O Golpe dos Algoritmos
Acordei com o sol do meio-dia martelando na minha janela imunda na Lapa & com o hálito de quem tinha engolido um cinzeiro cheio. O loft fedia a café frio e desespero tecnológico. Robert, esse sou eu. Um gênio entre latas de cerveja barata. Sabe, as pessoas acham que a dark web é um submundo místico, mas é só um bando de solitários trocando códigos e frustrações, tipo o Batman se ele trocasse o Batmóvel por um teclado mecânico e uma conexão de fibra ótica instável.
Levantei e dei um tapa no monitor que teimava em piscar. Ali estava ele: o algoritmo da CryptoRio. Uma falha de segurança tão óbvia que chegava a ser insultuosa. Era como deixar a chave da mansão debaixo do tapete e colocar uma placa dizendo “não entre”. Eu não queria os milhões deles para comprar um iate em Búzios. Dinheiro é um tédio. Eu queria ver o gráfico despencar, queria sentir o gosto metálico da ordem desmoronando.
— Robert, você é um idiota — eu disse para o meu reflexo no espelho manchado. — Mas é o idiota que vai apertar o botão.
Enquanto o script rodava, eu pensava nela. Dona Morte. Foi o apelido que dei para a mulher que conheci no fórum NullSector. Ela analisa meus códigos com uma precisão cirúrgica que me dá calafrios e, ao mesmo tempo, um tesão insuportável. Eu sinto que ela está me caçando. Ela sabe quem eu sou. É aquele tipo de obsessão: eu sei que você sabe que eu sei.
O celular vibrou. Não era uma mensagem anônima, era um alerta do sistema. Hum… meu backdoor tinha sido violado. Alguém tinha entrado na minha rede privada não apenas para observar, mas para me marcar. Sabe quando você sente aquele olhar na nuca num bar vazio? Pois é.
Como ela conseguiu meu número? Simples. No mundo de hoje, a privacidade é um mito que contamos para as crianças dormirem tranquilas. Se você sabe onde um bit mora, você sabe onde o dono dele guarda a escova de dentes. Ela não apenas rastreou meu IP; ela cruzou os metadados das minhas compras de café barato e entregas de pizza. Eu fui descuidado, tipo o herói de um filme de terror que ignora o barulho no sótão.
A perseguição não começou com drones futuristas, mas com algo muito mais aterrador: o silêncio. A rede elétrica do quarteirão caiu. No escuro do loft, apenas o brilho azulado do meu monitor revelava o desastre. Eu vi o cursor do mouse se mexendo sozinho. Alguém estava operando minha máquina remotamente.
” Robert, o vento no Arpoador está ótimo. Saia daí antes que o choque térmico seja fatal.”
A frase surgiu no bloco de notas. Senti o suor de ressaca gelar. Peguei minha jaqueta de couro e as chaves da moto. Se o sistema ia sangrar, eu não seria o cordeiro sacrificado no altar do Wi-Fi.
Saí rasgando pela Lapa. A perseguição em Santa Teresa foi um inferno de metal e asfalto. Dois sedãs pretos — discretos como um soco na cara — começaram a fechar o ângulo nas curvas da Joaquim Murtinho. Eles não usavam drones; usavam o sistema de câmeras da cidade. Cada semáforo que eu alcançava ficava vermelho milissegundos antes. Eles estavam manipulando o tráfego para me encurralar, como se eu fosse um rato num labirinto de vidro.
Meti o pé no pedal da Honda velha. A moto rugiu, um som feio e honesto entre o barulho de pneus fritando atrás de mim. Eu não tinha um “ferro digital”, eu tinha um jammer de sinal caseiro que cheirava a solda queimada. Acionei o bicho. O sinal de rádio dos carros em volta entrou em colapso e por um momento, as câmeras de segurança ficaram cegas. Foi o tempo de eu mergulhar por um beco que só quem deve ao agiota conhece.
Cheguei ao Arpoador com o pulmão ardendo de poluição e adrenalina. O sol estava se pondo, tingindo o mar de um rosa doentio. Ela estava lá, de costas. O vestido era justo — uma armadilha de seda.
— Você demorou, Robert — ela disse, sem se virar. A voz era uma lâmina.
— Como você me achou? O número, o acesso… que porra é essa? — eu cuspi as palavras, a paranoia gritando que eu deveria ter ficado na cama.
Ela se virou devagar. Não era uma super espiã. Era a síndica do meu prédio, a Dona Margareth. Aquela que eu chamava de “velha gagá” enquanto ela reclamava do barulho do meu teclado às 3 da manhã.
— Robert, meu caro… quem você acha que instalou a fibra ótica naquele prédio? Eu sou a dona da infraestrutura que você usa para brincar de anarquista. O seu algoritmo? Eu o reescrevi enquanto você dormia a sua última bebedeira.
Ela sorriu, e no sorriso dela vi a ironia amarga de Nelson Rodrigues. O ser humano é um bicho que se acha mestre enquanto é apenas o animal de estimação de alguém mais paciente.
— Eu não quero te entregar para a polícia, Robert. Isso seria um desperdício de talento. Eu quero que você trabalhe para o “outro lado”. Agora, entra no carro. No fim das contas, a liberdade é apenas uma coleira um pouco mais longa.
Eu a encarei, o sal do mar grudando na minha pele e o cansaço pesando como chumbo.
— Que carro? — perguntei, com a voz falhando.
Dona Margareth não respondeu com palavras, apenas com um aceno de cabeça. No mesmo instante, o som de pneus cantando sobre as pedras portuguesas do calçadão cortou o barulho das ondas. Os dois sedãs pretos que me caçaram desde Santa Teresa subiram a calçada, ignorando ciclistas e turistas, parando a poucos centímetros de nós.
A porta traseira se abriu. Um sujeito de terno cinza, com o porte de quem toma soco no estômago no café da manhã e uma protuberância nada discreta sob a axila esquerda, saltou para fora. Ele não sorriu. Apenas segurou a porta aberta, os olhos fixos em mim como os de um predador que já sabe o resultado da caça.
Olhei para a Dona Margareth — ou quem quer que aquela mulher fosse de verdade — e depois para o abismo escuro do interior do carro.
Eu entrei. Sem resistência. Sem piadinhas.
Sabe, a gente passa a vida achando que é o protagonista de um filme de ação, o cara que vai hackear o destino e fugir para o pôr do sol com as mãos cheias de bits e glória. Pura bobagem. No Rio, ou você é o roteirista que manda fechar o calçadão, ou é apenas um figurante com falas ruins esperando a sua deixa para sumir de cena.
Eu sempre odiei o meu papel, mas ali, sentado no banco de couro perfumado com cheiro de carro novo e poder, percebi que o roteiro já estava escrito muito antes de eu ligar o primeiro computador. A ironia bateu no meu peito: o ser humano é um bicho que implora por liberdade, mas só se sente seguro quando sente o peso da coleira.
O carro arrancou. O Arpoador ficou para trás, e eu, Robert, comecei meu novo emprego no escuro.

