Conto “Plantão 24h: O Turno dos Malditos”
O ar condicionado da UPA na Zona Norte do Rio tinha a mesma eficácia que uma oração em dia de tiroteio: servia apenas para manter o cheiro de éter e sangue circulando num loop infinito. Eu estava ali, escorado num balcão de fórmica lascada, vendendo meu descanso por um extra que mal pagaria minha conta no bar do Seu Zé.
Ser policial militar é, no fim das contas, ser um zelador de luxo com um oitão na cintura e a alma em carne viva.

A madrugada avançava com a sutileza de um soco no estômago. O fluxo era constante. Primeiro, um sujeito com o braço pendurado, depois um garoto com um furo de .40 na coxa. Coisa de rotina, sabe? O tipo de coisa que a gente vê e pensa:
“Vixi, mais um que tentou ser o Tony Montana da favela e acabou como figurante de Grey’s Anatomy”.
Mas aí meu radar de paranoico começou a apitar: eu noto os detalhes que ninguém quer ver.
Todos os feridos — cada um deles — tinham uma marca. Não era tatuagem de facção, não era cicatriz de guerra. Era um pequeno corte cirúrgico, preciso, atrás da orelha esquerda. Quase invisível sob o sangue sujo da rua.
Perguntei pro enfermeiro, um sujeito com olheiras que chegavam no queixo.
— Que porra é essa aqui, amigão?
Ele nem olhou pra mim. Continuou trocando o soro como se eu fosse um fantasma.
— Aqui a gente só cura, Robert. Não faz perguntas. Se você quer ser o Sherlock Holmes, vai pra delegacia. Aqui é o necrotério dos que ainda respiram.

Foi quando ela entrou.
O nome dela era Helena. Ela não caminhava, ela desfilava por aquele chão imundo como se as poças de iodo fossem pétalas de rosa. Usava um jaleco justo demais para ser profissional e um perfume que cheirava a pecado e jasmim. Era a nossa Mulher-Gato particular, mas sem o chicote — ela usava o olhar para chicotear minha sanidade.
— Robert… — ela murmurou, encostando no balcão. O toque dos dedos dela no meu braço foi como um choque elétrico num dia de chuva. — Você está tenso. O que foi? O Rio de Janeiro te deixou com medo das sombras?
— As sombras eu conheço, Helena. O que me fode é o que está tentando se esconder nelas — respondi, tentando manter a voz firme enquanto meu cérebro gritava que ela era o tipo de problema que te faz acordar numa banheira de gelo sem um rim.
Ela riu. Uma risada curta, seca, bem ao estilo Bukowski.
— Todo mundo aqui é uma peça, Robert. Você é a torre. Eu sou a rainha. E o resto… bom, o resto é o que sobra quando a noite termina.

Lá pelas três da manhã, trouxeram um cara. Ele estava mal. O peito parecia uma peneira. Quando passei pela maca, ele segurou minha mão com uma força sobrenatural. Os olhos dele estavam arregalados, injetados.
— Robert… — ele engasgou com o próprio sangue. — Você… você conseguiu. Eles disseram que você ia voltar.
Eu travei. Senti o frio subir pela espinha como se eu tivesse sido escalado para um filme do Christopher Nolan e tivesse perdido o roteiro.
— Eu não te conheço, parceiro. Teu papo é com o médico.
— Não mente pra mim! — ele gritou, e o som ecoou pelo corredor vazio. — A gente estava lá! Na “Fábrica”! Você era o modelo 0-14!
Olhei para Helena. Ela estava parada no fundo do corredor, com as mãos nos bolsos do jaleco, me observando com uma calma que me deu náuseas. Ela não parecia surpresa. Ela parecia… satisfeita.

Eu já passei por muita coisa. Já vi tiro, porrada e bomba. Mas aquela sensação de vazio no estômago era nova. Corri para o banheiro e joguei água na cara. Encarei o espelho.
A luz da UPA piscou. Tic. Tic. Tic.
Lembrei da marca. O corte atrás da orelha.
Lentamente, levei minha mão até o lado esquerdo da minha cabeça. Meus dedos tatearam a pele por trás da orelha.
Lá estava ele. Um sulco fino, perfeitamente cicatrizado. Um corte cirúrgico.
A porta do banheiro abriu. Helena entrou. Ela não tinha mais o olhar de sedução; era o olhar de um técnico de TI reiniciando um servidor. Ela segurava um tablet.
— Sabe, Robert, o problema dos modelos da série ‘R’ é que vocês desenvolvem essa mania melancólica. Esse cinismo de policial de filme noir. É um bug no sistema de empatia — ela disse, deslizando o dedo pela tela.
— Do que você está falando, porra? Eu sou Robert, 12 anos de corporação, morador de Realengo…
— Você é um protótipo de pacificação urbana, querido. O Estado cansou de pagar pensão para viúvas de PMs reais. Por que usar humanos quando podemos fabricar policiais que não cansam, não dormem e morrem sem reclamar? O “plantão” na verdade é o seu período de teste de campo.
Ela apertou um botão na tela.
Minha visão começou a granular, como uma TV velha perdendo o sinal. Meus pensamentos, antes ácidos e complexos, começaram a se simplificar.
A ironia final? Nelson Rodrigues adoraria. Eu não era o herói amargurado da história. Eu era só a porra de um eletrodoméstico fardado, perdendo a garantia em uma madrugada quente no Rio.
— Amanhã você acorda novo em folha, Robert. Sem as dúvidas. Só com a farda — ela sussurrou no meu ouvido enquanto eu caía.
Apaguei. No fim das contas, a vida é uma merda, mesmo quando você é feito de silício e propaganda estatal.

