Conto O Glitch no Asfalto de Copacabana

Conto O Glitch no Asfalto de Copacabana

O sol do meio-dia no Rio de Janeiro não ilumina; ele espanca. É um martelo de ouro derretido batendo na moleira de quem teve a audácia de acordar depois das onze. Eu estava na Nossa Senhora de Copacabana, suando uma mistura barata de vodca Natasha e desgosto existencial.

Sabe aquele calor que faz o asfalto tremer, tipo miragem de desenho animado do Papa-Léguas? Pois é. O ar tinha cheiro de escapamento, fritura velha e protetor solar barato. A trindade profana da Zona Sul.

Eu estava seguindo a garota do vestido verde. Não “seguindo” tipo You da Netflix — bom, talvez um pouco. Mas não era criminoso, era… antropológico. Eu precisava saber onde alguém com aquelas pernas ia numa terça-feira feia dessas. Ela caminhava com aquela arrogância de quem sabe que o mundo deve algo a ela. Eu? Eu caminhava como quem deve ao banco.

— Merda de vida — murmurei, acendendo um cigarro que eu jurei que não fumaria.

A minha paranoia estava tinindo hoje. Olhei para o reflexo na vitrine de uma farmácia. Eu parecia um saco de batatas revirado. Mas, ei, as pessoas ao redor não eram muito melhores. Eram formigas. Formigas bronzeadas carregando sacolas de compras e ansiedade. Eu sentia os olhares delas. Julgadores. Aquele porteiro me olhou torto? Aposto que ele sabe que eu não paguei o aluguel mês passado. Ele sabe. Todo mundo sabe.

A garota do vestido verde parou na esquina. O sinal estava vermelho para os pedestres, mas no Rio, o sinal vermelho é apenas uma sugestão cromática, uma opinião do DETRAN que ninguém leva a sério.

Ela atravessou.

Eu fui atrás.

Foi aí que a física, essa cadela impiedosa, resolveu cobrar a conta.

Não houve som de pneu cantando. Não teve trilha sonora de suspense tipo Tubarão. Foi só um BUM seco. Metálico. E o som de carne batendo em metal, que é perturbadoramente parecido com o som de um bife caindo no chão da cozinha.

Senti o impacto antes da dor. Um SUV preto — blindado, certeza, coisa de político ou bicheiro — me pegou na lateral direita. A grade do carro quebrou minhas costelas com a facilidade de quem quebra palitos de dente.

Voei.

Sério, eu voei. Por um segundo, fui o Superman. O Superman mais fodido da história.

O chão veio rápido. O asfalto quente lixou a pele do meu rosto. Gosto de sangue. Gosto de piche. Gosto de cobre.

— Puta que pariu… — tentei dizer, mas saiu só uma bolha vermelha.

A dor não veio de uma vez. Ela veio em ondas, tipo um download lento numa internet discada dos anos 90. Primeiro o choque, depois o fogo. Minha perna estava num ângulo que pernas não deveriam ficar, dobrada como um origami macabro.

As pessoas começaram a se aglomerar. E aqui entra a “Deep Research” sobre a natureza humana: ninguém ajudou. Ninguém segurou minha mão.

O que eu vi foi uma floresta de smartphones.

Câmeras. Flashes. Lentes apontadas para a minha desgraça.

Chamem o SAMU! — alguém gritou, mas continuou filmando. Precisava do ângulo perfeito pro Stories, né? O engajamento vale mais que a hemorragia alheia.

Olhei para cima. O motorista desceu. Um sujeito gordo, camisa de linho aberta até o umbigo, corrente de ouro. Ele não olhava para mim. Ele olhava para o para-choque do carro.

— Riscou! Olha isso! Riscou a porra da pintura! — ele berrava ao celular.

A ironia, meus amigos, é fina como navalha. Eu ali, vazando vida pelo ralo, e o problema era a pintura perolizada do carro dele. Nelson Rodrigues teria um orgasmo com essa cena. “A vida tal como ela é”, diria ele, cuspindo fumaça.

Minha visão começou a ficar turva. O tal túnel de luz? Esquece. É balela. O que acontece é que as bordas da visão ficam pretas, tipo quando a TV antiga sai do ar.

Frio. Comecei a sentir frio no asfalto de 40 graus.

Olhei para a garota do vestido verde. Ela estava na calçada. Parada.

Mas tinha algo errado.

Ela não estava olhando para mim com horror. Ela não estava olhando com pena.

Ela estava… travada.

Não parada. Travada. Tipo um vídeo pausado no YouTube enquanto a internet carrega. O cabelo dela estava flutuando no ar, imóvel, desafiando a gravidade. Um pombo que voava sobre nós parou no meio da batida de asas, suspenso no azul.

— Mas que porra é ess… — tentei pensar.

O som da cidade sumiu. As buzinas, os gritos, o motor do SUV. Silêncio absoluto. Um silêncio digital.

Então, o céu do Rio de Janeiro, aquele azul cartão-postal, começou a falhar.

Pixels.

Quadrados gigantes, azuis e pretos, começaram a cair do céu como pedaços de reboco velho. O Cristo Redentor lá no fundo piscou duas vezes e desapareceu, substituído por uma linha de código verde fosforescente:

ERROR: RENDER_DISTANCE_FAILURE

Minha dor sumiu instantaneamente.

Eu me levantei. Ou melhor, minha consciência se levantou, mas meu corpo “quebrado” continuava no chão. Olhei para o meu próprio cadáver amassado. Era bem feito, tenho que admitir. As texturas do sangue eram em 4K.

Uma janela retangular, azul translúcida, apareceu flutuando na frente do meu rosto. Fonte Arial, branca, sem serifa.

SIMULAÇÃO ENCERRADA

Usuário: #Robert_Beta_Test_v9

Causa da Morte: Atropelamento (Evento Aleatório #442)

Nível de Imersão Atingido: 99.8%

Pontuação de Sofrimento: 8.5/10

Eu encarei aquilo. Não era o céu. Não era o inferno.

Era um menu.

De repente, ouvi vozes. Não na minha cabeça, mas fora dela, como se alguém tivesse tirado um fone de ouvido gigante que eu nem sabia que estava usando.

— Ah, que saco, cara! — disse uma voz adolescente, irritada. — Eu falei pra você não colocar a IA no modo “Depressivo/Bukowski”. O personagem fica muito lento, ele só anda e reclama. Morreu na primeira quest de perseguição!

— Relaxa, Enzo — respondeu outra voz, rindo. — O gráfico de dor foi irado, vai? A física dos ossos quebrando foi muito realista. A engine nova da LifeSimulator 6 é monstra.

Eu olhei ao redor. O Rio de Janeiro estava se desfazendo em wireframes, linhas de arame neon. A garota de vestido verde era apenas um monte de polígonos sem textura.

Eu não era um escritor fracassado. Eu não era um alcoólatra. Eu não era um ser humano.

Eu era um NPC (Non-Playable Character) glorificado com um pacote de expansão de “Crise Existencial”.

— Vamos resetar? — perguntou a voz do tal Enzo. — Dessa vez, coloca ele como um milionário na Barra da Tijuca. Quero ver como é a física de dirigir aquele Porsche.

— Beleza. Reiniciando em 3… 2…

Senti um puxão no umbigo. O escuro voltou.

A última coisa que pensei, com aquela ironia amarga que foi programada no meu código-fonte, foi:

Espero que na próxima versão eu pelo menos transe com a garota do vestido verde antes de virar estatística.

1…

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