Conto: O Zoom da Paranoia – Um Crime em 4K

Conto: O Zoom da Paranoia – Um Crime em 4K

A noite no Rio de Janeiro tem um cheiro bem peculiar, sabe? Uma mistura agressiva de maresia, escapamento de ônibus de tubo furado e desespero perfumado. Meu apartamento em Copacabana é um buraco úmido iluminado apenas pelo brilho frio de seis monitores 4K. Robert, o voyeur digital. Esse sou eu.

Ganho a vida pilotando drones envenenados com lentes térmicas e um zoom de padrão militar para espiar engravatados e madames que acham que o vidro fumê das suas coberturas no Leblon é algum tipo de escudo mágico. Pura ilusão. A verdade é que o rico infiel é, antes de tudo, um exibicionista. Pra impressionar as amantes ou os ‘Ricardões’, eles sempre querem aquela noite de amor cinematográfica com vista pra lua e pro mar. Resultado? As cortinas estão sempre abertas. E juntando a arrogância deles com o meu zoom monstro e as visões térmica e noturna, a matemática é simples: mesmo que um reflexo ou a pouca luz não me dê a cena perfeita em 4K, pelo menos uma silhueta suada e muito bem definida eu consigo capturar. Hum… quem nunca se pegou pensando se está sendo observado na intimidade, né? Pois é, você provavelmente está. E, geralmente, sou eu quem está do outro lado da lente.

Naquela terça-feira maldita, a missão cheirava a dinheiro fácil. Uma madame forrada da grana queria a prova definitiva de que o marido — um tubarão engravatado do mercado financeiro — estava afogando o ganso com alguma personal trainer ou modelo de Instagram. Rastreei o sedã alemão do desgraçado cortando as ruas do Leblon. O casal desembarcou pela garagem, furtivos como ratos, e subiram direto para a cobertura de um prédio luxuoso debruçado sobre a praia. O barulho violento das ondas quebrando na areia era a camuflagem acústica perfeita para abafar o zumbido das minhas hélices. Posicionei meu ‘pássaro’ de fibra de carbono a duzentos metros de altura, pairando feito um fantasma invisível naquela noite sem estrelas, com a lente cravada milimetricamente no vidro da sala da cobertura dele.

Tudo normal no circo da luxúria. O cara bebendo um vinho caro, a garota rindo solta. Os dois já estavam com o mínimo de roupa possível, a um passo de irem para os finalmentes. O ângulo me sacaneou um pouco nessa parte; ela estava meio de costas, então não consegui pegar o rosto da mulher de jeito nenhum. Mas o marido… ah, o marido estava de frente para a janela, com a cara de canalha perfeitamente limpa e nítida em gloriosos 4K na minha tela. Comecei a dar o zoom. Tipo assim, aquele zoom absurdo e invasivo que parece arrancar a alma do alvo. O foco, porém, não cravou no casal. Uma anomalia chamou minha atenção no reflexo do espelho gigante que tomava a parede do fundo da sala.

Havia mais alguém lá. Uma terceira silhueta, sólida e precisa, descolando do breu do corredor como se fizesse parte da arquitetura. Não houve hesitação, não houve aviso. O movimento foi de uma fluidez absoluta e doentia. O aço fosco de uma faca tática brotou na tela e desenhou um arco cirúrgico ao redor do pescoço do engravatado. De orelha a orelha. A lâmina abriu a carótida e a traqueia de uma vez só, com a exatidão de um abatedouro profissional. Na minha tela, o sangue não era apenas um líquido; era um gêiser incandescente de calor puro jorrando pela sala. A mancha quente espirrou no vidro, manchando o tapete felpudo quase instantaneamente. O tubarão financeiro arregalou os olhos num choque mudo, as mãos subindo num reflexo inútil para tentar fechar um buraco que já estava despejando a vida dele no chão. Ele desabou pesado, um saco de carne e osso engasgando no próprio sangue. E a garota? Não teve grito de desespero. Não correu. Com a frieza de um réptil, ela simplesmente deu dois passos para trás e se deixou engolir pelas sombras do apartamento.

Meu coração errou umas três batidas. Sabe quando o ar congela no pulmão e você percebe que a morte passou raspando? Dei um gole seco na garrafa de Jack Daniel’s Tennessee Honey que estava na mesa e acendi um cigarro com o meu velho Zippo — aquele já manjado, com ‘Robert’ gravado na lateral e a adaptação caseira para gás butano. Traguei fundo a fumaça e trouxe o drone de volta pra base no modo mais furtivo possível. Passei as três horas seguintes num breu total, isolando cada maldito pixel. Ampliando. Limpando.

