Vozes e o Vazio

Vozes e o Vazio

Tinha que ser aquela noite. Eu sentia no cheiro do ar, uma mistura de chuva iminente com o lixo da rua. Uma noite elétrica. Perfeita para um suicídio ou para a glória. Eu apostava na segunda opção, claro. O otimismo é o último refúgio dos desesperados.

Na minha frente, na tela do notebook, a obra-prima. Um conto curto, seco, brutal. Chamava-se “Asfalto, Suor e Sônia”. Era a história de um caso de uma noite só, mas contada de dentro pra fora. O gosto do gim barato, o tédio no meio do sexo, a solidão esmagadora às 4 da manhã com o corpo de uma estranha roncando ao seu lado. Era feio, era real e era a melhor coisa que eu já tinha parido.

Zeca, meu amigo-tribunal de uma pessoa só, tinha lido e assobiado.

“Caralho, Robert. Isso aqui é um soco na cara.”

Era exatamente o que eu queria.

Ele me falou de um evento. “Vozes da Lapa”. Um microfone aberto que acontecia toda terça-feira num bar metido a cult. “É a tua chance, porra. Vai lá e joga essa granada no colo deles.”

A ideia me corroeu por dentro o dia todo. Eu odeio essa gente. Os poetas de cachecol no calor de 40 graus, as meninas que suspiram ao falar de Clarice Lispector sem nunca terem lido, os caras que acham que intensidade é falar baixo e devagar. Um circo de almas sensíveis.

Mas a necessidade de ser ouvido, sabe? É uma coceira que não passa. Um vício.

Então eu fui.

O lugar era previsível. Luz baixa, cheiro de incenso, um palco minúsculo com um único banquinho. A plateia era um desfile de tudo que eu desprezava. Barbas perfeitamente aparadas, óculos de aro grosso, sorrisos de superioridade. Eu me senti um açougueiro numa convenção de veganos. Pedi uma cerveja e me encostei no fundo, observando o zoológico.

Um cara subiu e leu um poema sobre a gentrificação usando a metáfora de uma samambaia. O pessoal estalou os dedos em aprovação. Uma moça leu um diário sobre a ansiedade de escolher um sabor de iogurte no supermercado. Foi aplaudida de pé.

Meu estômago se revirava. Eles não queriam arte. Eles queriam confirmação. Queriam textos que fossem como um abraço quentinho, que dissessem “tá tudo bem, nós somos profundos e complicados”.

Meu texto não era um abraço. Era um empurrão da escada.

Então, o mestre de cerimônias, um sujeito magrelo com uma energia de professor de ioga, chamou meu nome.

“Agora, com vocês, um estreante aqui no nosso palco… Robert!”

Caminhei até o palco, sentindo os olhares curiosos. O silêncio deles era pesado, cheio de expectativa. A luz do refletor era quente e me cegava. Desdobrei o papel amassado com as mãos suando. Respirei fundo e comecei a ler.

Eu não li. Eu cuspi as palavras.

Joguei pra eles o suor da Sônia, o gosto amargo da bebida, a nudez crua e sem poesia. Falei do corpo como um pedaço de carne e do desejo como uma falha no sistema. Não usei uma metáfora sequer. Era tudo direto, como uma autópsia.

Quando li a última frase — “e o sol nasceu, indiferente como um deus de pedra” — o silêncio que caiu não foi respeitoso, nem chocado. Foi um vácuo. Um silêncio de pura e total perplexidade. O tipo de silêncio que acontece depois de um barulho que ninguém consegue identificar, e todo mundo fica parado, esperando pra ver se o mundo vai acabar.

Ninguém estalou os dedos. Olhei para as caras na penumbra e não vi raiva, nem nojo, nem pena. Vi… nada. Vi rostos em branco. Vi gente se entreolhando com os ombros encolhidos, as sobrancelhas franzidas, como se eu tivesse lido a lista de compras em aramaico. Um cara na primeira fila soltou uma risadinha nervosa e sem graça, do tipo que se dá quando não se sabe se é uma piada ou um surto psicótico.

Do meio do salão, ouvi um sussurro claro, cortante:

“Gente… o que foi isso?”

A pergunta pairou no ar, definindo tudo. Não era uma crítica. Era a prova de que eu tinha falhado de uma forma muito mais fundamental. Eu não tinha sido odiado. Eu nem sequer tinha sido compreendido. Eu era um alienígena.

O mestre de cerimônias, o tal professor de ioga, subiu no palco parecendo um bicho assustado. Ele não me tocou. Apenas se aproximou do microfone, piscando contra a luz.

“Ok…”, ele disse, e a palavra saiu oca. Ele olhou para o nada por um segundo, procurando no roteiro invisível da noite o que se diz depois de um acidente. “Vamos… vamos agradecer ao Robert por… uhm… compartilhar… essa… visão.”

Ele olhou para a plateia inerte.

“Uma rodada de aplausos, pessoal. Por favor.”

O “por favor” saiu quase como uma súplica. O que veio não foi o som da piedade. Foi o som de meia dúzia de pessoas batendo palmas por pura obrigação social, um barulho frouxo e perdido no silêncio constrangido da maioria. Era o som que se faz quando o show precisa continuar, não importa o tamanho do desastre que acabou de acontecer no palco.

Foi a aniquilação. Foi pior que uma vaia. Mil vezes pior.

Não esperei mais nada. Desci do palco, passei no meio das pessoas, que desviavam o olhar como se eu estivesse doente. Empurrei a porta e saí para a noite quente da Lapa.

Não fui pra casa. Não liguei pro Zeca.

Entrei no primeiro boteco pé-sujo que encontrei. Um balcão de metal, chão grudento, um ventilador de teto que mal girava. Um lugar honesto em sua decadência. O meu lugar.

Sentei no balcão. O homem atrás dele nem me olhou.

— Me vê um whisky.

Ele pegou um copo sujo, jogou uma pedra de gelo que parecia ter vindo da era glacial e despejou uma dose de um líquido âmbar e barato. Empurrou o copo na minha direção.

Fiquei ali, olhando para a bebida. Para a minha cara distorcida no vidro.

As palavras do meu conto ecoavam na minha cabeça. Tão fortes, tão verdadeiras pra mim. E pra eles? Lixo. Mau gosto. Crueldade gratuita.

A granada que eu joguei no colo deles não explodiu. Virou fumaça. E o único ferido na história toda… era eu.

Peguei o copo. O cheiro do álcool subiu, forte, prometendo um breve esquecimento. O gosto da humilhação, no entanto, eu sabia que ia durar bem mais.

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