Conto “O Silêncio dos Algoritmos”
O silêncio é, sem sombra de dúvida, a mercadoria mais cara do Rio de Janeiro. A minha quitinete em Copacabana fede a mofo, café amanhecido e solidão analógica. Robert, prazer. Esse sou eu. Não tenho Wi-Fi, não tenho redes sociais. Minha única companhia é um canário belga numa gaiola enferrujada que só canta quando a luz da rua apaga. Sabe, a galera hoje acha que poder é ter milhões de seguidores. Bobagem. Poder de verdade é você não existir no sistema.
Eu sou um “apagador”. Quando os engravatados da milícia de colarinho branco sujam o lençol digital, eles me chamam pra jogar a cândida.
O trabalho daquela noite era reto e direto: limpar o servidor de uma boate em Botafogo, a “Neon Void”. Aquilo ali era só uma fachada de neon e música eletrônica para lavar dinheiro de grilagem de terras. Minha missão? Entrar nas entranhas do lugar, fritar os discos rígidos com um pulso eletromagnético e sair como um fantasma. Furtivo, tipo o Neo fugindo dos Agentes na Matrix, mas com mais dor nas costas.
Tudo corria bem até eu chegar na sala dos servidores, no subsolo, no meio da fumaça de gelo seco e da vibração dos graves que faziam os dentes tremerem. Foi quando a porta abriu. Ela entrou.
Luna, a DJ residente. Cabelo platinado curto, tatuagens pelo pescoço, uma jaqueta de couro que custava mais que a minha vida e um olhar cínico que cortava mais que navalha. Eu tava com as duas mãos enfiadas nas tripas da máquina, suado e respirando pó de silício. Meu gerador de pulso eletromagnético — um cilindro de metal fosco, pesado e feio, que cheirava a ozônio e solda barata — já estava posicionado a milímetros do rack principal. Faltava um segundo para eu apertar o detonador e fritar os discos rígidos de forma irreversível, transformando os segredos da milícia num bloco de escória derretida. Foi quando a porta abriu. Ela entrou.
Nós nos encaramos. A segurança da boate, pesada, bateu na porta logo em seguida, farejando problema. Ela me olhou, deu um meio sorriso imperceptível e gritou pros caras lá fora:
— Tudo limpo por aqui, rapazes! Foi só o disjuntor do ar-condicionado.
Eles foram embora. Ela simplesmente virou as costas e voltou pra pista de dança.
Fui pra casa, mas a paranoia, minha velha amiga de guerra, veio sentada no banco do carona. Por que diabos ela me cobriu? No Rio, ninguém salva a pele de ninguém por bondade. Bondade é lenda urbana para turista gringo. Eu precisava entender. Comecei a cavar a vida da tal Luna.
Enquanto minha cabeça fritava tentando montar o quebra-cabeça, meus clientes decidiram que o meu trabalho tinha sido “bom demais” e que eu era uma ponta solta. Eles não mandaram hackers me atacarem. Mandaram matadores analógicos. Caras de verdade, que fedem a pólvora e cigarro sem filtro.
O pau cantou às três da manhã. Acordei com o baque seco de uma bota estilhaçando a madeira da minha porta. Não teve coreografia ensaiada, musiquinha de suspense nem o glamour estético de Hollywood. A porrada no mundo real é feia, desajeitada e cheira a suor azedo.
Eu saltei no puro instinto de sobrevivência. O primeiro matador invadiu o corredor estreito. Minha mão tateou a parede no escuro e encontrou a lataria fria do extintor de incêndio velho do prédio. Arranquei o cilindro vermelho do suporte arrancando até os parafusos da parede, girei o corpo e deixei o peso de cinco quilos de aço descer com tudo.
O impacto na garganta dele foi um crack úmido, um barulho de osso e cartilagem sendo esmagados que vibrou até o meu ombro. O desgraçado desabou como um saco de lixo, os joelhos estalando no taco encardido. Ele agarrou o próprio pescoço, os olhos saltando das órbitas num terror branco, o rosto ficando roxo enquanto tentava puxar um ar que simplesmente não ia descer nunca mais. O som que ele fazia era um chiado agoniado, feito um cano furado vazando no escuro.
Mas não deu tempo nem de piscar. O segundo matador já estava em cima de mim. A gente desabou. Uma briga suja de cães de rua rolando no chão apertado. O cara fedia a cigarro sem filtro e adrenalina podre. Foi quando vi o brilho opaco de um revólver calibre trinta e oito na mão dele vindo direto pro meu rosto.