A paranoia bateu de uma forma doentia, queimando meu cérebro. Comecei a analisar a linguagem corporal daquela sombra assassina e da garota de programa, os padrões de movimento. Quando apliquei o filtro de contraste máximo na imagem final, meu estômago afundou. Percebi o tamanho da merda colossal em que eu tinha me metido. Em momento algum as duas olharam para o vidro da janela. Nem um mísero reflexo, nem um desvio de olhar de rabo de olho. A frieza deles era mecânica, ensaiada. Parecia que já sabiam, desde o primeiro segundo, que estavam sendo gravadas. Fiquei tanto tempo matutando sobre aquela coreografia macabra, preso na fumaça do cigarro e no brilho do monitor, que cometi o pecado capital da minha profissão: fui absurdamente descuidado. Eu não percebi que o meu ‘pássaro’ não tinha feito a viagem de volta sozinho. Nas imagens traseiras que eu ignorei na pressa, lá estava ele: um segundo drone, escuro e furtivo, voando no ponto cego do meu radar. O desgraçado seguiu o meu aparelho de longe no céu noturno e pegou a minha localização exata assim que recolhi o equipamento pra dentro do meu buraco. Eu não era o caçador de segredos; eu tinha virado o GPS da minha própria cova.

Eles não mandaram um e-mail com ameaças veladas. A violência no Rio não tem botão de “mute”. Algumas horas depois de desligar o meu equipamento a porta do meu apartamento explodiu pra dentro num clarão, estilhaçando a madeira e a fechadura barata. Dois brutamontes enormes, vestindo preto tático, armas automáticas com silenciadores longos. Ação de limpeza de alto nível, sabe?

Mas no meu território minúsculo, o analógico sempre esbarra de frente com o digital. Eu não tinha uma pistola debaixo da mesa ou no travesseiro, mas sou um espião paranoico, e a paranoia gera preparo. Os três drones de corrida descansando na minha bancada de ferramentas não eram brinquedos; eu tinha hackeado a placa-mãe de todos eles, arrancando os protocolos de segurança de fábrica e invertendo o código dos sensores anti-colisão. Quando a porta voou, eu não hesitei. Bati a mão num botão vermelho de pânico no meu rádio mestre — um protocolo Swarm rudimentar, programado para buscar e interceptar qualquer assinatura térmica em movimento no apartamento que não fosse a minha, abaixada atrás da mesa.

Os LEDs piscaram e os rotores ligaram no máximo em uma fração de segundo. O zumbido virou o de um enxame de vespas enfurecidas. Guiado pelo calor, o primeiro aparelho se lançou como um míssil kamikaze direto no rosto do cara que vinha na frente. Sem nenhuma trava de segurança para impedi-lo de bater, as hélices de fibra de carbono girando a milhares de RPM rasgaram a bochecha e o olho do infeliz como se fosse papel manteiga. Um barulho molhado e repulsivo. Ele berrou, o sangue respingando no ar enquanto ele disparava a esmo, estraçalhando dois dos meus monitores.

Eu tentei mergulhar por trás da bancada, mas o corpo de quem passa dezoito horas por dia curvado numa cadeira cobra o seu preço. Eu fui lento. O segundo matador girou a arma e disparou. Senti um soco quente e absurdo rasgando a lateral do meu abdômen. A dor me cegou por um segundo, como um choque elétrico nas entranhas. Caí pesado atrás da mesa, arfando, o sangue do primeiro cara espirrando no meu teclado mecânico enquanto o meu próprio sangue já começava a ensopar a minha camisa escura.

O segundo desgraçado avançou para terminar o serviço, flanqueando a bancada. Com a vista embaçada e movido pelo puro e animalesco desespero, tateei a mesa às cegas. Meus dedos esbarraram no cabo do ferro de solda, que ainda estava ligado na base, com a ponta trincando de quente. Quando o cara apareceu na quina da mesa, cravei o metal incandescente direto na coxa dele. O cheiro nauseante de carne e nylon queimados se misturou com o cheiro da pólvora e da maresia lá fora. Foi uma carnificina claustrofóbica. Aproveitando o berro de agonia dele, usei o resto de força que eu tinha para empurrar o corpo do infeliz contra o que restava da janela. Ele perdeu o equilíbrio e despencou para o fosso escuro de ventilação do prédio.

Eu sobrevivi. Arfando, sangrando feito um porco abatido e com a porra do pen drive com os videos no bolso da calça.

Dirigi a minha moto velha igual a um suicida até a mansão da tal “viúva” no Joá. Cheguei lá cheirando a ferro e morte, esperando o choque, o pânico, talvez até a gratidão eterna dela. Joguei o disco rígido na mesa de centro de mármore italiano, apertando a mão contra o buraco na minha camisa para o meu sangue não sujar o tapete dela.

