O Purê, a Criptomoeda e a Poça de Sangue: Um Conto no Rio de Janeiro

O Purê, a Criptomoeda e a Poça de Sangue: Um Conto no Rio de Janeiro

A Avenida Brasil ao meio-dia tem o clima de uma panela de pressão esquecida no fogo. O asfalto derrete solando o pneu do Santana Quantum 1994, e o cheiro de poluição se mistura com o do Rio Faria Timbó. Eu estava no banco do carona, limpando as lentes dos meus óculos escuros, enquanto Tito — um ex-PM com o dobro do meu tamanho e a metade da minha paciência — dirigia e tagarelava sem parar.

— Sabe qual é o problema de São Paulo, Robert? — Tito perguntou, batendo no volante no ritmo de um funk antigo que tocava baixo no rádio. — O purê de batata.

— Purê de batata? — murmurei, checando o carregador da minha pistola.

— É. Os caras botam purê de batata no cachorro-quente. É um crime contra a culinária de rua, irmão. Cachorro-quente de verdade tem salsicha, molho, milho, ervilha, batata palha e ovo de codorna. Purê é comida de bebê. Como você confia num estado que bota comida de bebê no podrão da madrugada?

— É uma reflexão profunda, Tito. Devia escrever um livro — respondi, seco.

Nós não estávamos ali para fazer turismo gastronômico. O Seu Anísio, nosso chefe e bicheiro que tentava brincar de Elon Musk lavando dinheiro do jogo do bicho em criptomoedas, tinha sido roubado. Três milhões de reais em Bitcoin drenados para uma cold wallet. O rastreio do meu software apontou para a carcaça do “Shopping Nova Era”, um elefante branco abandonado na beira da Avenida Brasil, tomado por poeira, ratos e lojistas falidos. Lá foi o último lugar que o M.A.C (endereço do dispositivo eletrônico) do notebook da pessoa que roubou Anísio tinha estado online.

Estacionamos o Santana. O calor fritava os miolos e o asfalto parecia um espelho d’água tremeluzente. Tito abriu o porta-malas e, ignorando qualquer discrição, sacou uma escopeta calibre 12 tática, de cano curto, e pendurou uma bandoleira cheia de cartuchos vermelhos no peito.

— Fica na contenção, digital. Se a coisa feder, você corre — Tito resmungou, cuspindo no asfalto.

Entramos pelas portas de vidro estilhaçadas do shopping. O sinal me guiava para o subsolo, num antigo fliperama que ainda tinha a fachada de neon piscando debilmente: Arcade Galaxy. O lugar fedia a mofo e a urina seca. Havia dezenas de máquinas de Street Fighter e Mortal Kombat desligadas, formando um labirinto de madeira e vidro empoeirado.

Jogado no centro do salão, estava o nosso hacker. Ou melhor, o que sobrou dele. O garoto estava com a garganta cortada de orelha a orelha. O sangue já havia coagulado no chão de taco.

— Armadilha — sussurrei, sentindo o estômago despencar.

Antes que Tito pudesse erguer a escopeta, o inferno neon desabou sobre nós e o som estridente de metal enferrujado rasgou o silêncio. A pesada porta de enrolar do fliperama despencou de uma vez, selando a saída com um baque surdo. Fomos instantaneamente engolidos por um breu absoluto.

Três feixes de luz de lanternas táticas rasgaram a escuridão, cravando direto na nossa cara. Eram quatro milicianos brutos, vestindo roupas pretas descaracterizadas, segurando fuzis FAL velhos, pesados e letais. Gente da Zona Oeste que resolve problema na brutalidade do grosso calibre, sem coreografia.

A primeira rajada estilhaçou o vidro de uma máquina de Mortal Kombat, jogando uma chuva de farpas de acrílico e madeira podre em cima de mim. Mergulhei por puro instinto, rolando para trás da carcaça de um simulador de corrida. Tito, por outro lado, era um tanque de guerra analógico. Ele não procurou abrigo. Soltou um xingamento gutural e disparou a calibre 12 na direção da luz mais próxima. O estrondo num ambiente fechado foi ensurdecedor, e o clarão do tiro iluminou o salão por uma fração de segundo, revelando o peito de um dos atiradores sendo afundado pela carga de chumbo.

Estojos quentes tilintavam no chão de taco. Eu estava encurralado, com um revólver .38 na cintura que parecia um estilingue contra o poder de fogo deles. Mas eu sou um cara precavido. Nada de hackear redes elétricas fantasmas ou sistemas de incêndio que não funcionam há vinte anos. A realidade é mais suja.

Puxei do bolso da jaqueta duas baterias de polímero de lítio de alta capacidade — as mesmas que uso para manter meu laptop funcionando longe da tomada elétrica. Cravei a ponta do meu canivete tático no centro das duas para romper a célula de contenção e as joguei pelo chão liso direto no meio da formação dos atiradores.

— Fecha o olho e tranca a respiração, Tito! — gritei.

O lítio exposto ao oxigênio reagiu com uma violência absurda. As baterias não explodiram como granadas de fragmentação, mas entraram numa ignição química descontrolada. Elas cuspiram um fogo branco incandescente de quase mil graus, criando um clarão ofuscante que fritou as retinas de quem estava no escuro, seguido por uma fumaça química densa, tóxica e asfixiante que tomou o ar em segundos.

A tosse desesperada dos milicianos entregou a posição deles. Cegos e sufocando, eles atiraram a esmo no teto. Tito não perdoou a brecha. Avançou na fumaça como um predador, guiado pelo som do desespero, e finalizou o serviço com mais três disparos secos de escopeta. Carnificina pura, rápida e brutal.

Quando o silêncio pesado voltou, cortado apenas pelo chiado das baterias derretendo o piso de madeira, limpei o suor do rosto e fui até o cadáver do garoto no chão do fliperama. Tito chutava as armas dos milicianos para longe, arfando pesado.

Fui revistar o corpo do hacker. Nada nos bolsos da calça jeans. Apertei o forro da camiseta velha. Vazio. Dei um tapa na nuca dele pra checar se havia algum cordão. Nada. Foi aí que notei um desnível estranho na lateral da sola do tênis falsificado dele.

Puxei o canivete, rasguei a costura lateral do calçado e afastei a palmilha suada. Sorri de canto de boca. Ali estava. Um pendrive minúsculo, escuro e fosco, não maior que uma unha, encaixado num buraco feito a quente na borracha. Três milhões de reais num pedaço de silício, que não pesava nem dez gramas, fedendo a chulé e sangue seco.

Caminhamos de volta para o Santana sob o sol impiedoso de Irajá. O Rio de Janeiro continuava o mesmo teatro cínico lá fora. Ninguém chamou a polícia. Ninguém se importava. A sociedade se afoga num mar de tecnologia, achando que o dinheiro invisível e as criptomoedas nos tornaram civilizados e intocáveis. Pura bobagem. Quando o servidor cai, a gente sempre volta para o código-fonte da humanidade: pólvora, sangue e a lei do mais forte.

Entrei no carro, acendi um cigarro com meu Zippo surrado, liguei o ar-condicionado que não funcionava e joguei os milhões no colo de Tito.

— Acelera essa lata velha — murmurei, recostando a cabeça no banco. — O jogo acabou. E eu detesto Game Over.

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