O Abismo ri por último: Um Conto de Terror no Mar
O barco rasgava a porra do oceano como uma navalha. Um casco de fibra de vidro, preto, sem nome, com dois motores roncando como animais famintos. Uma máquina feita pra não existir, pra sumir no horizonte antes que qualquer radar da polícia costeira soubesse o que o atingiu. E a velocidade… ah, a velocidade era um soco de adrenalina no peito. A maresia batia no meu rosto, salgada e pura, lavando a ressaca, lavando os pecados. Cada gota era uma moeda de ouro. Eu estava feliz pra caralho. Um tipo de felicidade que só a antecipação de muita grana suja pode comprar.
Nós estávamos indo buscar o que era nosso. Uma operação de bandidos, simples assim. Sem uniformes, sem bandeiras, só um bando de ratos indo buscar um queijo afogado. Os outros mergulhadores, uns brutamontes com cara de quem come prego no café da manhã, me olhavam de soslaio. Aquela cara de quem reza pra você se foder só pra ficar com a sua parte.
“É aqui.”
A voz do capitão era um cascalho. O dedo dele bateu na tela do GPS no equipamento do barco. Um pingo de luz verde piscava, solitário, bem na beirada de uma mancha escura e profunda. Um abismo. Um precipício submerso. Rezei para qualquer deus bêbado que estivesse ouvindo:
“só não tenha caído lá dentro, por favor, só não tenha rolado pra dentro daquele buraco do inferno.”
Eu guardava aquela sequência de números como a chave privada para uma carteira de Bitcoin com mais grana do que Deus. Era a última localização do meu iPhone antes daquele filho da puta se apagar para sempre. Afundou com o barco, com os corpos, com a minha alma. Mas não antes de me mandar seu último suspiro digital. Um brinde a você Steve Jobs, seu Messias de gola rolê. Você nem imagina os usos da sua invenção.
Aquele pingo verde era o X no mapa. O ponto zero da porra toda. O local do meu renascimento, e por isso fiz questão de ser o primeiro a descer.
“Eu estava lá. Eu sei o cheiro daquele inferno. É instinto”, eu disse, cuspindo as palavras na noite anterior. A verdade? A verdade é que eu sabia exatamente onde cada maço de dinheiro estava, a localização de cada barra de ouro. Eu tinha o layout daquele tesouro gravado na porra da minha alma. E não confiava na minha própria sombra, quanto mais naqueles urubus.
Sombra, o chefe da operação de mergulho, um ex-militar com uma cicatriz que cortava a sobrancelha, me deu o último aviso. A alma dele tinha a cor de um hematoma.
“Uma hora de oxigênio”, ele disse, a voz grave como um motor. “Meia hora pra descer, meia hora pra subir. Não faça merda, Robert.”
Sorri por dentro da máscara. Um sorriso que eles nunca veriam.
“Não se preocupe, Sombra. A merda já foi feita. Há muito tempo. E eu sou um perito nela.”
Enquanto eu me jogava na água, o flashback me atingiu como um trago do pior destilado.

O barco anterior era uma beleza do inferno. Rápido como um raio, soberbo, cortando as ondas com a arrogância de quem manda na porra toda. Éramos 0ito. Uma irmandade de hienas, famintas e prontas para o abate. O plano era perfeito: drogas, dinheiro em espécie e algumas barras de ouro, tudo embrulhado hermeticamente. Seriam ancorados em um ponto cego da Baía de Guanabara, para que a facção Internacional, em um momento oportuno, viesse resgatar o tesouro.
Perfeito demais para ser real. A ganância e a testosterona, meus amigos, são uma gasolina barata que sempre explode na sua cara. A discussão começou por um olhar torto, uma palavra mal dita. Um fósforo aceso no paiol. E então… o caos. Não foi um bang isolado. Foi o inferno de balas estourando, ecos metálicos furando o ar. Facas brilharam, socos estalaram, corpos se chocaram em agressões mortais que fariam um gladiador chorar. Um inferno particular, como um filme ruim de faroeste onde todo mundo saca a arma ao mesmo tempo.
E no meio daquela dança macabra, a cagada final. KABOOM! Um idiota, em sua fúria cega, metralhou o tanque de combustível. A explosão foi um grito de morte do próprio navio. Fogo lambendo o convés, fumaça preta sufocando o ar. O cheiro de carne queimada misturado com diesel e desespero. E eu? No meio daquela ópera de idiotas, enquanto o caos virava a melodia principal, eu tive a minha epifania. Para sobreviver, era preciso ser o maior filho da puta na sala. E a sala estava afundando.
Eles correram para o interior, procurando coletes, extintores, qualquer merda que pudesse adiar o inevitável. Gritos, súplicas, maldições. E eu? Eu não senti nada. Absolutamente nada. Foi como trancar a porta de um banheiro sujo. Bati a escotilha com um baque surdo, o som do meu veredito final. Girei a trava, sentindo o metal ranger sob meus dedos. Eu era o Judas daquela Santa Ceia de merda, condenando-os a um batismo forçado.
Jorge não estava lá dentro, ele estava tentando apagar o fogo no motor, um heroísmo patético. Quando ele voltou, a fumaça subindo, a cara preta de fuligem, procurando ajuda, ele me viu. Me viu trancando a porra da escotilha, prendendo todos eles naquele caixão flutuante. Foi a última coisa que viu. Minha Taurus 9mm cuspiu fogo, descarreguei nela sem piedade, calando seus protestos de uma vez por todas. Boiando sozinho nos destroços, vendo os últimos sinais de vida deles se apagando como pequenas velas, afundando na escuridão, eu senti, por um segundo doentio, algo parecido com paz.

