Conto “À Beira do Abismo: O Sequestro e a Engrenagem da Loucura no Rio”
— tem certeza de que não é só a sua cabeça fritando, Morgana? — perguntei, dando um gole na minha bebida quente e tentando manter a ironia. tipo assim, a gente sempre veste uma armadura de cinismo pra esconder o desespero por baixo, sabe como é?
Afinal de contas, eu devia estar focado no meu próprio manuscrito. grande bosta. a verdade nua e crua é que eu sou um escritor falido, beirando os meus cinquenta e um anos no calor infernal do Catete, que nunca conseguiu vender a porra de um único livro. mantinha um bloguezinho no google sites e só… mas me veio à mente quando eu tentava empurrar minhas histórias pras editoras e só recebia o silêncio de volta. quem realmente sustentava a casa, quem botava a comida na mesa e pagava o meu uísque, era a Morgana, enrolando um bando de otários com falsas previsões e jogos de baralho. no fim das contas, a vida real ali na nossa sala estava se tornando muito mais nojenta, muito mais visceral, do que qualquer resenha de cinema que eu já tivesse cagado no teclado.

Fui até o garoto e o desamarrei. Ele me olhava com um misto visceral de terror e alívio. Enfiei ele no carro & dirigi rasgando a chuva até um terreno baldio bem longe dali, um buraco escuro e esquecido… sem porra de câmera de segurança nenhuma nos postes e, graças a deus, sem nenhuma alma viva pra servir de testemunha. Soltei ele lá no meio do nada. A vida é assim mesmo, a gente faz o que tem que fazer e torce pra não acordar com a corda no pescoço.



