O Ingrato: Um Coração Roubado no Rio de Janeiro
Betinho não nasceu, foi cuspido no mundo. Um filhote de privilégio com pedigree de cuzão. Desde moleque, a existência dele era uma afronta. Brinquedo novo? Durava até o primeiro acesso de raiva. Jogo de bola na rua? Só até ele se cansar e, claro, levar a bola embora. A bola era sempre dele. O mundo era sempre dele. Um “não” era um dialeto estrangeiro que ele se recusava a aprender. E os pais, ah, os pais… arquitetos daquele pequeno monstro, sempre com um “sim” engatilhado para evitar o escândalo.
A idade chegou, mas a maturidade pegou outro ônibus. A coleção de chatices infantis evoluiu para um arsenal de futilidades caras. Pistolas austríacas que nunca viram um estande de tiro, motos japonesas que só aceleravam entre a Barra e o Leblon, e relógios suíços, um para cada pulso, como se ele pudesse comprar o tempo que perdia sendo um babaca.
Até que o corpo, essa máquina ingovernável, resolveu cobrar a conta. O coração, aquele músculo estúpido e sentimental, começou a falhar. Uma pontada aqui, uma falta de ar ali. O motor V8 do playboy estava batendo pino. O diagnóstico veio seco, como um gole de cachaça barata: transplante. Urgente.
O Sistema Único de Saúde, carinhosamenta apelidado de SUS, essa mãe anônima e caótica dos desvalidos, achou um coração para ele. Um músculo anônimo, de um fodido qualquer, agora batia no peito de seda do Betinho.
Qualquer ser humano estaria profundamente agradecido por ganhar uma segunda chance do universo, mas não o Betinho. Para ele, não foi um milagre, não foi um presente. Foi um reparo. Uma troca de peça defeituosa numa máquina que ele julgava perfeita.
A gratidão, minhas caras e meus caros, não veio no pacote. Veio a obsessão. De quem era a peça? Quem foi o otário que morreu para que ele pudesse continuar sua vidinha medíocre? Era uma questão de procedência, como saber a safra de um vinho ou a origem de um diamante. O SUS, com suas regras rígidas sobre sigilo e mesmo com suborno oferecido pelos pais do delinquente pela informação, negou. E Betinho, como sabemos, não falava o dialeto do “não”.
Um container de dinheiro viajou virtualmente até Hong Kong. Hackers de nome impronunciável rasgaram os servidores do governo como papel de seda. Em poucas horas, um e-mail cifrado trouxe a resposta: o nome, o CPF, a certidão de óbito. Tudo.
O passo seguinte foi contratar o melhor detetive do Rio. Um ex-policial cínico que cobrava um carro zero por hora e não fazia perguntas. O relatório voltou rápido. O doador era um tal de Ricardo. Zé-ninguém. Morava no morro de Santa Teresa. Morto vítima de um assalto. Deixou para trás uma viúva. Sandra.
O nome dela estalou na mente de Betinho. Sandra. Um novo brinquedo.

Ele não ia chegar como um troglodita. A abordagem precisava de fineza, de uma certa canalhice artística. Outra remessa de grana, dessa vez para um moleque em São Paulo, um gênio do código que vivia de café e pizza fria. Em um dia, o WhatsApp de Sandra era um livro aberto no celular de Betinho. Ele via tudo, lia tudo. E, mais importante, podia se meter no meio.
Ele esperou a hora certa, no meio da madrugada, quando a solidão aperta mais forte. “Stalkeando” a viúva descobriu um momento em que ela escrevia para uma amiga lamentos por estar sozinha naquele momento.
Forjou uma mensagem, se passando por um número desconhecido, um pedido de ajuda patético.
“Oi, desculpe o incômodo, me indicaram seu contato. Disseram que vc é uma pessoa boa. Estou perdido aqui perto. Pode me ajudar?”
Ela, com a ingenuidade de quem ainda acredita em gente, respondeu.
A conversa fluiu como um roteiro. Ele era o rico triste, o homem que tinha tudo e não tinha nada. Um clichê ambulante. E ela, a mulher simples, de coração bom, mordeu a isca com gosto. Marcaram um encontro. Lapa. Onde mais? O coração boêmio e fudido da cidade.
Eles se encontraram sob os Arcos. A Lapa fedia a mijo, cerveja barata e esperança vencida. Perfeito. Ele a levou para um bar qualquer, contou suas mentiras bem ensaiadas. Ela ouvia, com aqueles olhos de quem já viu desgraça demais. Foram para um motel barato ali perto, um desses com espelho no teto e cheiro de desinfetante.
A noite foi… crua. Menos sexo, mais colisão. No meio dos corpos suados e da respiração ofegante, os dedos dela passearam pelo peito dele e pararam na cicatriz, aquela linha vertical e pálida sobre o coração.
“Engraçado”, ela disse, a voz abafada no travesseiro. “Uma cicatriz igual à do meu marido… bem, a dele era da autópsia. Ele era doador de órgãos, sabe? Seria uma puta coincidência se esse coração aí fosse dele.”
A frase o atingiu como um soco no estômago. A ironia era tão densa que ele podia mastigar.
E ali, naquele quarto fedido, aconteceu o inesperado. Betinho, o ingrato, o colecionador de coisas, sentiu algo diferente. Não era amor, era mais primitivo. Era posse. A história era boa demais. Ele tinha o coração do marido dela, e agora tinha ela. O combo completo. Ele se apaixonou pela trama, pela tragédia, e a confundiu com a mulher.
