A Última Cerveja do Bar do China: Um Conto Noir no Rio
O Rio de Janeiro lá fora parecia uma carcaça de baleia apodrecendo sob o mormaço. O Bar do China, encravado num beco que a prefeitura esqueceu de batizar, cheirava a serragem úmida, urina antiga & desinfetante barato. Era o meu santuário. Ou minha cela. Dá no mesmo quando você não tem para onde ir.
O China — que, aliás, era paraense e se chamava Juvenal — polia o balcão com um pano que tinha a cor de um pulmão de fumante.
— Acabou, Robert — ele disse, sem olhar para mim. — Amanhã o trator passa. Vão levantar um prédio de vidro. Tudo limpo, tudo estéril. Tipo um hospital para gente que não morre.
— O mundo está ficando chato, China. Beber em lugar limpo é como fazer sexo com as luzes acesas e um manual de instruções — resmunguei, sentindo o gosto metálico da Antártica morna.
Eu estava no meu terceiro casco quando a porta rangeu. Entrou um sujeito de terno de linho amassado, parecendo um vilão de segunda categoria de True Detective. Ele sentou do meu lado. O banco de couro rachado gemeu.
— Robert — disse o cara. Ele não perguntou. Ele afirmou. — Você ainda guarda aquela carta da Clarisse? Aquela que você nunca abriu porque tem medo de que o “não” seja definitivo?
Meu estômago deu um nó. Eu nunca contei da Clarisse para ninguém. Nem para o China, que já me viu chorar por causas bem menos nobres, tipo o preço do torresmo.
— Quem é você, mermão? Trabalha no SPC ou é só um fofoqueiro profissional?
O sujeito sorriu. Tinha dentes que pareciam teclas de um piano velho.
— Eu sei que você parou de escrever em 2018 porque achou que o mundo não merecia suas frases curtas. E sei daquela cicatriz no seu joelho esquerdo. A queda da bicicleta, 1994. O cheiro de asfalto quente e sangue. Hum… marcante, não?
Senti um calafrio. Olhei para o China, mas ele estava lá no fundo, contando moedas como se estivesse rezando um terço de metal.
— Sabe, Robert — o estranho continuou, ignorando minha cara de quem viu um fantasma — a vida é um roteiro mal escrito do Michael Bay. Muita explosão, pouco nexo & um final que a gente já espera.
Uma mulher entrou logo depois. Vestido vermelho, olhar de quem já viu o abismo e achou a decoração de mau gosto. Ela parou na minha frente.
— Você ainda acorda às 3:14 da manhã com sede, Robert? Aquela sede que água não mata? — ela perguntou, a voz rouca de quem engoliu cascalho.
Eu já passei por noites estranhas, sabe? Tipo aquela vez em que acordei num ônibus para Petrópolis sem sapatos. Mas isso era diferente. Era como se o bar estivesse vomitando meus segredos no balcão. Quem nunca se pegou pensando se a própria vida não passa de uma piada interna que você ainda não entendeu?
— O que vocês querem? — gritei, batendo o copo. O vidro trincou. Um aviso.
O China voltou para o balcão. Ele parecia mais jovem. Ou talvez fosse a luz capenga.
— Calma, Robert. Eles só estão se despedindo do cliente mais fiel.
— Despedindo? O bar vai fechar, China! Você mesmo disse!
O China deu um sorriso triste, quase piedoso.
— O lugar não fecha, Robert. Só muda de dono. A estrutura fica. O que muda é quem limpa o sangue do chão.
Ele me estendeu um molho de chaves pesadas, enferrujadas.
— O contrato está assinado. No seu nome. A herança dos derrotados, meu caro.
Olhei para o lado. O homem de linho e a mulher de vermelho tinham sumido. No lugar deles, apenas dois copos vazios e o cheiro de ozônio.
— Eu não quero essa porcaria — eu disse, mas minha mão já estava fechando em volta do metal frio das chaves.
— Ninguém quer, Robert. Mas alguém tem que ouvir as histórias. E você já conhece todas as minhas — o China tirou o avental e caminhou em direção à porta. — Agora, vê se não deixa a cerveja esquentar. O próximo cliente chega em cinco minutos. Ele vai te perguntar sobre o seu pai. Tente não socar a cara dele logo de primeira.
Ele saiu. A porta bateu. O silêncio no Bar do China era absoluto, interrompido apenas pelo zumbido da geladeira velha. Eu era o dono do hospício. E a primeira rodada era por minha conta.
Afinal, no fim das contas, a gente sempre acaba virando o monstro que costumava nos assustar.

