Conto Noir Amor, Whisky e Delírio: O Teorema do Copo Vazio

Conto Noir Amor, Whisky e Delírio: O Teorema do Copo Vazio

Era uma daquelas noites no Rio de Janeiro em que o calor não te larga, sabe? Ele gruda na pele como uma amante ciumenta que você não consegue despachar. Eu estava sentado numa mesa bamba do Bar da Cachaça, na Lapa, vendo o suor escorrer pelo rótulo da minha cerveja e pensando em você.

Sempre você.

Você entrou deslizando pela multidão da Mem de Sá como se fosse a dona do asfalto. Vestido vermelho, aquele sorriso de quem acabou de cometer um crime e saiu impune. Femme fatale de filme B, eu diria, se a vida fosse um filme noir e não essa comédia pastelão dirigida por um bêbado.

— Atrasada — eu disse, sem olhar no relógio. Eu não usava relógio. O tempo para mim era medido em garrafas vazias.

— O trânsito na Lapa é um inferno, Robert — você respondeu, puxando a cadeira e roubando meu copo. Bebeu num gole só.

Eu te observei. É o que eu faço, não é? Eu analiso. É a minha maldição e o meu passatempo. Li num artigo outro dia sobre “limerência”. Dizia que é um “desejo involuntário, incontrolável e obsessivo por outra pessoa”. Bonito, né? Os doutores de jaleco branco adoram dar nomes chiques para o que a gente chama de “estar ferrado”. Eles dizem que a gente busca validação porque tem um “vínculo traumático”, um ciclo de abuso e recompensa, tipo rato de laboratório apertando o botão pra ganhar açúcar.

Mas eu não via açúcar nenhum ali. Só o sal do seu suor e o amargo do lúpulo.

— Você tá me olhando com aquela cara de novo — você disse, acendendo um cigarro. A fumaça subiu, dançando com as luzes dos Arcos lá fora.

— Você tá me olhando com aquela cara de novo — você disse, acendendo um cigarro. O isqueiro era um Zippo velho, com as laterais gastas de tanto bater em bolso errado e mesa pegajosa. Numa das faces, o nome ROBERT estava esculpido fundo no metal, não como vaidade, mas como quem marca território antes de desaparecer. Ele não usava o miolo clássico: lá dentro havia um insert de gás butano, desses que transformam fogo em maçarico. A chama saiu azul, limpa, quase clínica — nada daquele amarelo sujo e romântico dos Zippos comuns. Um fogo que não dança, não vacila. Só queima. A fumaça subiu em linha reta por um segundo, antes de se misturar às luzes dos Arcos lá fora.

— Que cara?

— De quem tá dissecando um sapo na aula de biologia.

Eu ri. Uma risada seca, curta. Você sabia exatamente o que estava fazendo. Você é como aquela protagonista de Garota Exemplar, mas sem o planejamento meticuloso; o seu caos é natural, orgânico, bio.

— Pedi outra — gritei pro garçom, um sujeito que parecia tão cansado da vida quanto eu.

A noite foi ficando turva. O uísque entrou na jogada — o combustível do desastre. A gente começou a falar sobre nós, o que é sempre um erro depois da meia-noite.

— A gente não funciona, Robert — você soltou, brincando com o isqueiro. — Somos dois trens desgovernados na mesma linha.

— Clichê — rebati. — Tenta outra metáfora. Cultura pop, talvez? Somos o Ross e a Rachel se eles fossem alcoólatras e morassem na Lapa?

Você revirou os olhos. Aqueles olhos que, segundo a psicologia, ativam meu sistema de recompensa intermitente. Eu sabia que era tóxico. Eu sabia que a sua necessidade de atenção era um buraco negro que engolia qualquer luz ao redor. Mas, porra, como era bom cair nesse buraco.

De repente, um sujeito encostou na nossa mesa. Camisa de botão aberta até o umbigo, corrente de ouro falsa, cheiro de perfume barato misturado com fritura.

— A dama tá acompanhada? — ele perguntou, ignorando completamente a minha existência, o meu copo e a minha carranca.

Eu podia ter deixado pra lá. Podia ter sido o homem evoluído, desconstruído, o “homem de valor” que os coachs de internet vendem. Mas o uísque tem suas próprias leis, e a lei marcial tinha acabado de ser declarada.

Levantei devagar. Senti o sangue bombear nos ouvidos, aquele som surdo, tump-tump, que precede a estupidez.

— A dama — comecei, apontando o dedo na cara dele — está ocupada destruindo a minha vida. E eu sou muito possessivo com a minha destruição. Arruma a sua própria catástrofe.

O cara piscou. Você riu. Aquela risada que quebra vidro. O sujeito resmungou algo e saiu, mas o clima já tinha azedado. A “romantização do ciúme”, diriam os críticos de cinema. Eu chamo de terça-feira.

Saímos dali tropeçando. As ruas de Santa Teresa pareciam um labirinto desenhado por Escher. Subimos a ladeira em silêncio. A tensão sexual e a raiva caminhavam de mãos dadas, como duas crianças indo para a diretoria.

Chegamos no meu apartamento. Aquele cubículo que cheirava a livros velhos e pontas de cigarro, meu santuário sujo. Você me empurrou contra a parede. Beijo com gosto de álcool e desesperança.

— Você é um idiota, Robert — você sussurrou.

— E você é um problema — respondi.

Fomos para a cama. Não foi amor. Foi uma colisão. Foi visceral, cru, sem trilha sonora romântica, só o barulho do ventilador de teto rangendo como se pedisse socorro.

Quando acordei, a luz do sol entrava pela janela sem pedir licença, ferindo meus olhos. A dor de cabeça era um martelo pneumático. Olhei para o lado.

Vazio.

O travesseiro estava frio. Nem um bilhete, nem um grampo de cabelo esquecido, nada. Levantei, fui até a cozinha, abri a geladeira em busca de uma água salvadora.

E aí eu vi.

Na porta da geladeira, preso por um ímã de pizzaria, estava uma foto. Uma foto minha. Sozinho. Na mesa do bar.

Me veio à mente quando meu terapeuta (aquele que eu parei de pagar) disse algo sobre projeção. Peguei a garrafa de uísque vazia no chão. Olhei para a sala. Não tinha cinzeiro com batom. Não tinha cheiro de perfume.

Nunca teve.

Eu sentei no chão frio da cozinha e comecei a beber o que restou da garrafa de Jack Daniels, isso as 9 horas da manhã. Uma risada que doeu no peito.

Eu tinha passado a noite inteira discutindo, bebendo e trepando com a minha própria solidão. A tal “história de amor” era um monólogo. A mulher fatal, os problemas, a briga no bar… tudo fabricado por um cérebro encharcado de álcool e carência, desesperado para sentir qualquer coisa que não fosse o vazio. A limerência não precisa de um alvo real, afinal. Ela só precisa de um hospedeiro.

Levantei a garrafa, enfim vazia, num brinde ao nada.

— Saúde, Robert — eu disse para a parede. — Pelo menos a gente nunca vai se abandonar.

Como você avalia esse conteúdo?

Clique nas estrelas

Como você achou esse post útil...

Sigam nossas mídias sociais

Lamentamos que este post não tenha sido útil para você!

Vamos melhorar este post!

Diga-nos, como podemos melhorar este post?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Tamanho do Texto-+=