Coração Satânico: Um Contrato de Mão Única Para o Inferno

Coração Satânico: Um Contrato de Mão Única Para o Inferno

AVISO DE GATILHO: Antes de você meter os pés nessa lama, um papo reto. Essa merda aqui é para maiores de 18. E não é marketing barato. A coisa envolve sexo, sacrifício de bicho e de gente, incesto, mutilação e o caralho a quatro. Se você é do tipo que se ofende fácil ou tem o estômago de uma freira, faz um favor a si mesmo e vai procurar outra coisa pra ler. O recado tá dado.

Nova York, 1959. A cidade é uma lata de lixo com luzes de neon. É nesse chiqueiro que a gente encontra Harry Angel, um detetive particular fodido que pega um caso que fede a enxofre desde o início: achar um cantor, Johnny Favorite, que sumiu depois da guerra. O coitado voltou do front com a cabeça em parafuso, um vegetal, e depois simplesmente evaporou de um hospital. O contratante? Um tal de Louis Cyphre, um almofadinha com um nome que já entrega o jogo, insistindo em cobrar uma dívida antiga.

Pronto. É só isso que você precisa saber. Se quiser mais, vai ter que sujar as mãos como o Harry.

A história te pega pelo pescoço e não solta. É um romance policial clássico mergulhado num caldeirão de magia negra. A escrita do William Hjortsberg é um soco na boca: seca, direta, sem frescura. Você sente o cheiro do uísque barato, a paranoia do Angel se infiltrando na sua própria cabeça. A cada página, a certeza de que ele não está caçando, está sendo levado para o matadouro, fica maior. E a gente vai junto, de camarote.

Eu vi o filme primeiro. E vou te dizer, o “Coração Satânico” de Alan Parker é um filmaço do caralho. Mickey Rourke no seu auge, parecendo que tinha acabado de sair de uma briga de bar de cinco dias. E Robert De Niro como Cyphre é a porra da perfeição, um diabo tão elegante que você assinaria o contrato sorrindo. O filme é bom. Bom pra cacete.

Mas o livro é melhor.

E a diferença é simples. O filme é um evento. Um pacote fechado. Tem começo, meio e fim, tudo mastigadinho pra você. É uma porrada na sua cara, sim, mas a luz do cinema acende e você vai pra casa. Acabou. O livro? Ah, o livro não te dá essa colher de chá. Ele não é um evento, é um processo. Uma contaminação. Hjortsberg abre um universo de suposições, não te entrega a verdade de bandeja. Ele joga as pistas, os rituais, o sangue, e te deixa sozinho no escuro pra ligar os pontos. O filme te mostra o monstro. O livro te faz desconfiar que o monstro sempre esteve aí, te olhando do espelho, e te deixa apodrecendo com essa ideia.

“O túmulo jaz ao final de toda trilha. Apenas a alma é imortal. Guardem este tesouro com carinho. Seu invólucro decadente é apenas um barco temporário numa viagem sem fim.”

No fim das contas, a diferença é essa: o cinema te dá um pesadelo de duas horas. A literatura te dá uma insônia que dura a vida toda.

Quem Foi o Infeliz por Trás Disso?

William “Gatz” Hjortsberg (1941-2017) foi um desses caras que sangram tinta. Nova-iorquino, largou a porra toda pra ser escritor. Viveu de bicos, empacotou compras em mercado, se fodeu como todo mundo. E foi aí, quando já tinha desistido, que começou a escrever por puro prazer sádico. Foi assim que nasceu Falling Angel (o nosso Coração Satânico), essa pérola do noir ocultista. O cara também escreveu o roteiro de A Lenda, aquele filme sombrio do Ridley Scott. Um sujeito que viveu e morreu pela palavra, derrotado por um câncer no pâncreas. Um destino tão inescapável quanto o do pobre Harry Angel. Alguns simplesmente não têm salvação.

Referências:

Imagem:

  • Montagem de fãs.

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