A Metamorfose: O Inseto Provedor e o Abuso Familiar

A Metamorfose: O Inseto Provedor e o Abuso Familiar

Certo. “A Metamorfose”. Kafka.

Você me pediu uma resenha. E me deu seus pontos. Que o livro é curto, que você gostou, que é atual, que fala de abuso & que fala de gente tratada como… bem, como caixa eletrônico.

Vamos direto ao ponto.

Você não “gostou” desse livro. Ninguém “gosta” de A Metamorfose. Você aguentou o soco. Você leu, e algo aí dentro… aquela coisa cínica e cansada que você esconde… reconheceu a paisagem. Você se viu no espelho, e o espelho estava sujo. É isso que Kafka faz.

E sim, o livro é curto. Uma navalhada. Você termina em uma tarde, mas a cicatriz… ah, a cicatriz fica.

Aqui está o Robert falando, e eu vou te dar a real. O livro não é sobre um cara que vira um inseto. Isso é só o… o plot device, como dizem os engravatados.

O livro é sobre você. É sobre mim. É sobre o seu vizinho que sorri de manhã mas que morreria de pânico se o cartão de crédito fosse recusado.

 

O Provedor Quebrou. Jogue Fora.

 

Gregor Samsa. O nome dele é Gregor. E a primeira coisa que ele pensa quando acorda com, sei lá, cinquenta perninhas e uma carapaça, não é: “Puta merda, eu sou um besouro gigante!”.

Não.

Ele pensa: “O trem das 7:05. Eu perdi. O gerente vai me matar. O emprego.”

(Você. Você aí. Lendo isso no seu celular. Você já sentiu essa paranoia, não é? Aquele pânico gelado de segunda-feira, a obsessão em checar o e-mail, o medo de ser descoberto. O medo de descobrirem que você não é o “colaborador proativo” que o RH diz que você é, mas só um bicho cansado tentando pagar as contas.)

Gregor era o provedor. O pilar da casa. O caixeiro-viajante que ele odiava ser, pagando as dívidas do pai, sustentando a mãe doente e a irmãzinha. E enquanto o dinheiro entrava, ele era “o querido Gregor”.

Mas no segundo em que a máquina de dinheiro quebra… no segundo em que ele não pode mais girar a maçaneta da porta e sair para vender tecidos… ele deixa de ser Gregor.

Ele vira “aquilo”.

É aqui que a sua intuição, meu caro leitor, estava certa. É sobre ser tratado como um provedor. E só. Sua utilidade é o seu valor. Você para de produzir? Você vira um estorvo. Um problema. Um inseto nojento que precisa ser varrido para debaixo do sofá.

Kafka escreveu isso em 1915. E aqui estamos, mais de cem anos depois, vivendo a mesmíssima merda, só que agora chamamos de “cultura do burnout” & “produtividade tóxica”. Nomes novos para a mesma velha moagem.

 

A Maçã do Papai (O Abuso)

 

E vamos falar de abuso. Ah, sim. Você pediu.

A família não só o abandona. Eles o agridem.

A cena da maçã. É quase… bíblica, de um jeito podre. O pai, que antes era um velho encostado que Gregor sustentava, agora se enche de uma fúria justa. O provedor falhou. E o pai, agora de uniforme, ataca Gregor. Ele não joga uma maçã. Ele joga várias.

Uma delas gruda nas costas do inseto. Fica lá. Apodrecendo. Infectando.

(É visceral, a dor é real. Não é uma dor de monstro, é uma dor de… filho. A dor de ser ferido por quem deveria te proteger.)

Esse é o abuso que você mencionou. Não é só o grito. É a maçã. É o nojo. É a indiferença da mãe.

Mas o pior… a facada final, a que quebra a quarta parede da minha paciência… é a irmã. Grete.

Ela o alimentava no começo. Tinha alguma pena. Mas é ela quem dá o veredito. É ela quem vira para os pais e diz: “Temos que nos livrar disso“.

Repare na palavra.

“Disso.”

Não “dele”.

No momento em que Gregor Samsa parou de pagar as contas, ele perdeu o direito ao pronome. Ele virou um objeto.

 

Tão Atual que Dói

 

No fim das contas, A Metamorfose é o pesadelo do Batman. É o que acontece quando o Bruce Wayne perde o dinheiro. Ele deixa de ser o herói e vira só um cara esquisito com problemas mentais num traje de borracha. Ninguém se importa com o “porquê” de Gregor ter virado um inseto. Eles só se importam que o fluxo de caixa parou.

E o final? O final é a parte mais cruelmente humana.

Gregor morre. Sozinho. De fome, infecção e, provavelmente, de pura tristeza.

E a família? Eles sentem um “imenso alívio”. O sol nasce. Eles decidem tirar o dia de folga, ir passear no campo. Fazem planos. A irmã está “viçosa”, pronta para arranjar um bom marido.

O problema foi resolvido. A ferramenta quebrada foi para o lixo.

É. Você “gostou” do livro. Eu entendo. Eu também “gostei”.

É um livro curto. Rápido. E te deixa com a sensação de que, talvez, seja melhor nem dormir. Vai que, né?


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