Conto: “O Passageiro da Linha Vermelha”

Conto: “O Passageiro da Linha Vermelha”

O ar-condicionado do Logam era uma piada de mau gosto. Ele bufava um ar asmático que não vencia o mormaço fluminense. Sabe aquele calor que não vem do sol? É um calor que brota do asfalto, atravessa o chassi & se instala direto no seu mau humor. Eu estava há nove horas naquela labuta. Aplicativo aberto, alma trancada por dentro.

O celular apitou.

  • Carlos.
  • Do Galeão para Copacabana.

O aeroporto de madrugada é um purgatório com Wi-Fi. É o lugar onde as pessoas chegam esperando que a vida mude só porque trocaram de CEP. Doce ilusão. A gente leva a própria carcaça pra todo lado, & o cheiro de derrota atravessa qualquer alfândega.

Encostei. Ele entrou como uma sombra. Sem bater porta, sem o “tum” da mala no porta-malas. Eu só senti o peso no banco de trás. Senti o carro arriar levemente, como se o destino estivesse subindo a bordo.

— Copacabana? — perguntei. Minha voz soou como lixa em madeira velha.

O sujeito só assentiu. No retrovisor, ele era um borrão de indiferença. Nada de “boa noite”, nada de “está fresco hoje, não?”. Ótimo. Detesto motorista palestrinha & detesto passageiro que acha que eu sou o psicólogo dele.

Peguei a Linha Vermelha. Aquela cicatriz de concreto que corta o Rio. Luzes amarelas de sódio batendo no capô… parecia que o mundo tinha sido pintado com nicotina e urina. No retrovisor, o tal Carlos olhava fixo. Mas não era pra estrada. Ele olhava através de mim. Como se eu fosse de vidro. Ou como se eu nem estivesse ali.

— Voo atrasou? — Tentei ser minimamente humano. Pura perda de tempo.

Silêncio. Um silêncio denso, tipo um maníaco calculando o próximo passo da sua obsessão.

Aí veio o cheiro. Não era o “Tree” de pinho pendurado no espelho. Era metal. Ferro. Sangue lavado com sabão barato, mas que o nariz teimoso insiste em achar. Olhei de novo. A camisa dele… Cristo. Estava encharcada. Um rubro escuro, quase preto sob a luz dos postes.

— Chefe… você tá bem?

Parei o carro no acostamento. O coração batia na garganta, tipo um bumbo de escola de samba descompassado. Virei o corpo.

Vazio.

O banco de trás estava tão vazio quanto a conta bancária de um poeta. Sem porta abrindo. Sem vulto correndo pro mato. Só o couro sintético brilhando sob a luz da cabine.

— Mas que porra… — murmurei. Eu já vi muita coisa nessa cidade, mas aquilo era bug na Matrix.

Saí do carro. O vento da madrugada no Rio parece o bafo de um dragão com azia. Olhei ao redor: matagal, asfalto & o som dos pneus de caminhão ao longe. Abri a porta de trás. O banco estava molhado. Grudento. Passei o dedo & o cheiro de matadouro confirmou o que eu já sabia.

Voltei pro volante. Mão tremendo mais que vara verde. Peguei o celular. O aplicativo ainda rodava.

Passageiro: Carlos.

Destino: Cemitério do Caju.

— Erro de sistema. Só pode ser essa merda de sinal — falei pra mim mesmo, tentando manter a sanidade. Tentei cancelar. “Erro”. Tentei fechar o app. “Erro”.

O volante ficou pesado. Não travado, mas pesado. Como se uma mão invisível estivesse dividindo a direção comigo. Olhei o retrovisor.

Ele estava lá. De novo.

O olho esquerdo era um buraco negro de trauma. A boca, um rasgo torto. O cinto de segurança estava cortado, desfiado na brutalidade. Ele inclinou a cabeça, devagar, como um boneco de ventríloquo mal lubrificado.

— Você não parou — a voz dele era um sussurro de ralo entupido.

— O quê?

— Eu pedi pra parar. Naquela noite. Você não parou.

A memória veio como um soco no estômago do Capitão América. Uma semana atrás. Linha Vermelha. Madrugada. Um vulto no acostamento pedindo parada. Eu acelerei. “Área de risco”, pensei. “Foda-se”, pensei. Eu queria a meta do dia. Queria minha cama.

— Eu pulei — ele disse. — E você continuou rodando.

Minha visão escureceu. Eu vi o reflexo no vidro. Não era a primeira vez que aquela cena acontecia. Era um looping. Uma fita de VHS mofada repetindo o mesmo erro.

“Você chegou ao seu destino”, disse a voz sintética da moça do GPS.

Eu estava diante do portão do Caju. O portão estava aberto, convidativo como a boca de um jacaré. Desliguei o carro. O suor frio escorria pelas minhas costas. Olhei pra trás: vazio. De novo. Sem sangue, sem fantasma. Só o cheiro de terra úmida.

Saí do carro, as pernas parecendo feitas de gelatina. Um vigia surgiu das sombras. Um velho com cara de quem já viu o Diabo escovando os dentes.

— Mais um? — perguntou ele, soltando a fumaça de um cigarro de palha.

— Como assim, “mais um”?

O velho apontou pro pátio interno com o queixo.

— Motorista de aplicativo. Tá cheio lá dentro. Gente que não para. Gente que acha que o tempo é dinheiro, mas esquece que o tempo é, no fim das contas, a única coisa que a gente não recupera.

— Eu… eu não morri. Eu tô aqui. Eu sinto o calor — gaguejei.

O vigia deu uma risada curta, seca. Uma risada de quem sabe que a psicologia humana é uma piada pessimista.

— Morreu sim, Robert. De leve. No susto. Naquela batida logo depois que o Carlos pulou e você perdeu o controle olhando pelo retrovisor. Você só não percebeu ainda. O ego é a última coisa que para de bater.

O motor do meu carro ligou sozinho. O ronco era um rugido metálico. O celular no painel brilhou.

Nova Corrida.

Nome: Robert.

Origem: Linha Vermelha.

Destino: Aeroporto do Galeão.

O vigia me deu as costas.

— Vai lá. Tem gente esperando pra chegar. E dessa vez… não demora. O próximo passageiro é você mesmo.

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