Travei o braço dele com as duas mãos, meus músculos queimando. A gente se debatia, mas o azar do infeliz foi a física básica do corpo humano. A sola da bota dele escorregou feio. Ele perdeu a tração na poça de sangue espesso e escuro que já jorrava do parceiro ali do lado. O desequilíbrio foi mínimo, mas foi a fresta que eu precisava. Torci o pulso dele pra dentro, dobrando a arma contra o próprio peito do cara com toda a força que me restava no pulmão.
Um solavanco cego. O dedo dele esmagou o gatilho.
O clarão do disparo no corredor fechado quase torrou minhas sobrancelhas, e o estampido estourou meus tímpanos. Senti o tranco do tiro rasgando a carne dele. O corpo do matador amoleceu numa fração de segundo, apagando feito uma lâmpada quebrada, e desabou sobre mim. Um peso morto, morno, encharcando a minha camisa de sangue e fedendo a pólvora queimada.
Empurrei o cadáver de lado e encostei na parede, puxando o ar raspando pra dentro do peito, o coração batendo na garganta. O silêncio voltou a engolir o prédio, quebrado só pelo zumbido da lâmpada fluorescente e pelo gotejar do sangue no chão.
Foi ali, olhando praquela bagunça e limpando o sangue do meu rosto, que a ficha finalmente caiu. O cheiro de traição estava empesteando a sala, e não vinha daqueles dois pedaços de carne morta.
Acessei os logs que eu tinha interceptado antes de fritar os servidores da Neon Void. A DJ, a Mulher-Gato das pick-ups, não tinha me salvado por tesão ou por pena. A maldita usou o apagão de dados que eu causei como cortina de fumaça. Enquanto eu destruía as provas da milícia, ela estava mascarando uma transferência de trinta milhões de reais dos chefões para uma rede de contas-fantasma nas Ilhas Cayman.
Ela era a arquiteta invisível. Eu era só o bode expiatório perfeito, o imbecil que ia levar a culpa pelo sumiço do dinheiro enquanto os milicianos achavam que eu tinha roubado o cofre.
Mas aí é que tá o grande defeito dessa geração: eles acham que quem não vive no TikTok é burro. Eu passei a vida desfazendo armadilhas. No dia da invasão, eu não apenas apaguei o servidor. O meu pulso magnético tinha um “parasita” de brinde. Eu espelhei o tráfego final dela. Quando ela apertou “Enter” para mandar a grana pras Cayman, meu código redirecionou os trinta milhões, silenciosamente, para uma carteira fria minha, offline, enterrada no fundo do meu armário debaixo de cuecas velhas.
E, de quebra, deixei o rastro do IP pessoal do laptop dela brilhando feito um farol de milha no sistema de alertas do departamento de crimes cibernéticos da Polícia Federal.
Fui até a boate na noite seguinte. Pedi um uísque vagabundo no balcão e fiquei encostado, só observando. O som tava estourando, a galera em transe, e a Luna lá no alto, comandando a pista com a pose de quem tinha acabado de zerar a vida.
De repente, a música morreu. Não foi o drop da batida. Foram as portas da frente sendo arrombadas. A Polícia Federal entrou como um trator, de fuzil em punho e mandados na mão. A pista virou um caos. Os agentes subiram no palco e arrancaram os fones de ouvido da nossa “gênia” do crime.
Eles a desceram algemada. Quando ela passou por mim, sendo arrastada pelos federais, o rímel dela já tava borrado e os olhos cuspiam um ódio que eu podia quase tocar. Ela me viu com o copo de uísque na mão. Eu apenas levantei o copo pra ela, num brinde mudo, e dei um gole. A expressão de choque no rosto dela foi a coisa mais bonita que eu vi em anos. O cinismo de Érico Veríssimo sussurrou no meu ouvido: o ser humano sempre tropeça no próprio ego.
Voltei pra minha quitinete caminhando pelo calçadão, sentindo a brisa salgada. O canário ainda tava dormindo. Abri meu laptop pré-histórico e chequei minha carteira fria. Trinta milhões. Intocáveis.
A sociedade acha que a tecnologia é Deus, mas esquece que o diabo mora no analógico. Ela tentou me fazer de palhaço no circo de neon dela, mas esqueceu que, no fim das contas, quem apaga as luzes sou eu.