Os dias passaram. A obsessão cresceu. Ele precisava contar. Precisava ver a reação dela, precisava ser o centro daquele drama delicioso.
Marcou o encontro na Feira da Glória, à noite. As barracas fechando, o cheiro de pastel e caldo de cana no ar. Um cenário popular para uma revelação de elite.
“Sandra… eu preciso te contar uma coisa.”
Ele soltou a bomba. Falou do transplante, da busca, da coincidência macabra. Disse que o coração que batia no peito dele, o coração que naquele momento acelerava por ela, era o do Ricardo.
O rosto dela se transformou. O choque, a incredulidade, depois a raiva. “Você me enganou. Você brincou comigo esse tempo todo!” A voz dela era um chicote.
“Eu não queria me envolver, eu juro! Mas eu não consegui controlar”, ele mentiu, com a sinceridade de uma nota de três reais. Para recuperar o controle da cena, ele atacou. “Mas… como ele morreu? O relatório dizia assalto, mas foi só isso?”
Ela hesitou. Os olhos marejados, a boca trêmula. “Foi um traficante. Um desgraçado. Matou meu marido por nada.”
A oportunidade perfeita. O herói trágico.
“Eu vou vingar a morte dele”, Betinho prometeu, o peito estufado com o coração do outro. “Por você. Quem foi? Onde eu acho esse cara?”
“O nome dele é Robert”, ela sussurrou, como quem confessa um pecado. “Fica ali pelo Catete, perto do Parque.”
Era tudo que ele precisava.

Betinho foi para casa e se preparou para a guerra. Duas Berettas 22, pequenas e discretas, presas com fita nos tornozelos. Uma Glock 19, carregada, enfiada na cintura, nas costas. Ele se sentia um personagem de filme, o justiceiro improvável.
Caminhou pelas ruas do Catete. A noite era quente e úmida. O som de um pagode frouxo o guiou até um bar de esquina. E lá estava ele. Robert. Sentado de costas para a rua, tomando uma cerveja, a camisa aberta exibindo uma pesada corrente de ouro.
Betinho se aproximou por trás, a adrenalina cantando em seus ouvidos. Sacou a Glock. O cano gelado tocou a nuca de Robert.
“Tenho uma mensagem da Sandra pra você, seu covarde. Vim vingar o marido dela.”
Robert não se mexeu. Apenas inclinou a cabeça, lentamente. A música do pagode não parou.
“Hummm. Da Dinha?”, ele disse, a voz calma, quase entediada. “Ainda bem que você veio. Fala pra ela que eu não gostei de você, Betinho.”
O nome. Betinho. O chão sumiu.
“Como você sabe meu nome?”
“Ela me contou, porra. Falou que você viria…”
Antes que a frase terminasse, o mundo de Betinho explodiu em dor. Uma coronhada na lateral da cabeça, vinda do nada. Um segurança de Robert, um armário de dois metros que estava sentado na mesa ao lado, o tempo todo.
Ele caiu na calçada suja, o som do pagode agora distorcido. A Glock rolou para longe. O sangue quente escorria pela sua testa, misturando-se à cerveja derramada no chão. Robert se virou na cadeira, pegou a arma de Betinho do chão e o encarou com desprezo.
“Ela me falou de você, playboy. Me falou que você a enganou, que tentou comprar a coitada com teu dinheiro de merda.”
“Mas… eu ia vingar o marido dela!”, Betinho ganiu, o gosto de sangue na boca.
Robert soltou uma gargalhada, uma risada feia, que fez o segurança rir também.
“Vingar aquele bundão? Aquele merda bêbado que enchia ela de porrada todo santo dia? Foi ela que me procurou, mané. Me pediu pra dar um ‘jeito’ nele. E eu dei.”
A verdade o atingiu. Mais forte que a coronhada. Vadia.
“E ela me disse a melhor parte…”, Robert continuou, se agachando, o cano da Glock agora apontado para o peito de Betinho. “…disse que você ‘tava com o coração dele. Parece que você herdou a burrice junto. Vou ter que matar esse verme duas vezes.”
O primeiro tiro. Um soco de fogo no peito. O segundo. O ar sumindo. O terceiro. Tudo escurecendo.
Betinho via, como num filme em câmera lenta, Robert e o segurança voltando para a mesa, para terminar a cerveja. O pagode ainda tocava, falando de um amor que não deu certo.
A ironia final. Ele ia morrer ali, enganado, no meio da rua, ao som de um pagode ruim.
Mas a ingratidão era um combustível poderoso. Mesmo com o peito explodindo, com a vida escorrendo para o bueiro, um último impulso elétrico percorreu seus nervos. Um espasmo de puro despeito. Sua mão direita, tremendo, desceu até o tornozelo direito. Depois a esquerda para a outra perna.
Com as duas Berettas nas mãos, numa última e patética rajada de ódio, ele atirou. Mirou nas costas largas, nos vultos que riam da sua morte. Os tiros, parecendo estalinhos, foram precisos. Robert e o segurança caíram sobre a mesa, derrubando as garrafas de cerveja num barulho final e molhado.
O pagode parou. Silêncio.
Betinho deu seu último suspiro olhando para o céu sujo do Rio. O coração de um homem espancado, que por um milagre da ciência do século XXI ainda funcionava, finalmente parou de bater.
Nem com uma segunda chance, o ingrato soube agradecer. Apenas arrastou todo mundo com ele para o mesmo buraco.