— Escuta… é melhor a senhora sentar e talvez virar a bebida mais forte que tiver nesse bar aí — eu disse, tentando preparar o terreno. Minha voz saiu rouca, falhando um pouco pelo esforço e pela dor. Achei, na minha imensa ingenuidade, que iria destruir o mundo daquela mulher ali mesmo. — O trabalho que a senhora pediu saiu completamente do roteiro. O seu marido não estava só pulando a cerca. Mataram ele. Eu gravei tudo. Foi uma execução encomendada, profissional, e os desgraçados quase me mataram junto pra queimar o arquivo.

Ela me olhou demoradamente. Pegou o pen drive com as unhas perfeitamente esmaltadas, plugou num notebook caríssimo e deu o play. Quando a faca cortou o pescoço do cara no vídeo, ela não chorou. Ela não gritou. Ela… sorriu. Um sorriso contido, gélido e absolutamente perverso.

— Você não entendeu nada, Robert — ela suspirou, servindo tranquilamente uma taça de champanhe. — Meu marido não fugiu. Ele está exatamente onde merece: no necrotério. O desgraçado estava torrando a fortuna da minha família bancando festas e garotas de programa de luxo. Aquele vídeo ali é a chave de ouro para acionar um seguro de vida de cinquenta milhões de reais.

Travei. A mente dando curtos-circuitos, tentando conectar os pontos enquanto a dor na minha barriga latejava no ritmo do meu coração.

— E você, meu caro hacker — ela continuou, cruzando as pernas —, era a peça de sacrifício. O plano era simples: um ‘voyeur’ pervertido tenta chantagear um empresário, a coisa sai do controle e o empresário é morto. Em seguida, a polícia encontra o espião morto no próprio apartamento num suposto acerto de contas com agiotas, segurando as provas do crime na mão. Era pra você ser o presunto premiado dessa noite. Mas olha… parabéns. Sobreviver àqueles dois foi impressionante. Não leve para o lado pessoal, querido. Eram apenas negócios.

Ela esticou o dedo e apertou um botão discreto debaixo do tampo de mármore. O clique ecoou na sala. A porta dupla de mogno se abriu e dois armários em forma de gente, vestindo ternos impecáveis e com as mãos cruzadas sobre o volume óbvio das armas nos paletós, entraram no recinto.

— Mas eu sou uma mulher de negócios justa. Vou te compensar pelos contratempos e por esse buraco no seu abdômen — ela disse, com a naturalidade de quem pede um café expresso. — Você tem duas opções, Robert. A primeira: tenta bancar o herói justiceiro, enfrenta esses dois cavalheiros aqui, e, se por um milagre sobreviver, vai à polícia. Mas você sabe como o Rio de Janeiro funciona. Mais cedo ou mais tarde, vão aparecer mais dois. E depois mais quatro. A segunda opção: você deixa essa gravação na minha mesa, pega a mala de dinheiro que os rapazes vão te entregar, vai para casa curar suas feridas e espera tranquilamente pelo meu próximo serviço. Ah, e não se preocupe… eu mando uma equipe de limpeza cuidar daquela bagunça de carne morta no seu apartamento e no fosso do prédio.

Eu apertei a mão contra o ferimento molhado, sentindo o sangue quente escorregar pelos dedos. Olhei para a madame, para os capangas de pedra e para a noite lá fora.

— Que garantias você me dá de que não vão terminar o serviço assim que eu virar a esquina? — perguntei, a voz rasgando a garganta seca.

Ela deu um gole no champanhe, o cristal da taça brilhando sob o lustre de cristal.

— Nenhuma, Robert. Mas você não tem escolha.

Não falei nada. Uma gota do meu próprio sangue pingou no chão de mármore branco. Eu sabia quando a banca tinha ganhado. Peguei a garrafa de champanhe aberta da mesa dela, dei um gole longo e amargo direto no gargalo e peguei a maleta preta da mão de um dos seguranças. Saí caminhando para a noite, mancando e sentindo o gosto do fel.

A sociedade acha que a tecnologia nos dá o poder de ver tudo, mas a verdade é que o ser humano é cego por escolha. Eu achei que era o caçador no céu, mas no fim das contas, eu era só o vira-lata mais útil da rua. A tecnologia não passa de uma lente de aumento para a nossa própria ignorância. Fui só o cinegrafista voluntário dessa farsa macabra.

O Rio de Janeiro, meu amigo, não perdoa quem acha que é mais esperto que ele.

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