O Bicho do Morro: Um Conto de Suspense na Tijuca
Vamos direto ao ponto: o trabalho é um câncer. Eu, Robert, estou há vinte e dois anos enfiado nesse uniforme cáqui fedendo a suor e desespero, fingindo que sou o guardião de alguma merda sagrada que chamam de Parque da Tijuca. Que piada. Eu guardo um mictório a céu aberto para turistas de sandália e playboys que correm para esculpir a bunda. Conheço cada som dessa porra. O clique de uma Canon na cara de um mico-estrela sarnento. O choro de um moleque gordo querendo um picolé. O farfalhar de um saco de Doritos. O som úmido e nojento de um casal se pegando rápido atrás de uma árvore, o cara gemendo como um porco no cio. Eu conheço os sons.
E naquela noite de LUA CHEIA, a sinfonia mudou.
Quase meia-noite, a hora dos fantasmas e dos fodidos. E eu sou os dois. O ar era uma sopa grossa e pegajosa, um caldo de terra molhada, jasmim podre e o cheiro adocicado da maconha que subia do inferno do Vidigal, ali do lado. A cidade lá embaixo, um vômito de luzes neon, um tumor maligno prometendo putas e um prato de feijão frio. Eu estava na trilha do Cachorro, um nome apropriado, me sentindo um vira-lata. Tinha um cantil de uísque barato no bolso do colete. O uísque era meu único amigo.
Ouvi os passos.
E não, não era um animal. Conheço o trote de uma capivara, o arrastar de uma jiboia. Isso era diferente. Era pesado. Metódico. Bípede. Um passo, depois o outro. Crunch. Crunch. Crunch. Como um cobrador de dívidas vindo buscar sua alma.
Parei. O coração, aquela puta velha e cansada, começou a bater na minha caixa torácica como um presidiário querendo fugir. A lanterna na minha mão tremia. O feixe de luz dançava entre as árvores como um fantasma epilético.
— Quem tá aí, porra? — Minha voz saiu como um arroto de bêbado. Fraca. Patética.
Os passos pararam.
E o silêncio que veio depois foi a coisa mais barulhenta que já ouvi. Um silêncio que tinha peso, que te empurrava, que te sufocava. Eu podia ouvir o sangue chiando nas minhas veias. Levei o cantil à boca e tomei um gole longo. O uísque queimou a garganta, um fogo bem-vindo no meio de todo aquele gelo.
Então veio o rosnado.
Não, rosnado é a palavra errada. Foi um som que veio das entranhas da terra. Um tremor baixo, gutural, que subiu pelas solas das minhas botas e sacudiu meus ossos. Era o som de algo antigo e muito, muito puto. Como se eu tivesse pisado no túmulo de um deus esquecido.
Apontei a lanterna na direção do som, meu cérebro de primata gritando para eu não fazer isso. Por um segundo, a luz refletiu em dois pontos. Dois olhos. Amarelos como mijo de bêbado, brilhando com uma inteligência fria e predatória. E eles estavam altos. Altos pra caralho.
A coisa que saiu da escuridão não deveria existir. Era um pesadelo que aprendeu a andar. Imagine pegar um lobo, esticá-lo até ele ter dois metros de altura, injetar anabolizantes até os músculos rasgarem a pele e depois dar a ele a postura arrogante de um homem. O pelo era uma massa escura e emaranhada de sujeira, folhas e sangue seco. Os ombros, largos como um armário.
Mas as mãos… Jesus Cristo, as mãos. Eram mãos de homem. Longas, com dedos nodosos e unhas que eram garras de dois centímetros, pretas e afiadas. Ele flexionou uma delas, e as garras rasparam o tronco de uma embaúba, arrancando lascas de madeira com a facilidade de quem rasga papel.
Meu corpo inteiro virou pedra. Sabe aquela cena em Tubarão, quando o chefe Brody vê o bicho pela primeira vez e diz “Vamos precisar de um barco maior”? Era isso. Eu ia precisar de uma vida nova. E não ia conseguir uma.
Ele parou a uns seis, cinco metros de distância. Longe o suficiente para um idiota pensar em correr, perto o suficiente para um fodido como eu saber que era inútil. Ele ergueu a cabeça. O focinho comprido se contorceu, provando o ar. A porra do bicho estava me cheirando dali mesmo, captando o fedor do meu suor azedo & do uísque barato que emanava dos meus poros. Dali, ele me estudou. E não era o olhar de um animal faminto encarando a janta. Não. Era algo pior, mais calculado. Era a curiosidade fria de um cientista doente sobre um inseto, observando cada espasmo de medo antes de esmagá-lo lentamente, só pelo prazer de ver as tripas vazarem.
Ele deu um passo. Lento. A terra tremeu.
Recuei. A mão foi para o coldre. Um Taurus .38. Seis balas. Contra aquilo, eu podia muito bem ter um estilingue.
A criatura abriu a boca. Uma caverna de dentes amarelados, como adagas. Um bafo de carniça e morte atingiu meu rosto, e meu estômago revirou. O uísque ameaçou voltar.
Ele deu outro passo.
Foi aí que a represa se rompeu. O medo virou uma raiva cega e suicida. A raiva de um homem encurralado pela vida, pelo trabalho de merda, pelo aluguel atrasado, pela solidão esmagadora. E agora, por essa abominação.
