Conto de Terror e Fantasia Urbana: A Bruxa e o Vazio
Faz semanas que a caçada começou. Ou seriam meses? Débora já não sabia ao certo. O tempo se deforma quando o medo se torna a sua sombra. A presença era uma nota dissonante, grave e constante, tocando no fundo de sua mente. Ela a sentia no vagão vazio do metrô, um arrepio gélido na nuca que a fazia virar bruscamente, deparando-se apenas com rostos anônimos e cansados. Sentia na umidade dos becos da Lapa, nas escadarias escuras, até no calor dos lençóis de amantes casuais que ela usava em tentativas frustradas de espantar o frio que se enraizava em seus ossos. Onde quer que ela fosse, aquilo a observava de longe. Nunca atacava, apenas assistia. Uma promessa silenciosa, mas implacável, de aniquilação.
A princípio, ela fez o que qualquer ser humano lúcido faria: fugiu. Evitou encruzilhadas, mudou rotas, traçou selos de ocultação e tomou banhos de ervas tão adstringentes que sua pele chegava a arder e descamar. Mas, debaixo de toda a aura mística, Débora era carne, osso e psique. Como qualquer mulher que percebe passos apressados logo atrás de si numa rua deserta à noite, a bruxa sentia o estômago despencar. O pânico a fazia chorar sentada no chão do chuveiro até a água esfriar, abraçando os próprios joelhos, encolhida pela exaustão. A vulnerabilidade a estava devorando de dentro para fora.
Mas a fuga constante é uma morte a prestações. Consome a sanidade gota a gota. Ao se olhar no espelho, vendo as olheiras profundas e o brilho felino de seus olhos se apagando, o orgulho de sua linhagem gritou mais alto que o terror. A alma feminina, forjada em séculos de vida sobrenatural, rugiu contra a covardia da mulher exausta. Ela não morreria correndo, olhando para trás.
Então, ela tomou a decisão que embrulhou suas entranhas: ela seria a isca. Atrairia o predador para o seu próprio território.
Para isso, precisou castrar a própria casa. A noite estava invulgarmente quieta no antigo casarão em Laranjeiras, mas não era a quietude pacífica de uma cidade adormecida. Era um silêncio espesso, pesado. Débora estava sozinha em seu santuário particular, um cômodo onde heras subiam pelas paredes e o cheiro de sândalo e terra úmida impregnava o ar. Caminhando descalça Débora foi desfazendo, um a um, os feitiços que mantinham a loucura do mundo lá fora. Com as mãos trêmulas, apagou os sigilos riscados com cinzas sob os tapetes. Desenterrou os cristais de obsidiana dos vasos. Varreu o pó de tijolo e sal negro das soleiras e escancarou as janelas para a madrugada.
O processo foi uma tortura psicológica absurda. Cada barreira derrubada era como arrancar uma camada da própria pele com as unhas. Sua mente racional gritava em desespero:
“O que você está fazendo? É suicídio! Tranque a porta, reerga os escudos!”.
A respiração dela tornou-se curta, quase ofegante. O suor frio escorria pelo decote do robe de seda rubra, colando o tecido à sua pele quente. Ela estava nua para o invisível. Absolutamente exposta e desarmada em sua própria fortaleza. O aroma doce e inebriante de sândalo que empesteava o quarto não conseguia mascarar o cheiro ácido do seu próprio pânico.
Débora sentou-se no chão de madeira, abraçando o pilão onde socava ervas mecanicamente, tentando manter as mãos ocupadas enquanto o coração socava suas costelas com a violência de um pássaro engaiolado prestes a infartar. A tensão no ar desprotegido tornou-se tão espessa que cortava a sua garganta a cada inspiração. Ela esperou. Cada segundo de silêncio era uma agonia mastigada em câmera lenta. A casa parecia prender a respiração junto com ela. A ansiedade era um veneno paralisante.
E foi então que aconteceu.
O som do vento batendo contra as vidraças sumiu. O tique-taque do relógio de pêndulo foi engolido. Até mesmo o zumbido quase imperceptível da eletricidade nas paredes desapareceu. O ar do quarto caiu vertiginosamente de temperatura, e cada pêlo do corpo de Débora se arrepiou. Não era o toque de um espírito errante ou um demônio de encruzilhada. Era algo muito mais antigo. E muito, muito mais faminto.
Uma mancha de escuridão absoluta começou a vazar pelas frestas do assoalho de madeira. Não tinha forma, rosto ou garras. O que a precedia era o som — ou a aberração que se passava por um. Não era um ruído físico, captado pelos tímpanos, muito menos algo que pudesse ser originado por cordas vocais ou qualquer instrumento forjado por mãos humanas. Era uma vibração surda, uma frequência incidental e caótica que penetrava o crânio de Débora como uma sinfonia agoniante de milhares de abelhas zumbindo freneticamente dentro do seu próprio cérebro. Uma dissonância alienígena que ignorava a barreira da carne e dos ossos; um zumbido invisível e letal que batia direto na alma, arranhando o tecido da sua sanidade antes mesmo que a entidade terminasse de se erguer. Era o som e a presença do Vazio. Uma entidade predatória que não queria apenas matá-la; queria apagar a sua existência, sugar o calor do seu sangue, devorar a sua centelha.
