A Anatomia do Abuso: O Jogo Sádico de Fotografia e Loucura na Lapa

A Anatomia do Abuso: O Jogo Sádico de Fotografia e Loucura na Lapa

Hum… você sabe como é, né? Tem noites em que a cidade simplesmente respira a sua própria podridão. A Lapa, com aquele cheiro inconfundível de mijo velho, cigarro barato & cerveja choca, parecia o cenário de um filme sujo, um daqueles becos de Blade Runner onde a esperança vai para morrer de overdose. Eu estava num bar imundo nos Arcos, bebendo um vinho que tinha gosto de ferrugem, tentando manter a maior distância possível da raça humana. A solidão é um vício, sabe? E eu estava completamente chapado dela.

Foi lá que Marina me encontrou.

Ela era fotógrafa. Tinha um daqueles olhares estéreis, calculistas, que parecem fatiar a sua alma como se fosse um bife barato de açougue. E as pernas… ah, as pernas. A saia dela estava sempre erguida à altura das coxas, de um jeito tão absurdamente calculado, deixando à mostra meias de nylon que fariam qualquer idiota de terno implorar por piedade babando no chão. Ela cruzou as pernas, acendeu um cigarro & me olhou como se eu fosse um inseto nojento, porém interessante. Eu já sabia que a vida não passava de um jazz a foder, uma piada trágica contada por um bêbado num necrotério. Mas, tipo assim… nós dois estávamos prestes a compor a melhor e mais sádica sinfonia da cidade.

Você já se apaixonou por alguém apenas para ter o prazer tátil, quase doentio, de destruir essa pessoa aos poucos? É como ser um Darth Vader da paixão: o ódio, a posse e a dor do outro são o que te dão poder. O amor, como diria Nelson Rodrigues, é a pior das doenças curáveis, uma desculpa de burguês para legitimar a safadeza. E nós não éramos um casal, porra nenhuma; éramos uma experiência de tortura mútua, dois ratos numa caixa de sapato tentando arrancar os olhos um do outro.

O ápice da nossa desgraça aconteceu numa noite de terça. O meu apartamento parecia o interior de um forno crematório. O ventilador de teto girava lento, rangendo, inútil. Marina estava no sofá, as pernas brancas cruzadas, soprando a fumaça do cigarro bem na minha cara. Ela queria sangue. Eu podia sentir o cheiro da maldade nela.

— Eu transei com o Cadu, aquele garçom do bar da esquina — ela disse, com a voz plana, sem piscar. O olhar dela era de um predador testando a cerca elétrica. Como o Hannibal Lecter dissecando a Clarice, sabe? Só que os dois aqui eram canibais.

Eu não dei o braço a torcer. Eu dissequei cada microexpressão no rosto dela. A pupila dilatada, o tremor quase imperceptível no lábio inferior manchado de vinho tinto. Ela queria me ver sangrar, me ver quebrar os móveis. Fiquei estático. O sangue pulsava nos meus tímpanos, mas a adrenalina afiou meu raciocínio em vez de anestesiá-lo. Ajustei meu cinto de couro, respirei fundo e sorri. Um sorriso gélido.

— Você acha que pode jogar comigo, sua fraude? — eu murmurei, a voz tão perigosamente calma que fez a sala parecer congelar. O barulho da tempestade lá fora abafava os ruídos da rua, mas eu sabia que cada palavra minha ia ecoar na cabeça dela por anos.

Ela piscou, recuando milímetros no sofá. A ausência da minha explosão física a desarmou completamente.

— Transou com o garçom? — Dei um passo lento na direção dela, dissecando-a com os olhos. — Uau. Que ato de rebeldia vanguardista. Você faz isso porque, no fundo, sabe que sua arte é um lixo. Suas fotografias são cópias baratas, sem alma, sem técnica. Você é tão oca por dentro que precisa do choque barato para se sentir viva.

“Para com isso”, ela murmurou, a voz trêmula.