A água fria me trouxe de volta. O choque. O silêncio absoluto. A descida. A pressão nos ouvidos era um parafuso sendo girado por um deus sádico.
Quinze minutos.
Vinte minutos. O feixe da lanterna era a única coisa real.
Trinta e cinco minutos. A voz de Sombra era um eco distante e patético na minha cabeça. Meia hora pra voltar… Mas a ganância, ah, a ganância era o barman servindo a saideira, e você sempre aceita.
“Foda-se. Acelero na subida.”
E então eu o vi. A carcaça. Um deus morto no leito do oceano, perigosamente perto da borda do abismo. Vitória.
Nadei até aquela tumba de aço. Cada braçada era uma briga contra a água, uma gelatina fria e espessa que te empurrava de volta. Tudo em câmera lenta, um balé de merda no fundo do mundo. Cheguei na escotilha de carga. A mesma que eu tranquei na cara daqueles idiotas. Lembrei dos gritos deles, abafados. Patético. A trava estava dura, o mar tinha soldado a porra toda com ferrugem e sal. Fiz força, meus músculos gritando contra a pressão, o som da minha respiração na máscara como um animal enjaulado. Com um rangido de protesto, um grito de metal sendo torturado, a escotilha cedeu.
Entrei no compartimento, nadei até o cofre. O ouro, as drogas, a grana. Intactos. Comecei a rir, um som de bolhas de um louco.
Foi quando ouvi. Um murmúrio. Como a conversa num bar lotado, só que debaixo de 30 atmosferas de pressão.
Impossível. É a porra da pressão.
Abri a porta do gabinete e o meu cérebro parou de funcionar.
Eles estavam lá. Todos eles. Conversando. Respirando. A pele deles se desfazia em fiapos, como papel de seda molhado. Um peixinho saiu da órbita de um deles, olhou pra mim e voltou pra dentro. Jorge ainda estava com os buracos de meus disparos espalhados pelo corpo.
O Português virou a cabeça num ângulo impossível. Um sorriso se rasgou no que restava de seu rosto.
— Olha só. O nosso salvador.
Ele me agarrou. O toque era um frio que queimava.
— O Capitão quer trocar uma ideia com você.
Eles me arrastaram. E lá estava ele. Um esqueleto de uniforme, com o quepe torto no crânio. As órbitas vazias brilharam. A voz dele não veio pela água. Veio de dentro da minha cabeça.
— Robert… traidor… — o som era de ossos se esfregando. — Você trancou seus irmãos. Por ganância. A sua pena… é a prisão perpétua. Aqui. Conosco.
Ele começou a rir. Uma vibração silenciosa que fez a água tremer. E o meu grito se transformou numa torrente de bolhas, meu último sopro de vida fugindo para um céu que eu nunca mais veria.