A ameaça era assustadora exatamente por sua ausência de fúria. Ela avançava como a maré alta, implacável e inegável. Débora recuou um passo, o coração martelando contra as costelas. O frio tocou seus pés descalços, e a sensação foi como pisar em vidro moído e gelo seco. Ela tentou pronunciar uma palavra de banimento, mas o som simplesmente não saiu de sua garganta. O Vazio engolia as ondas sonoras. Ele a estava asfixiando por dentro.
A sombra subiu por suas pernas, invisível, mas terrivelmente tátil. Parecia o toque de um amante morto, deslizando pelos seus joelhos, coxas, paralisando seus músculos com um torpor gélido que ameaçava congelar sua vontade. O pânico primitivo tentou se instalar em sua mente, mas Débora fechou os olhos.
Não, ela pensou, a voz ecoando apenas dentro de seu próprio crânio. Você não me terá.
Se o inimigo era a ausência e a morte fria, ela lutaria com a única arma que o Vazio não podia compreender: a brutal e incandescente sensualidade de estar viva.
Débora parou de recuar. Ela plantou os pés no chão congelado e curvou a coluna para trás, entregando-se não à entidade, mas à sua própria essência. Ela buscou o núcleo de sua feminilidade, aquele abismo quente e escuro de onde toda a criação e destruição emergem. Ela imaginou o sangue pulsando em suas veias como lava de um vulcão desperto.
O Vazio apertou o cerco, envolvendo sua cintura, tentando sufocar seu peito. A pressão era esmagadora, uma força colossal que a obrigava a se dobrar. Mas Débora inspirou profundamente, sentindo o ar gelado invadir seus pulmões, e o converteu em fogo.
Ela começou a se mover. Um passo. Depois outro. Não era uma fuga, era uma dança lenta, pesada e hipnótica. Seus quadris balançavam em um ritmo ancestral. A seda de seu robe caiu pelo chão, e ela ficou ali, vulnerável e ao mesmo tempo imbatível. A pele de Débora começou a irradiar calor. Um suor fino e perolado cobriu seu corpo, brilhando à luz das poucas velas que lutavam para não apagar.
A entidade recuou milímetros. O calor daquela mulher era tóxico para o Vazio.
Débora abriu os olhos. Suas íris, normalmente castanhas, agora brilhavam com um dourado felino e predatório. Ela ergueu as mãos, os dedos desenhando símbolos invisíveis no ar, não com magia mental, mas com a fisicalidade de seu corpo. Ela era a terra que ferve, a fêmea em seu ápice de poder, a geradora do caos.
O ápice do embate não teve estrondos. Foi uma colisão silenciosa de vontades. O Vazio avançou para o golpe final, tentando envolver o coração dela em uma garra de puro gelo. Débora, ofegante, curvou-se para frente e exalou, não um sopro, mas uma explosão de energia vital que cheirava a sexo, a sangue de parto, a suor e a jasmim.
Uma onda de calor escarlate irrompeu de seu peito e do seu ventre, expandindo-se pelo quarto como uma supernova silenciosa.
Quando a onda de energia vital chocou-se contra a sombra, a força do Vazio estilhaçou. Não houve barulho de vidro quebrando, apenas a sensação de que a realidade, que estava tensionada até o limite, havia finalmente relaxado. A escuridão derreteu, evaporou e foi sugada de volta para o nada de onde viera.
De repente, o som da cidade despencou de volta sobre o quarto. O buzinar distante de um carro na Rua das Laranjeiras. O vento chicoteando as folhas da amendoeira lá fora. O tique-taque compassado do relógio.
Débora caiu de joelhos no chão de madeira, agora morno ao toque. Seu peito subia e descia violentamente, o corpo inteiro tremendo pela exaustão e pela adrenalina pura. O suor colava seus cabelos negros no rosto e no pescoço.
Ela estava exausta. Seus músculos doíam como se ela tivesse corrido uma maratona com o mundo nas costas. Mas, enquanto se apoiava nas mãos, olhando para as próprias pernas desnudas e sentindo o coração bombear a vida freneticamente por cada artéria, um sorriso lento, afiado e perigoso rasgou seus lábios.
Ela não precisava de feitiços gritados aos ventos. Sua magia era sua própria carne. A alma da bruxa era inquebrável, um incêndio inextinguível. Débora recolheu a seda do chão, enrolou-se nela e caminhou até a janela, observando as luzes noturnas do Rio de Janeiro.
Ela foi até a pequena cozinha, acendeu a boca do fogão com um estalar de dedos — um capricho, apenas porque estava de bom humor — e colocou a água do café para ferver.
Respirou fundo o ar gélido da manhã que entrava pela fresta da janela. Sentia-se leve, recarregada. A alma feminina não precisa ser validada, ela apenas é. E ali, entre o caos da selva de pedra e os ecos de uma magia tão antiga quanto o próprio tempo, Débora tomou seu café. Amargo, forte e escuro. Exatamente como ela.
Qualquer coisa que estivesse escondida na escuridão daquela cidade agora sabia: tentar apagar a luz de Débora era a maneira mais rápida de deixar de existir.