— FILHO DA PUTA!
Saquei o revólver. O primeiro tiro pegou no ombro dele. Fez um som molhado, thump. Ele cambaleou para trás, não de dor, mas de surpresa. Olhou para o buraco de onde escorria um sangue negro e espesso. E então ele olhou para mim. E aqueles olhos amarelos… eles se encheram de ódio.
Ele soltou um uivo. Um som que rasgou a noite, um som de dor e fúria que fez os macacos gritarem nas árvores e meu sangue virar gelo.
Ele veio pra cima.
Disparei de novo. E de novo. E de novo, até o cão do revólver clicar no vazio. Esvaziei o cilindro. Mas as balas, que deveriam estraçalhar um homem, eram inúteis contra ele, era como atirar em um tanque de guerra, o Superman sem a porra da cueca por cima da calça. Eu via os projéteis de chumbo se perderem naquele pelo grosso e sujo, arrancando tufos, fazendo não mais que arranhões superficiais. Era o mesmo dano que um galho de árvore faz no seu rosto quando você passa correndo pela floresta: irritante, uma ofensa. Mas a ofensa funcionava. O impacto de cada tiro inútil o fazia parar, quebrava seu ritmo, o forçava a dar um passo para trás, mais por incômodo do que por dor. E cada passo para trás me comprava mais um segundo de fôlego. Mais um segundo precioso de porra nenhuma. Mais alguns segundos dessa minha vida miserável.
Ele estava a dois metros de mim quando tropecei numa raiz e caí de costas. A cabeça bateu numa pedra. As luzes da cidade piscaram. O revólver voou da minha mão. Fim da linha.
A criatura parou em cima de mim. A sombra dela me engoliu. O cheiro de morte era insuportável. Ele levantou a mão com aquelas garras do tamanho de facas de bife. Eu fechei os olhos, esperando o golpe que me transformaria em carne moída.
Mas o golpe não veio.
Abri os olhos. Ele estava lá, parado, o peito arfando, o sangue negro escorrendo pelos arranhões que eu fiz. Ele olhou para o meu rosto patético, sujo de lama e lágrimas. E depois olhou para o meu cantil de uísque, que tinha caído ao meu lado.
Ele estendeu a mão. Não para me atacar. Para o cantil. Com um dedo com garra, ele o empurrou na minha direção.
Ficamos ali, nos olhando. O monstro ensanguentado e o homem quebrado.
Então, ele deu as costas. E simplesmente foi embora. Desapareceu na escuridão tão rápido quanto surgiu.

No dia seguinte, ninguém disse uma palavra. As cápsulas vazias estavam no chão. Havia sangue nas folhas. Mas ninguém perguntou. Meu chefe apenas me olhou com seus olhos de peixe morto e me mandou preencher um relatório sobre “atividade de caça ilegal”.
Eu não preenchi porra nenhuma.
Não o relatório de merda deles, pelo menos. Na minha mesa, ignorei a papelada e peguei outro formulário. Um amarelo, de papel vagabundo. Pedido de Demissão. Preenchi aquilo com a calma de um condenado. Foda-se o emprego, foda-se a floresta, foda-se tudo. Voltar para aquela mata? Nunca. Nem amarrado. Não havia dinheiro, não havia ameaça no mundo que me fizesse pisar naquele chão de novo, sentir aquele cheiro de morte no ar e reviver a certeza absoluta de que eu não era nada. Um inseto.

Agora, eu sento no meu cubículo de quarto e sala de merda em Copacabana, o uísque queimando a garganta. Não sou mais um zumbi de uniforme. Sou só um homem que sobreviveu à própria insignificância.
Mas eu nem preciso mais olhar para a mancha escura da floresta. A verdade é que a floresta vem até mim. Toda santa noite, quando eu fecho os olhos, eu volto pra lá. Sinto o cheiro da terra úmida, o frio na espinha, o peso daqueles olhos amarelos em cima de mim. O terror é fresco, novo, como se estivesse acontecendo de novo e de novo. Eu acordo gritando, encharcado de suor, o coração querendo rasgar o peito para fugir. Esse é o meu pacto silencioso. A minha maldição. O pesadelo recorrente que só para de doer quando a primeira dose de uísque barato queima a minha garganta.
Quem é o monstro? Ele, que sangra e protege seu território? Ou eu, que continuo enchendo o copo, esperando que a próxima dose finalmente apague tudo?
Às vezes, lá pela terceira ou quarta dose, quando a coragem de bêbado começa a borbulhar, a ideia me visita. Uma vontade fodida de pegar uma lanterna, descer até o asfalto e caminhar de volta pra lá. Entrar na boca do inferno de novo. Só pra acabar com isso. Ou ele termina o serviço e põe um fim nessa vida miserável, ou… sei lá. Talvez, só talvez, ele finalmente dê um puto de sentido pra ela.
Mas eu não vou. A coragem sempre acaba antes do uísque. Eu só fico aqui, olhando a garrafa suada na minha mão. Nós dois somos bestas enjauladas, sim. Mas a jaula dele tem árvores e terra. A minha é feita dos meus próprios ossos, e eu não posso fugir, não há escapatória para nenhum de nós.
Agora, me passe essa garrafa.


