Resenha de “Crime e Castigo”: A Febre da Culpa na Mente Segundo Dostoiévski

Resenha de “Crime e Castigo”: A Febre da Culpa na Mente Segundo Dostoiévski

Antes de falar do livro, a gente precisa falar do cara que o escreveu. Fiódor Dostoiévski. O nome já impõe respeito. Mas esqueça a imagem do velho barbudo e sábio. Pense num sujeito que viveu no limite, que sentiu o cheiro da morte de perto. Em 1849, por participar de um grupinho de intelectuais que lia uns livros proibidos, ele foi condenado à morte. Foi levado para a praça, ouviu a sentença, viu os companheiros sendo amarrados nos postes… e no último segundo, PÁ, a pena foi comutada. Um teatro macabro do Czar pra assustar a molecada. Em vez de um tiro, ele ganhou quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Na Sibéria! Dá pra imaginar o que isso faz com a cabeça de alguém? Foi lá, no meio de assassinos e ladrões de verdade, que ele começou a entender a complexidade da alma humana, a linha tênue entre o bem e o mal. Some a isso uma epilepsia desgraçada e uma dívida de jogo que o perseguia como um fantasma, e você tem o caldeirão de onde saiu Crime e Castigo.

O livro foi publicado em 1866, escrito às pressas pra pagar as contas. E talvez essa urgência, esse desespero do autor, explique a febre que impregna cada página. A Rússia daquela época era um barril de pólvora. As velhas tradições ruindo, a servidão tinha acabado de ser abolida e novas ideias vindas da Europa – niilismo, utilitarismo – borbulhando na cabeça dos jovens. Um “vale-tudo” de filosofias, onde alguns achavam que, se Deus não existe, então tudo é permitido. Foi nesse cenário de caos e transição que nasceu a ideia de Raskolnikov.

Um pouco sobre o Livro

Rodion Romanovich Raskolnikov. Ele era um estudante fodido, magrelo, vivendo num quartinho-caixão em São Petersburgo, um buraco suado e desesperado. E é nesse chorume que uma ideia perigosa começa a se contorcer no cérebro dele. A ideia de que ele não é como os outros. Ele é “extraordinário”. Anos depois, um alemão bigodudo chamado Nietzsche daria um nome chique pra essa pira toda: Übermensch, o super-homem. Mas Raskolnikov foi o beta tester, e o sistema operacional deu pau. Ele se achava um Napoleão, acima da moralidade medíocre das baratas. Para ele, o que importava era a vontade de potência.

Raskolnikov se via como um Napoleão. Um homem acima da moralidade medíocre das baratas que rastejavam ao seu redor. E para provar sua teoria, ele só precisava fazer uma coisinha: matar uma velha. Uma agiota. Uma piolha, um ser inútil. Um favor à humanidade, certo? Na cabeça dele, era um cálculo simples, quase matemático. A vida de uma velha em troca do bem maior. Um plano perfeito, quase uma obra de arte. Como o Coringa do Heath Ledger, ele só queria provar um ponto: a moral é uma piada. Para ele, não seria um crime, ele não mataria um ser humano, mataria um “princípio”. O princípio de que a moral dos fracos se aplicava a ele. Como ele mesmo confessa depois para Sônia, a única alma pura naquele inferno:

“Eu… quis ousar e matei… eu só quis ousar, Sônia, eis toda a causa….”.

Ele simplesmente matou; matou para si, só para si.

Mas a teoria, na prática, é uma vadia cruel. A cena do crime é um show de horror desajeitado. A violência é crua, patética. Não tem nada de glorioso. É o som oco do machado, o sangue, o pânico e, de brinde, a morte da irmã inocente da velha, que apareceu na hora errada. O grande Napoleão sai de lá tremendo, com bugigangas inúteis no bolso e a alma mais suja que pau de galinheiro. E o castigo? Não vem da polícia. Vem de dentro. A culpa, aquele monstro que ele achou que podia esmagar com a lógica, o devora vivo. A paranoia se instala. Raskolnikov, que se presumia um super-homem, vira um joguete das situações. Ele vai tomando consciência de que seu crime não foi extraordinário; sua culpa o iguala a todos os outros homens.

É aí que entra Sônia Marmeladov, uma jovem prostituta, empurrada para a rua pela miséria. Irônico, não? A única fonte de compaixão e redenção para ele vem de alguém que a sociedade despreza. Ela é o espelho que o força a encarar a própria monstruosidade, o farol de fé em meio ao desespero dele. É para ela que ele despeja a verdade mais brutal:

“Foi a mim que matei, não a velhota! No fim das contas eu matei simultaneamente a mim mesmo, para sempre!…”.

Que porra de frase. Ele entende que, ao tentar provar que era um deus, ele apenas aniquilou a própria humanidade.

E o castigo? Não vem da polícia. Vem de dentro. Vem como uma febre, uma doença da alma. A culpa, aquele monstro que ele achou que podia matar com a lógica, o devora vivo. A paranoia se instala. Cada olhar na rua é uma acusação. Dostoiévski te arrasta para esse inferno psicológico, e é aí que reside a genialidade da obra. Crime e Castigo não é um “quem matou?”. A gente já sabe. É um “por que ele matou e o que isso fez com ele?”. É considerado um dos primeiros e mais importantes romances psicológicos da história. Ele praticamente inventou o thriller psicológico, mergulhando na mente de um criminoso de um jeito que ninguém tinha feito antes.

No fim, a grande teoria do super-homem se desfaz como papel molhado. Raskolnikov não era extraordinário. Era só um jovem arrogante que descobriu da pior forma que não se pode fugir da própria consciência.

Escrito há mais de 150 anos por um homem desesperado por dinheiro, este livro continua sendo um soco no estômago. Uma exploração brutal sobre culpa, redenção e a busca por um sentido em meio ao caos. Uma obra-prima, porra. E um lembrete de que as batalhas mais aterrorizantes são travadas dentro da nossa própria cabeça.

Vocês estão diante de um livro extraordinário. Para aqueles que querem viajar na insondável alma humana, é um livro perfeito. Uma obra-prima que merece um lugar de honra na sua estante, mas se prepare: é um lugar que vai te encarar de volta toda vez que você passar por ele.


Referências


 

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