— Que coincidência engraçada — eu respondi, sorrindo e servindo mais um copo de vodka quente com uma frieza de psicopata. — Eu fodi a Raquel, aquela sua amiguinha da galeria de arte. Aquela que tem nojo de você e que chora quando goza. Aliás, ela engole bem melhor que você. Sabe o que ela me disse, rolando nos meus lençóis de 400 fios? Que você só está na galeria por pena. Que você não tem talento algum, Marina. Só uma carência patética que dá vergonha alheia. Ela ri de você. Todo mundo ri de você.

A ação foi imediata, visceral e, de certa forma, linda. O copo de vidro pesado que ela atirou não acertou a minha cabeça por um milímetro. Estilhaçou-se na parede descascada com o impacto de uma granada de fragmentação, espalhando vidro e vodka barata por todo o chão. Os cacos voaram como estilhaços letais, cortando o ar pesado.

Ela esperava que eu avançasse. Que eu perdesse a linha, que eu fosse o gorila que grita, quebra móveis e usa os punhos. Como um Exterminador descontrolado. Mas eu sou um escritor. Crio universos inteiros, séries narrativas não-sequenciais onde a mente é o verdadeiro labirinto. A violência física é o dialeto dos medíocres.

Eu podia ver a alma dela rachando. Quem nunca se pegou pensando nisso? O verdadeiro poder não está em esmagar a carne; está em encontrar a fenda exata na armadura do ego e injetar veneno puro. E eu estava destilando veneno. Fui desmontando cada pilar da personalidade dela. Falei dos fracassos, da mediocridade do seu intelecto, da farsa que era o seu “estilo de vida independente”.

Ela se debatia… não fisicamente, mas internamente. Cobriu os ouvidos com as mãos, soluçando. As lágrimas escorriam, borrando a maquiagem, o rosto contorcido numa máscara de dor e terror psicológico. Eu a reduzi a um espectro. Quando finalmente parei de falar, ela desabou no chão, encolhida, chorando histericamente, uma mente em frangalhos, derrotada pela própria insignificância que eu fiz questão de projetar em 3D na cara dela.

Eu me senti um deus. Olhei com desprezo para a poça de lágrimas aos meus pés, apanhei meu casaco, peguei meu Samsung Galaxy e saí para a noite carioca. Estava certo de que havia vencido nosso joguinho sádico. Fui até o boteco mais próximo, pedi outra dose e bebi saboreando a vitória intelectual. O homem é o lobo do homem, mas eu era o predador silencioso.

Mas, no fim das contas… a ironia é uma senhora com um senso de humor muito doentio.

Fim de um relacionamento que nem começou…

Um mês depois…

Eu passava por Ipanema, o sol queimando o asfalto, quando parei na frente daquelas galerias de arte que fedem a dinheiro velho e hipocrisia.. Havia um banner gigante na vitrine: “A Anatomia de um Abusador”. Por Marina S.

Entrei, sentindo um frio súbito na espinha. As paredes brancas estavam forradas com fotos minhas. E não eram fotos quaisquer.

Eram ampliações grotescas, em preto e branco, do meu rosto contorcido de ódio irracional, os olhos vermelhos e patéticos na noite em que brigamos. Minha expressão de falso poder, as veias saltando no pescoço, o suor na testa, enquanto ela, supostamente, chorava no chão. Fui me aproximando da foto principal. Olhei para o canto da imagem, focado no chão, perto da mão dela.

Ela não estava sofrendo naquela noite. Ela não estava quebrada, nem derrotada. Nas sombras da imagem, quase imperceptível para quem não soubesse procurar, estava o cabo do disparador automático oculto na mão dela.

Ela atirou o copo de propósito, sabendo que, como escritor, eu revidaria com a arma que domino melhor: o terror psicológico. Ela provocou a briga. Ela orquestrou a minha fúria. Ela apanhou e chorou lágrimas de crocodilo, tudo para documentar a minha mais crua e patética barbárie, milimetricamente calculada para a lente que ela havia escondido na estante. Eu não era o carrasco, o sádico no controle. Eu fui, desde a primeira noite na Lapa, apenas o rato de laboratório dela. A sua obra de arte mais rentável. E ela, a verdadeira psicopata.

A verdadeira psicopata estava na ilha de edição.

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