário de saída, ele pareceu satisfeito.
— Recruta Robert, posição de sentido!
Estaquei, o corpo um amontoado de dores.
— Isso é para você aprender. — ele disse, a voz mais baixa, quase um sussurro. — A não dormir em serviço. E a não esquecer o nome dos seus chefes. Agora pode ir. Retraia para o comando.
Ele se virou e caminhou na direção do carvalho gigante. E simplesmente… desapareceu. Sumiu na escuridão sob a árvore. Como fumaça. Eu estava exausto demais pra processar aquilo. Só queria o fim.
Cheguei na guarda às 06h50. Um trapo humano. A faxina já tinha acabado, o cheiro de creolina no ar. Os outros soldados já tinham devolvido o armamento. Eu era o último. O Cabo de Dia, um moleque que se achava general, veio pra cima de mim.
— Soldado Robert, por que o atraso de quase meia hora? Se escondendo da faxina, seu merda?
— Não, cabo. O rondante me segurou no posto.
— Quem era o rondante?
— Primeiro Sargento Almada.
O cabo franziu a testa. — Almada? Não conheço. Você errou o nome, recruta? Não tem nenhum Sargento Almada no DARJ.
— Tenho certeza, cabo. Ele mesmo falou.
O cabo coçou o queixo e gritou para o outro lado da sala.
— Ô, Cabo Santos! O Robert aqui falou que o rondante que abordou ele se chamava Sargento Almada.
O Cabo Santos era um dos mais antigos ali. Um dinossauro. Ele virou pra mim e a cor sumiu do seu rosto. Ele ficou pálido como um fantasma.
— Impossível, recruta. O Primeiro Sargento Almada serviu aqui sim… em 1982. E nesse mesmo ano, ele amarrou uma CORDA no galho mais alto daquele CARVALHO ali da frente e se matou. Você tá de sacanagem com a gente!
Quando ele disse aquilo… Carvalho… Corda. As palavras ecoaram na minha cabeça. Não como uma senha. Mas como uma confissão. Um calafrio subiu pela minha espinha, um gelo que não vinha da madrugada. Fiquei sem ar. O mundo girou.
— Piada boa, Robert. — disse o Cabo de Dia, rindo. — Por isso, vai fazer a faxina da sala toda de novo. Sozinho.
Terminei tudo às 8h40. Entreguei o fuzil, o corpo doendo, a mente em frangalhos. Não tomei nem banho. Peguei minhas malas, entrei no primeiro ônibus 326 e fui direto pra Rodoviária Novo Rio. Desci do ônibus correndo, desesperado, e ainda tive a visão, como num filme em câmera lenta, do ônibus pra Angra saindo da plataforma. Pela janela da frente, eu podia ver. Cadeira 3. Vazia. Meu lugar. Perdido.
Voltei pra casa. Minha mãe me olhou como se eu fosse uma assombração. E talvez eu fosse. Eu estava cansado, revoltado, com sono e com um medo que eu nunca tinha sentido na vida. Um medo que roía por dentro. Que porra tinha acontecido? Eu vi um fantasma? Eu dormi e sonhei com uma história que algum idiota me contou? Era uma peça da minha equipe de serviço, uma brincadeira de extremo mau gosto? Eu não sabia. E a incerteza era a pior parte.
Só à noite, jogado no sofá, é que eu entendi.
Liguei a TV. Jornal Nacional. A voz de Cid Moreira, a voz de Deus anunciando o Apocalipse, preencheu a sala.
“…notícia do Rio de Janeiro. Um ônibus de viagem que ia para Angra dos Reis sofreu um grave acidente na Rodovia Rio-Santos. O veículo caiu de uma ribanceira. Há três mortos e oito feridos. Segundo a polícia rodoviária, os passageiros que estavam nas quatro primeiras cadeiras da frente sofreram o acidente fatal.”
Eu fiquei ali, paralisado. Cadeira 3. A minha cadeira. O fantasma do Sargento Almada… ele não me puniu. Ele não me torturou.
Ele me salvou.
E essa, talvez, seja a coisa mais assustadora de todas. Não é curioso? Quem porra vai te salvar na vida? Às vezes, é o demônio que você menos espera. No fim das contas, a gente nunca sabe se está fugindo do inferno ou correndo direto pra ele.

