Conto: “O Sol e a Sombra de um Rei”
Corinto, 336 a.C. O mundo estava prestes a ser engolido por um jovem macedônio com fome de divindade. Alexandre não era apenas um rei; ele era o “Dono da Porra Toda” daquela época. Tinha generais que matariam por um aceno e filósofos que vendiam a alma por uma nota de rodapé em seus registros. O cara era o herói de cinema antes do cinema existir.
E então tinha Diógenes.
Diógenes era o erro no sistema. Morava num barril — sim, um jarro de barro gigante, porque o mercado imobiliário grego já devia ser uma piada — e vivia de esmolas, latindo para os passantes e fazendo suas necessidades em público só para mostrar como as convenções sociais são estúpidas. Hum… sabe aquele cara que você vê no centro da cidade e atravessa a rua? Era ele. Só que com um cérebro que humilhava qualquer acadêmico de toga limpa.
Alexandre, movido por aquela curiosidade narcisista de quem quer possuir até o que não tem preço, decidiu visitar o mendigo. Ele chegou com a pompa de um desfile de 7 de setembro. Armaduras brilhando, cavalos bufando, o cheiro de poder que empesta o ar.
Diógenes estava lá, estirado no chão, aproveitando a única coisa que o governo não tributava: o sol.
— Eu sou Alexandre, o Grande Rei — proclamou o macedônio, esperando, talvez, que o velho se ajoelhasse ou pedisse um cargo no ministério.
Diógenes nem se mexeu. Abriu um olho remelento e soltou:
— E eu sou Diógenes, o Cínico.
O climão foi instantâneo. Imagina os seguranças de terno e óculos escuros hoje em dia… a mão já ia no coldre. Mas Alexandre, tentando ser o “líder generoso”, ofereceu o mundo:
— Peça-me o que quiser. Riquezas, terras, poder. O que você deseja de mim?
Diógenes deu aquela olhada de quem está vendo um comercial de margarina malfeito. Ele não queria um iate ou um império. Ele queria o que o Rei estava roubando dele naquele exato milésimo de segundo.
— Sim. Afaste-se um pouco. Você está tapando o meu sol.
Ah, a ironia é uma faca de dois gumes, não é? O homem que tinha o mundo nos pés não conseguia dar a Diógenes nada que já não fosse dele por direito natural. Alexandre era o ápice do “ter”, Diógenes era o mestre do “ser”.
A comitiva riu. Chamaram o velho de louco, de lixo humano, de imbecil. Mas Alexandre — que de burro não tinha nada — sentiu o soco no estômago. Ele percebeu que, enquanto ele precisava conquistar nações inteiras para preencher o vazio da alma, Diógenes já estava cheio. O mendigo era mais livre que o imperador.
— Pois eu lhes digo — disse Alexandre, calando os puxa-sacos — que, se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes.
No fim das contas, a história não mente: Alexandre morreu novo, longe de casa, tentando ser um deus. Diógenes morreu velho, no seu barril, sendo apenas um homem. Quem ganhou a aposta? No site a gente sabe a resposta: o poder é uma sombra, mas o sol… ah, o sol é real demais.