Na superfície, a tensão podia ser cortada com uma faca.
Sombra olhou o cronômetro pela décima vez. Uma hora e quinze.
“Ele estourou o tempo”, rosnou para um dos brutamontes. “O sinal do rastreador dele… sumiu.”
A preocupação virou ação. Dois mergulhadores, os melhores depois de Sombra, equiparam-se às pressas e saltaram na água escura. O silêncio no barco era pesado, quebrado apenas pelo som das ondas e pelo chiado do rádio. Uma hora se passou. Nada. Os mergulhadores voltaram, os rostos pálidos por trás das máscaras.
“Não tem nada lá, chefe. Nadamos em círculos. Nem sinal dele, nem do barco afundado. A visibilidade é uma merda e do lado… tem aquele abismo. É como olhar pra dentro do nada.”
As horas seguintes foram um borrão de inutilidade. Outros mergulhos. Nada. O sol começou a cair, tingindo o céu de um laranja doentio.
“Recolhe tudo”, ordenou o capitão. “Ficar aqui à noite é pedir pra Guarda Costeira nos foder. A gente volta amanhã com a primeira luz.”

No dia seguinte, eles voltaram. O mar parecia calmo, indiferente. E, boiando a uns cem metros de distância, estava o corpo de Robert. Inchado, pálido, os olhos abertos para um céu que já não lhe pertencia.
Sombra, o perito da quadrilha, analisou o cadáver com um olhar clínico enquanto o içavam para o convés.
“Olha o estado dele. Descompressão violenta. Na pressa pra subir, o nitrogênio deve ter fervido no sangue dele. Com a crise neurológica de alta pressão, o cara deve ter visto o capeta em pessoa lá embaixo. Pirou, se debateu, se afogou. Morte de amador.”
Ele cuspiu no mar.
Não desistiram fácil. Retornaram ao ponto amaldiçoado no dia seguinte, e no outro, e no outro. Durante uma semana inteira, os mergulhadores de Sombra desceram, um a um, em ciclos exaustivos. Seus rostos, antes apenas rudes, agora exibiam o cansaço e uma frustração crescente, cada mergulho voltando com o mesmo vazio. O sonar varria o fundo, mas o sinal fantasma do barco havia sumido. Eles exploraram cada fenda, cada rocha, cada palmo daquele trecho de escuridão. Nada. Era como se o navio tivesse sido engolido por um buraco negro submarino.
A cada dia que passava, a esperança minguava. A decepção era um cheiro podre no ar. Até que, no final do sétimo dia, Sombra bateu a mão no painel do barco, a paciência esgotada.
“O barco deve ter deslizado pelo abismo”, rosnou ele, a voz tão gélida quanto a água. “Esqueçam. Não existe equipamento no mercado negro que puxe alguma coisa daquela fossa. Não para nós. Acabou. Vamos dar o fora daqui.”

Na superfície, o oceano se estendia como um lençol de seda azul-escuro, indiferente. Aquele trecho do mar da Baía de Guanabara, tão familiar aos olhos dos vivos, mantinha sua calma pré-histórica, um silêncio ancestral que parecia esconder os segredos de milhões de anos. O sol, lá em cima, beijava as ondas com um brilho dourado, ignorante da podridão que fervilhava abaixo. Era a paz enganosa do abismo, a tranquilidade antes da tempestade.
Mas muito abaixo, onde a luz não chegava, o azul se dissolvia em um negrume absoluto. E ainda mais fundo, além da borda do mundo conhecido, o fosso se abria. Um buraco negro líquido, engolindo qualquer resquício de luz ou esperança. E era lá, naquela escuridão que parecia ter existido antes do tempo, que o barco fantasma jazia.
Eles acham que eu estou morto. Acham que foi uma alucinação. Coitados. A ignorância deles é a última piada.
Mas a morte não é o fim. É a porra da danação eterna. É ser trancado numa sala de espelhos onde cada reflexo é a alma de quem você fodeu. Eu não vejo luz. Não vejo barcos. Eu só vejo a escuridão do porão e os rostos deles. E eles não falam. Eles não precisam. O julgamento deles é uma tortura silenciosa, um grito mudo que ecoa em cada órbita vazia, me perfurando sem cessar.
O olhar deles é a dor aguda e insuportável. Cada par de olhos podres me acusa, me disseca, me lembra do meu pecado, de novo e de novo, num loop infinito que é a perturbação perene da minha alma. Não há grito, não há sangue, só a agonia de ser observado para sempre por aqueles que eu condenei.
O tempo não existe aqui. Só este momento. E o riso silencioso do Capitão… ah, o riso dele não está mais do lado de fora. Ele ecoa dentro do que restou da minha consciência, uma trilha sonora para o meu inferno particular. Não há esperança de escapar, porque não há para onde ir. O abismo não era o buraco no oceano. O abismo sou eu. E aqui dentro, a risada dele nunca, jamais, vai parar.

